09
Out 18

Léxico: «consulado»

Com licença

 

      A questão era como traduzir o termo inglês reign. Referia-se, atenção, a um primeiro-ministro. A Walpole, digamos. É natural, creio, que nos surja logo a palavra «reinado», num sentido figurado, bem entendido, para a traduzirmos. Contudo, pode ser equívoca, tanto mais que o contexto é todo referido a uma monarquia. Como fugir ao que parece inevitável? Ocorreu-me a palavra consulado. Não dizemos nós que no consulado de Fulano se fez isto ou aquilo? Bem, para os dicionários parece que não se diz. Não para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo. E então, mudamos a língua ou os dicionários? «E, apesar de os territórios não autónomos irem sendo cada vez mais raros, ainda ocorreram emancipações com significado no consulado de Marcelo Caetano: as ilhas Fiji, Omã, Tonga, Bahrein, Quatar [sic], Bangladesh, as Baamas» (Quase Memórias: do colonialismo e da descolonização, 1.º vol., António de Almeida Santos. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2006, p. 183).

 

[Texto 10 077]

Helder Guégués às 15:32 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «levoverso»

Se compararmos

 

      «Helena ensaia o que já aprendeu em árabe. Há alguns anos que estuda esta língua difícil. É uma das alunas do curso de árabe que é lecionado no Centro de Estudos Luso-Árabes, em Silves. Uma bonita casa cor de terra com traços islâmicos. [...] Apesar da [sic] língua portuguesa ter 18 mil palavras de origem árabe, os alfabetos árabe e ocidental em nada se assemelham – até na forma de escrita, já que o árabe se escreve da direita para a esquerda» («Como o árabe nos ensina tanto sobre nós. Em Silves, há um curso com quase duas décadas», Maria Augusta Casaca, TSF, 9.10.2018, 9h53).

      É verdade, o árabe, tal como o hebraico, escreve-se da direita para a esquerda. É uma escrita levoversa, leio na obra Letras e Memória – Uma Breve História da Escrita, de Adovaldo Fernandes Sampaio (São Paulo: Ateliê Editorial, 2009), palavra que nunca vi em mais lado nenhum. Muito curioso é que o Dicionário de Termos Médicos da Porto Editora registe levoversão, que diz significar «virado para a esquerda». Basta comparar com a definição de dextroversão para ver como está mal definido: «Versão ou virado para o lado direito.» Mais: não regista o dicionário da Porto Editora dextrorso? Então, não há aqui palavras a mais, mas a menos.

 

[Texto 10 076] 

Helder Guégués às 13:15 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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Léxico: «pré-venda»

Isso era dantes

 

      «As duas versões já estão disponíveis para pré-venda, mas apenas nos Estados Unidos da América, e os primeiros aparelhos serão entregues em novembro» («Portal, o novo aparelho para fazer videochamadas», Rádio Renascença, 9.10.2018, 9h13).

      Só acolhes, Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, pós-venda, mas isso era dantes; agora, com o comércio electrónico, a pré-venda adquiriu uma grande importância. No VOLP da Academia Brasileira de Letras: ✔.

 

[Texto 10 075]

Helder Guégués às 11:47 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «magalhânico»

Ele merece

 

      «No dia 12 de outubro, será lançada oficialmente, em Sabrosa, a Associação Mundial Magalhânica – REMAM. A apresentação decorrerá no Espaço Miguel Torga, em São Martinho de Anta, um local escolhido por agregar a universalidade de Miguel Torga ao pioneirismo de Fernão de Magalhães» («Como homenagear um dos grandes feitos da História? Com o vinho “Fernão Magalhães – 500 anos”», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 9.10.2018, 10h24).

      Não vejo magalhânico em nenhum dicionário ou vocabulário, mas encontramo-lo em algumas obras de História, e, afinal, Fernão de Magalhães merece.

 

[Texto 10 074]

Helder Guégués às 11:37 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «autovinificador»

E outro

 

      «Trata-se, segundo Celeste Marques, de ânforas argelinas [cubas de betão] auto-vinificadoras [sic] que “fermentam sozinhas”, podendo os visitantes ver “o mosto a fermentar, o que não acontece com as cubas de inox fechadas”» ”» («Como homenagear um dos grandes feitos da História? Com o vinho “Fernão Magalhães – 500 anos”», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 9.10.2018, 10h24).

      É autovinificador, adjectivo e substantivo, e não o encontramos no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora — mas há-os de norte a sul do País.

 

[Texto 10 073]

Helder Guégués às 11:31 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «remontagem»

Conhecimento desperdiçado

 

      «E para produzir os vinhos “Fernão Magalhães – 500 anos”, além das castas selecionadas, Celeste Marques explica que é necessário também “muito controlo com as temperaturas, com a remontagem – operação que consiste em tirar o mosto em fermentação pela parte inferior da cuba para o lançar na parte superior da mesma vasilha, e extração da cor”» («Como homenagear um dos grandes feitos da História? Com o vinho “Fernão Magalhães – 500 anos”», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 9.10.2018, 10h24).

      Esta remontagem não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Nem noutros dicionários, valha a verdade. E lá estamos a desperdiçar conhecimentos.

 

[Texto 10 072]

Helder Guégués às 11:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «sociossanitário»

É só isto

 

      «Estas drogas, designadas “novas substâncias psicoativas” (NSP), surgiram em Portugal e noutros países europeus com maior dimensão a partir de 2005. “Em 2012, e após a análise das autoridades de saúde relativamente a casos de utilizadores com episódios agudos de doença por consumo de NPS, tornou-se mais evidente que o consumo destas substâncias consubstanciava um problema de relevo em termos sociais e de saúde pública, designadamente pela ausência de controlo sociossanitário e legal”, lembra Graça Vilar, responsável pela Direção de Serviços de Planeamento e Intervenção (DPI) do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD)» («Spice, a droga sintética que continua a dar que falar», Joana Capucho, Diário de Notícias, 9.10.2018, 6h26).

 

[Texto 10 071]

Helder Guégués às 09:54 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «co-igual», de novo

Só quero perceber

 

       Volto a ler, nas segundas provas, a tal frase com a palavra co-igual e não me conformo que a palavra esteja registada sem hífen no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. É verdade que acolheram a acepção que então sugeri, mas o trabalho não está acabado. Podem explicar-nos porque registam coigual, mas co-eterno, por exemplo? Ou está aqui a escapar-me alguma coisa?

 

[Texto 10 070]

Helder Guégués às 08:55 | comentar | ver comentários (6) | favorito

Léxico: «uade/uádi»

Menos patente

 

      «No cômeço da guerra, o sultão era representado em Meca por um coraixida investido pomposamente no título de xerife alquibir (o grande xerife), cargo então ocupado por Hossaino ibne Ali — o pai daquele Faiçal que vimos expulso de Damasco e depois rei do Iraque, e de Abdalá, príncipe da Transjordânia» (Árabes e Muçulmanos. Greis Sarracenas e o Islão Contemporâneo, quinto livro, Eduardo Dias. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1940, p. 237).

      Já que Montexto anda a reler as Lendas e Narrativas de Herculano, aproveitemos para lembrar o que este autor nos ensinou sobre alquibir e uade. Não, naquela obra Herculano não usa a palavra uade, apenas almuadem (que muitos dos nossos autores e tradutores preferem ver travestida em muezim). Em português, uade deu também, na toponímia, ode — Odemira, Odeleite, Odeceixe, etc., e guade em castelhano — Guadalquivir, Guadalaviar, Guadalete, etc. Claro que nos dicionários não vemos nada disto.

 

[Texto 10 069]

Helder Guégués às 08:53 | comentar | favorito
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Léxico: «patente»

É patente

 

      «As altas patentes do caso de Tancos têm menos hipótese de ser ilibadas do que os militares de patentes mais baixas, como os sargentos. A razão é simples: ser-lhes-á mais difícil provar em tribunal que ignoravam estar a cometer crimes, quando encenaram o reaparecimento do material militar» («Altas patentes do caso de Tancos têm menos hipóteses de serem ilibadas», Ana Henriques, Público, 6.10.2018, p. 6).

      Não sei, mas o vocábulo patente não devia ter uma extensão de sentido nos dicionários? É que, muitas vezes, designa, não a categoria, graduação ou posto na hierarquia militar, mas a pessoa que tem essa categoria.

 

[Texto 10 068]

Helder Guégués às 08:51 | comentar | favorito
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Quase tudo em inglês

Entretanto, no Intendente...

 

      Um acolhedor (ou encolhedor?) T1 nas Escadinhas das Olarias à venda. Ah, mas esperem: «Encontra-se neste momento em short term renting com uma yield a rondar os 10%.» Se o escreverem em português, fica mais barato?

 

[Texto 10 067]

Helder Guégués às 08:50 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «nanico»

Temos, com outro nome

 

      «Bolsonaro impulsiona os partidos nanicos» (Metro São Paulo, 8.10.2018, p. 3). Nunca se me deparara em toda a vida a palavra nanico e, contudo, também é nossa. Nunca nos referimos desta maneira, bem achada, aos nossos pequenos partidos, mas já tivemos o Partido do Táxi, actualmente com veleidades de vir a governar o País. Puf!

 

[Texto 10 066]

Helder Guégués às 08:40 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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09
Out 18

«Fisiologismo»

Um brasileirismo

 

      «“Muitos partidos pequenos e médios se esforçaram para atingir a cláusula de barreira – votação mínima que garantirá o recebimento de fundo partidário – e acabaram ganhando força. Será um Congresso mais fisiológico e, a julgar pelas legendas, mais conservador”, analisa Emerson Cervi, da UFPR» («Câmara deverá subir fisiologismo», Metro São Paulo, 8.10.2018, p. 7). Ai que Sacconi se esqueceu de fisiologismo, que vergonha! Salva-nos o Aulete: «Bras. Pej. Pol. Prática (de certos políticos, funcionários públicos etc.) que se caracteriza pela busca de vantagens pessoais em detrimento do interesse público.»

 

[Texto 10 065]

Helder Guégués às 08:39 | comentar | ver comentários (3) | favorito