05
Nov 18

Léxico: «par-ou-nunes»

Estranha ausência

 

      Podia ser agora, e não figuradamente, com as barbas na moda: os miúdos na escola «jogavam ao par-ou-nunes nas barbas do mestre». Aspas, porque é o tradutor que o escreve assim. Ora, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que não o regista, acolhe par-ou-pernão — precisamente, ao que creio, o mesmo jogo, embora a definição, que me parece pouco clara, quando não errada, diga isto: «jogo popular com pinhões, pela quadra do Natal». Nunes não é o nosso vizinho, mas corruptela do termo latino nones, plural de non, «não», e também nós temos a variante nones. Para verem como as remissões já não são o que eram — ou o que alguns, que julgam pontificar nestas matérias, crêem que são —, no dicionário da Porto Editora remete-se de «nones» para «nunes». Em suma, se se escreve «par-ou-pernão», tem também de se escrever «par-ou-nunes» — e registá-lo nos dicionários.

 

[Texto 10 243]

Helder Guégués às 18:14 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
Etiquetas: ,

Léxico: «sobrerol»

Não é suficiente

 

      «Uma equipa da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra foi a primeira a provar que é possível substituir o composto tóxico estireno, utilizado em grande escala na indústria, por uma molécula natural extraída da resina dos pinheiros. [...] A nova molécula tem por base o “sobrerol, um composto de estrutura cíclica, que pode ser obtido a partir da transformação de materiais extraídos da resina do pinheiro”, o professor da Universidade de Coimbra realça que é uma molécula de fonte verde com as mesmas propriedades térmicas e mecânicas» («“Molécula Verde”. Portugueses descobrem substância natural para uma indústria amiga do ambiente», Rádio Renascença, 5.11.2018, 12h32).

      Sendo assim, a definição de sobrerol que consta no Dicionário de Termos Médicos da Porto Editora não é suficiente para abarcar o conceito: «Fármaco com propriedades mucolíticas, administrado por via oral como expetorante.»

 

[Texto 10 242]

Helder Guégués às 15:26 | comentar | favorito | partilhar

Léxico: «missionariedade»

Nenhum

 

      Basta o título: A Missionariedade da Igreja Particular à luz do Magistério Recente, de Maria de Sampaio Vieira (Roma: Pontificia Università Gregoriana, 2003). Qual é o dicionário que regista o termo missionariedade, qual? Nenhum, e, contudo, todos os meses o vejo em certas publicações.

 

[Texto 10 241]

Helder Guégués às 12:33 | comentar | ver comentários (2) | favorito | partilhar
Etiquetas: ,

Léxico: «pio»

Não é

 

      Na reportagem da TSF sobre os lagares cavados na rocha em Valpaços, o geólogo Adérito Freitas fala não apenas no calcatório, mas também na lagareta e no pio. Ora, para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, pio é somente a «pia de lagar de azeite onde a azeitona é moída». Só que não é assim, como sabemos.

 

[Texto 10 240]

Helder Guégués às 11:12 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
Etiquetas: ,

Léxico: «calcatório»

Calcada está a língua

 

      «Adérito Freitas [geólogo] tinha-se enganado e descobriu-o algum tempo depois. “Quando um presidente de junta me pediu para ir ver uma pedra que tinha uma cavidade. Fui e fez-se-me luz. Não era uma sepultura e como o do Chaves era um lagar com um calcatório (sítio onde se pisam as uvas) bastante grande. Passado [sic] uma semana tínhamos descoberto mais seis”, refere» («Lagares cavados na rocha em Valpaços com candidatura à UNESCO», Afonso de Sousa, TSF, 5.11.2018, 9h39).

      Calcatório, para os nossos dicionários, é coisa que não existe. O mais perto que chegam é a calcadoiro. Não chega.

 

[Texto 10 239]

Helder Guégués às 11:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito | partilhar
Etiquetas: ,
05
Nov 18

Como se traduz por aí

Ruínas e miséria

 

      «Pelo menos, duas pessoas ficaram feridas após o desmoronamento de dois edifícios esta manhã, em Marselha, França. [...] No local do incidente, o vice-prefeito de Marselha, Julien Ruas, encarregado do Batalhão de Bombeiros, indicou que um dos dois prédios estava considerado em perigo há cerca de dez dias por problemas no primeiro andar. Os ocupantes deste apartamento tiveram por isso de ser realojados» («Dois edifícios ruíram na cidade francesa de Marselha», Rádio Renascença, 5.11.2018, 10h09).

      Vá lá, o jornalista soube resistir ao «colapso», tão na moda, no primeiro parágrafo. No fim, porém, foi-se abaixo e teve de usar a palavra, ou nenhum português ia compreender. Começou bem, acabou mal. Mais? Na imprensa francesa, o que se pode ler é que Julien Ruas é «l’adjoint au maire de Marseille», e, é claro, adjunto é adjunto, não é vice. E será mesmo encarregado? Não me parece. Também aqui, a imprensa francesa nos elucida: Julien Ruas é «responsable du Bataillon de Marins-Pompiers». Quanto à tradução de «Bataillon de Marins-Pompiers», se não é errada, esconde toda a diferença entre estes bombeiros e os nossos. 

 

[Texto 10 238]

Helder Guégués às 10:42 | comentar | favorito | partilhar
Etiquetas: ,