15
Nov 18

Léxico: «café»

Elementar, mas esquecido

 

      «Mesmo assim, levantaram-se ambos muito cedo, pouco comeram ao café e ainda menos ao almoço.» É verdade que a tradução é dos anos 40, mas nada, absolutamente nada justifica que os dicionários actuais não registem esta acepção por extensão de café, definindo-a como a refeição ligeira em que se toma essa bebida. O leitor desprevenido — uma significativa percentagem — vai logo pensar, e talvez até anunciar aos quatro ventos das «redes sociais», que é erro. É, é erro, mas não deles em primeiro lugar, antes dos lexicógrafos.

 

[Texto 10 295]

Helder Guégués às 21:33 | comentar | ver comentários (5) | favorito (1)
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Ortografia: «rabugice»

E agora a prática

 

      «“Rabugice” ou “rabujice”?», pergunta muita gente. Também o pergunta a Infopédia, que responde: «A forma correta é rabugice. Rabugice palavra composta pelo nome rabugem e por -ice, sufixo que expressa “atitude”, geralmente com sentido pejorativo, e é um nome que significa “mau humor; agressividade; irritação”: A sua rabugice deve-se à falta de sono. A outra forma não existe.» Pois não existe. Agora, apliquem o conhecimento, pois no Dicionário de Grego-Português, para traduzir o termo αραθυμία, ας, sugerem «irascibilidade, irritabilidade, rabujice».

 

[Texto 10 294]

Helder Guégués às 21:11 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Léxico: «peamento/rechego/bilete»

Nem sequer uma

 

      Na edição de hoje do Público, vem um «dicionário da estiva»: «O trabalho na estiva tem várias expressões que são um vocabulário específico da actividade. A própria palavra “estiva”, ou “estivagem”, quer dizer colocar a carga a bordo de um navio. Rechego Limpar os porões de um navio, com vassoura ou rodo, no final da descarga de granéis. É das tarefas mais penosas, em que os estivadores são, muitas vezes, expostos a pós e cheiros de produtos como cimento, carvão, lixo, etc. Peamento Prender a carga ao navio, com cintas, no caso dos carros que são fixados pelas rodas, ou com varas de três metros, no caso dos contentores. É preciso fazer força para apertar o roquete de tensão. Bilete Lotes de lingadas, peças de ferro maciço colocadas em pilha para a grua içar para o navio. Coils Bobines gigantes de folha de chapa, no caso do Porto de Setúbal tratadas com antioxidação, que pesam entre sete e 25 toneladas» («Dicionário da estiva», Público, 15.11.2018, p. 21).

      Nenhuma delas o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista. Apenas acolhe, mas noutra acepção, «rechego». Coil não conta, é inglês.

 

[Texto 10 293]

Helder Guégués às 13:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «pranchamento»

Usado e ignorado

 

      «O documento [do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF)] ressalva que é necessária “confirmação em ensaios adicionais”, mas afirma que as “evidências recolhidas até ao momento [...] sugerem a existência de falhas na configuração no sistema de controlo de pranchamento da aeronave, consistentes com eventuais perturbações desse sistema durante ações de manutenção”» («Investigação admite falha da OGMA no avião da Air Astana», Alexandra Figueira e Teixeira Correia, Jornal de Notícias, 15.11.2018, p. 8).

      Pranchamento, que é um termo que se usa tanto em aeronáutica como em socorrismo, não tem o prazer de estar no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Acontece, não é?

 

[Texto 10 292]

Helder Guégués às 10:14 | comentar | favorito
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Léxico: «latrina turca»

Por nós

 

      «Bruno de Carvalho tem ainda à disposição uma retrete, tipo turca, colocada no chão e um lavatório incrustado num maciço de betão, em aço inox, com torneira temporizada» («Celas sem chuveiro cumprem a lei», Roberto Bessa Moreira, Jornal de Notícias, 15.11.2018, p. 5).

      Com tanta gente preocupada com as condições da cela em que está detido Bruno de Carvalho, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora podia também contribuir registando latrina/retrete turca e explicar em que consiste. Não por Bruno de Carvalho, mas pelo falante, por todos nós, pois aparece na imprensa e até na literatura. E, afinal, definir os termos é tarefa para um lexicógrafo, não para um canalizador. 

 

[Texto 10 291]

Helder Guégués às 09:27 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «subamostra/subamostragem»

Existem, usam-se

 

      «Num comunicado enviado à TSF, a Direção-Geral da Saúde (DGS) esclarece que os dados do estudo em causa “apenas têm em consideração uma subamostra dos hospitais/UCCI portugueses, por imperativos de metodologia estatística, nunca devendo ser comparados os dados de Portugal com os restantes países da UE/EEE, uma vez que estes não estarão padronizados pelas diferenças existentes a nível dos vários sistemas de saúde europeus”» («Consumo de antibióticos nos hospitais portugueses é 7% superior à média europeia», Maria Miguel Cabo, TSF, 15.11.2018, 7h59).

      Subamostra, subamostragem — ora, não tens nenhuma delas, Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. No VOLP da Academia Brasileira de Letras: ✓✓.

 

[Texto 10 290]

Helder Guégués às 08:51 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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15
Nov 18

Léxico: «serifa»

Não é muito claro

 

      «Em Melbourne, na Austrália, foi criado um tipo de letra a pensar nos estudantes e em todos aqueles que precisam de memorizar o que lêem. O “Sans Forgetica” foi criado por investigadores do Royal Melbourne Institute of Technology (RMIT) para usar as capacidades cognitivas humanas e ajudar a memória. [...] Os investigadores garantem também que os tipos de letra sem serifas (pequenos traços e prolongamentos que ocorrem no fim das hastes das letras) são mais eficazes para memorizar, especialmente os menos legíveis» («Chegou o tipo de letra que ajuda a memória», Rádio Renascença, 14.11.2018, 10h38).

      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, serifa é o «pequeno traço ou linha grossa que remata as extremidades das letras». Já há aqui alguma diferença, e creio que falar em haste da letra (acepção que nem sequer se encontra no dicionário da Porto Editora) ajuda. Para o Merriam-Webster, é «any of the short lines stemming from and at an angle to the upper and lower ends of the strokes of a letter». Serifa de pé, serifa de cabeça, bilateral, unilateral..., é matéria para manual. Para a definição de um dicionário geral, ainda assim, falta, no dicionário da Porto Editora, um dado relevante: nem todos os tipos de letra têm serifa.

 

[Texto 10 289]

Helder Guégués às 08:43 | comentar | ver comentários (2) | favorito