16
Nov 18

Léxico: «de revés»

De soslaio

 

      «Mas agora os de Carminha Rosa esmaecidos, de uma cor de realíssimo outono, são enrolados na covinha do ladrão com dois ganchos de tartaruga, de raleiras como dedos, uma travessa também dedada, que espetando até ao casco, vira no torcido uma fiapa de tufo secreto, e enfiada de revés engolindo o todo, suspende o enriço a desfiar-se» (O Dia dos Prodígios, Lídia Jorge. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 58).

      Ora, parece que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora se esqueceu da locução adverbial de revés. Como também não regista enriço. Nem tão-pouco fiapa, mas esta também eu não conhecia nem nenhum dos dicionários que consultei, e que há-de ser variante de «fiapo». Enfim, dicionários fora dos dicionários.

 

[Texto 10 301]

Helder Guégués às 20:18 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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Léxico: «nanociência»

Parece que está na hora

 

      «“Não nos podemos esquecer que estamos numa era tecnológica em que, de facto, a nanotecnologia e as nanociências” necessitam de “medições com o máximo de exatidão” [afirma Isabel Godinho, directora do Laboratório Nacional de Metrologia (LNM)]» («Sabia que um quilograma não pesa o mesmo em todo o mundo? Isso vai mudar e é uma decisão de peso», Gonçalo Teles e Joana Carvalho Reis, TSF, 16.11.2018, 8h56).

    A nanociência, demasiado avançada, mas afinal presente em realizações do nosso dia-a-dia, ainda não chegou ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

 

[Texto 10 300]

Helder Guégués às 17:07 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Quilograma/quilo»

Mais trapalhadas jornalísticas

 

      «Faz parte de qualquer compêndio de piadas populares a velha “pergunta com ratoeira”: o que é mais pesado, um quilo de chumbo ou um quilo de penas? Os mais incautos responderão “um quilo de chumbo”, para gáudio do autor da pergunta, que responderá do alto da sua sabedoria que “pesam o mesmo”. Se já esteve numa destas duas posições, fique a saber que pode ter cometido dois erros. O primeiro é que não há “quilos”, apenas “quilogramas”. O segundo é que, em alguns pontos do mundo, um quilograma de penas e um quilograma de chumbo podem realmente não pesar o mesmo» («Sabia que um quilograma não pesa o mesmo em todo o mundo? Isso vai mudar e é uma decisão de peso», Gonçalo Teles e Joana Carvalho Reis, TSF, 16.11.2018, 8h56).

      Será excessivo afirmar que isto não tem pés nem cabeça? Com que então, não há quilos, apenas quilogramas, hã? Se o primeiro é a forma reduzida do segundo, são exactamente o mesmo. Primeiro erro. Um quilograma de penas e um quilograma de chumbo podem não pesar o mesmo? Trapalhada e segundo erro. Pesam, no mesmo sítio e no mesmo tempo, o mesmo. A variação, mínima, é geográfica, isto é, pode variar de local para local — com diferença de microgramas.

      Mais erros no mesmo artigo: «Não é só o quilograma que passa a ser medido com recurso a constantes físicas. Também o Ampere (A), que mede a corrente elétrica, o Kelvin (K), usado para a temperatura, e o “mol”, usado na medida de substâncias, vão sofrer alterações, passando a ser determinados com recursos [sic] a constantes.» Trapalhada. É o ampere (A), o kelvin (K) e a mole (mol). Difícil? No artigo da Rádio Renascença de terça-feira sobre o mesmo assunto, até a mim me induziram em erro, ao atribuírem também o género masculino a «mole».

 

[Texto 10 299]

Helder Guégués às 16:47 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Léxico: «aversivo»

Mais genérica

 

      «A instituição residencial “Juiz Rotenberg Centre”, em Canton, perto de Boston, no estado norte-americano de Massachusetts, tem recorrido a administração de choques elétricos no tratamento de jovens com necessidades especiais. Um grupo de defesa está, agora, a exigir uma ação que proíba o “abuso infantil sancionado pelo Estado”. [...] Os choques são administrados pela equipa através de um sistema de controlo remoto e podem ter uma duração até dois segundos. A ideia é causar dor, limitando a capacidade de resposta e comportamentos perigosos. A instituição classifica a punição como “terapia aversiva”» («EUA. Instituição usa choques elétricos em jovens com necessidades especiais», Rádio Renascença, 16.11.2018, 14h06).

      Ai, estes «jornalistas» e a «mania» de «usarem» «aspas» a «torto e a direito»... Coitados, uma monomania. Bem, aversivo. É claríssimo que não significa somente, como se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «que ou medicamento que visa suscitar aversão ou repugnância por determinada substância». Como também é estranho não o encontrar no Dicionário de Termos Médicos. A definição tem de ser mais génerica. Aliás, num texto de apoio («reforço (psicologia)»), o termo não cabe na definição que redigiram...

 

[Texto 10 298]

Helder Guégués às 14:57 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «biorreciclador»

De quem é a culpa?

 

      «A associação [Zero] afirma, em comunicado, que “a distribuição maciça de compostores domésticos, a compostagem comunitária e mesmo a utilização de animais biorecicladores, como as galinhas, são soluções que, conjugadas, poderão ser decisivas para cumprir as metas de reciclagem e poupar recursos financeiros aos municípios, que ficarão sujeitos à obrigação de recolha seletiva de resíduos orgânicos até 2023”» («Como alertar para a compostagem doméstica? Ministro presenteado com a galinha Balbina», Rádio Renascença, 16.11.2018, 7h58).

      Não está nos dicionários, e, logo, cada falante escreve-a como acha melhor.

 

[Texto 10 297]

Helder Guégués às 09:55 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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16
Nov 18

A realidade fora dos dicionários

Hoje, a fauna

 

      «A crescente urbanização que a sua bacia hidrográfica sofreu na segunda metade do século XX, [sic] tornou-a num verdadeiro esgoto a céu aberto e quase matou a vida nas suas águas. Mas com o melhoramento gradual do saneamento a ribeira “ressuscitou” e hoje, de acordo com o estudo “Caracterização das Comunidades Piscícolas das Ribeiras do Concelho de Cascais – 2017”, já existem seis espécies de peixes na Ribeira de Caparide. Três nativas – enguia-europeia, boga-portuguesa e escalo do sul – e três não-nativas – gambúsia, carpa e perca-sol» («A misteriosa cascata de Cascais», «Vida Extra»/Expresso, João Paulo Galacho, 14.11.2018, 12h00).

      E no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, como estamos de espécies nativas e não-nativas? Das nativas, só regista a primeira. Assim, faltam a boga-portuguesa (Iberochondrostoma lusitanicum) e o escalo-do-sul (Squalius pyrenaicus). Das não-nativas, apenas acolhe a carpa. Assim, faltam a gambúsia (Gambusia holbrooki, Girard 1859) e a perca-sol (Lepomis gibbosus). Quanto ao Gambusia holbrooki, o pobre falante vai encontrar a grafia «gambusia» no Dicionário de Termos Médicos e «gambúsia» no Dicionário de Francês-Português e no Dicionário de Inglês-Português. Não é grande ajuda, pois não?

 

[Texto 10 296]

Helder Guégués às 09:34 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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