22
Nov 18

Léxico: «arcipreste»

Não acreditem

 

      «John Sultana, de 47 anos, foi nomeado arcipreste (grau intermédio entre sacerdote e bispo) da cúria de Gozo, onde é tradição que sacerdotes que tenham sido nomeados recentemente sejam transportados pela cidade por uma carroça puxada por crianças, para serem aclamados pela população» («Padre em Malta transportado em Porsche puxado por 50 crianças», Motor 24, 21.11.2018).

      Um arcipreste é um «grau intermédio entre sacerdote e bispo»? É uma maneira de o dizer — uma maneira errada. «O arcediago», lê-se num número de 1939 do Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto, «é o primeiro entre os diáconos e o arcipreste é o primeiro entre os presbíteros — é o chefe destes para determinado número de serviços.» Não difere muito da definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «sacerdote com determinada jurisdição sobre outros sacerdotes; vigário da vara».

 

[Texto 10 336]

Helder Guégués às 21:03 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «cobertor de papa»

Desagasalhados

 

      «Foi da Escola de Artes e Ofícios do Centro Social e Paroquial de Maçainhas que saiu um “cobertor de papa” com as insígnias do Papa Francisco, bordadas por reclusos do Estabelecimento Prisional da Guarda. A lã de ovelha churra, plasmada num cobertor, pica ao toque mas aquece o corpo e protege os pastores da chuva. “Parece uma manta normal, mas depois vai a um pisão e está sensivelmente dez minutos a ser batida em água. Quando se tira está realmente que nem uma papa, ensopada”, explica o responsável da Escola de Artes e Ofícios de Maçainhas, criada em 2008 para preservar o cobertor típico da região da Serra da Estrela. [...] O “cobertor de papa” é impermeável, tornando-o ideal para quem anda exposto aos elementos. “Isto é como um beirado, em que a água escorre e não entra no corpo”, conclui [o tecelão José Silva]» («Levar o “cobertor de papa” ao Papa foi um prémio para Maçainhas», Rádio Renascença, 22.11.2018, 15h05).

      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, há papas e cobertores, mas não cobertores de papa. Mais desagasalhados ficamos.

 

[Texto 10 335]

Helder Guégués às 15:29 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «averiguante»

Peculiaridades

 

      «Além das agulhetas que estão ligadas às mangueiras para combater incêndios, outras estão guardadas em armários como material de reserva do Bérrio — e só nas próximas horas, depois de o navio atracar, é que se poderá saber se o oficial averiguante a bordo conseguiu saber alguma coisa» («Marinha investiga desaparecimento de agulhetas de incêndio a bordo de navio», Manuel Carlos Freire, Diário de Notícias, 22.11.2018, 6h30).

      É assim que se diz no âmbito da justiça e disciplina das Forças Armadas — uma coisa tão peculiar, que os nossos dicionários ignoram a palavra. Enfim, ignoram muitas outras.

 

[Texto 10 334]

Helder Guégués às 10:55 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «bombóu»

Não teríamos ementa

 

      «Vai ter batata-doce. Vai ter quitaba. Vai ter suco de múcua. Vai ter bombóu. Vai ter banana assada com jinguba. Na sexta, quando regressar do Porto, o presidente angolano João Lourenço (J-Lo, como é carinhosamente apelidado pelos seus conterrâneos) vai ser recebido com um cocktail no lisboeta Hotel Intercontinental e, pelo menos, fome não vai passar» («Para os mwangolés da Tuga, João Lourenço é esperança. Mas só um bocadinho», Ricardo J. Rodrigues e Paula Freitas Ferreira, Diário de Notícias, 22.11.2018, 6h28).

      Se não houver aqui trapalhada, que é o que logo me ocorre, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não podia preparar a ementa, pois não regista bombóu. Quanto a «mwangolé», nome quimbundo para «angolano», diga-se que até em obras de autores angolanos, obras publicadas em Angola, se optou pela grafia «muangolé». Enfim, é um colonialismo ao contrário.

 

[Texto 10 333]

Helder Guégués às 10:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «ferro batido»

Hora de arrumar a casa

 

      Outra expressão brasileira — ou brasileira hoje em dia, porque já a usámos cá — é ferro batido, que nós designamos por ferro forjado. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, estão, incompreensivelmente, em verbetes diferentes: «ferro fundido» está no verbete ferro, «ferro forjado» está no verbete forjado. Não está na hora de arrumar a casa?

 

[Texto 10 332]

Helder Guégués às 09:49 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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22
Nov 18

Léxico: «golpe branco»

Passa a nossa também

 

      A expressão golpe branco, usada no Brasil há várias décadas, mas que alguns insistem em dizer que é neologismo (quando é que um neologismo deixa de o ser?), também se encontra de quando em quando — ainda que a propósito do Brasil — em textos publicados em Portugal. «No meio de tudo isto, em Agosto de 2016, a presidente Dilma Rousseff, delfim de Lula, tinha sido destituída por um golpe branco conduzido pela coligação parlamentar da direita conservadora conhecida com o termo “bancada BBB” — do Boi, da Bala e da Bíblia» (in Além-Mar de Dezembro). Há golpes brancos — tomada do poder do Estado sem violência e com recurso a meios legais — em várias latitudes. A Turquia de Erdogan, por exemplo, ilustra bem o caso. Parece que é a tradução da expressão alemã kalter Putsch. Assim, se tivermos de nos referir a uma situação semelhante, devemos, obviamente, preferir a expressão brasileira.

 

[Texto 10 331]

Helder Guégués às 09:39 | comentar | ver comentários (1) | favorito