24
Nov 18

Verbos defectivos

A gramática esquecida

 

      «Com um longo currículo no combate à criminalidade violenta, a procuradora Cândida Vilar deduziu acusação contra 44 arguidos por envolvimento no ataque à Academia do Sporting, a 15 de Maio. Num excerto do interrogatório ao ex-líder da Juve Leo Fernando Mendes é patente o tom acintoso com que lida com o arguido, que tenta, por mais de uma vez, responder às perguntas que lhe são colocadas [sic]. Sem sucesso: Cândida Vilar não o deixa falar, preferindo ser ela a tecer considerações sobre o caso. “Posso falar?”, pede a certa altura Fernando Mendes. “Ninguém lhe perguntou nada”, retorque-lhe a procuradora» («Tom agressivo vale inquérito disciplinar a procuradora», Ana Henriques, Público, 24.11.2018, p. 19).

      A primeira nota é de natureza extralinguística: é absolutamente inadmissível que um procurador se dirija assim a uma pessoa. Quem pensa ela que é? Como é incompreensível que o juiz de instrução permita que um procurador tenha este comportamento. Quanto a Ana Henriques, o problema, também bicudo, é outro: que eu saiba, retorquir é um verbo defectivo. Verbos defectivos, recordo-lhe, são aqueles que se desviam da conjugação normal por lhes faltarem formas pessoais, temporais ou modais. Apenas se usam as formas em que subsiste o i final do tema. Assim, as formas do presente do indicativo admissíveis são duas: retorquimos e retorquis.

 

 [Texto 10 348]

Helder Guégués às 20:49 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «veleto»

Uma questão de cornos

 

      «Também estes espalhados por espaços diferentes, porque, sendo todos toiros bravos, têm características diferentes, quer pela sua bravia, quer pela chamada “cara do touro”, ou seja, a grossura, o comprimento e orientação dos cornos. Um touro com os cornos ligeiramente levantados (tocado) ou com os cornos dirigidos para cima (veleto) tem mais “valor” que um animal com os cornos direccionados para o solo (caído ou capacho)» («A “vida privada” do toiro bravo antes dos “20 minutos de fama”», Luciano Alvarez, Público, 24.11.2018, p. 6).

      Como adjectivo, está no VOLP da Academia Brasileira de Letras; como substantivo antigo, encontramo-lo no Aulete: «criado, fâmulo, lacaio, servidor. || Mendigo, pedinte». No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, nem substantivo nem adjectivo. E tocado? E capacho? Mas bravia não é apenas a variedade de pêra? Também desconhecida do dicionário da Porto Editora.

 

[Texto 10 347]

Helder Guégués às 19:48 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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O plural, esse monstro

O problema linguístico do século XXI

 

      «Primeiro mostra o cercado onde está o lote de vacas que pariram em Agosto, ainda na companhia das suas crias e dos semental (machos reprodutores). Na ganadaria existem cerca de 200 vacas-mãe, que por ano parem cerca de 160 animais, habitualmente metade fêmeas e outra metade machos. Os machos na herdade rondam os 170» («A “vida privada” do toiro bravo antes dos “20 minutos de fama”», Luciano Alvarez, Público, 24.11.2018, p. 6).

      Problemas com o plural, Luciano Alvarez? Algumas palavras são bravas como toiros de lide, sim, mas, neste caso, veja como ela fica mansa: o semental, os sementais. Acha que é capaz?

 

[Texto 10 346]

Helder Guégués às 19:33 | comentar | favorito
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Léxico: «fraccionista»

Mais perdemos

 

     «Seis dias antes, a 21 de maio, o MPLA expulsara Nito Alves do partido, o que levou o antigo ministro e vários apoiantes a invadirem a prisão de Luanda para libertar outros simpatizantes, assumindo, paralelamente o controlo da estação da rádio nacional, ficando conhecido como “fracionistas”» («Orfã do 27 de maio de 1977 interrompe conferência de imprensa de PR angolano», TSF, 24.11.2018, 17h45).

     Não conheço nenhum dicionário que registe fraccionismo ou fraccionista, e, contudo, não faltam obras literárias, e outras, que as usam. Isto é normal? As palavras não são só palavras.

 

[Texto 10 345]

Helder Guégués às 18:49 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «afinador»

Há outros afinadores

 

      «Uma das mais famosas afinadoras de queijos franceses, Marie-Anne Cantin, esteve no Porto para a Tertúlia de Queijos promovida pela Fromagerie da Enoteca 17.56 da Real Companhia Velha» («“Queijos são matérias vivas”», Sábado, 7.11.2018, p. 101).

      Esta afinadora de queijos trabalha também com empresas portuguesas. Assim, temos aqui um problema, porque, para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, afinador é apenas a «pessoa que se dedica a afinar instrumentos musicais, particularmente pianos». Ou seja, este dicionário precisa de uma acepção genérica. Enfim, de uma afinação.

 

[Texto 10 344]

Helder Guégués às 16:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «dual»

E o vencedor é...

 

      «Bacelar Gouveia argumenta que os juízes têm um estatuto dual, são titulares de um órgão de soberania, mas não são eles que fixam as suas condições de trabalho e, desse ponto de vista, aproximam-se dos trabalhadores da administração pública. [...] A Associação Sindical dos Juízes diz que a legalidade da greve dos juízes “é uma falsa questão”, porque os juízes têm um estatuto dual. Vânia Magalhães, da direção do sindicato, nega a acusação feita pela ministra Francisca Van Dunem, de que a greve dos juízes tem apenas razões remuneratórias» («Os juízes podem ou não fazer greve?», Rádio Renascença, 24.11.2018).

      Não encontramos esta concreta acepção de dual no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. A melhor definição está no Aulete: «Que é formado por duas partes.»

 

[Texto 10 343]

Helder Guégués às 16:12 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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24
Nov 18

Equador/equador

O explicador

 

      «Tancos alterou as regras do jogo. E o Presidente, desafinando do coro oficial, começou a pedir demasiadas explicações, o que se entende: Marcelo é Comandante Supremo das Forças Armadas e sabe que um crime destes, acima da linha do Equador, costuma determinar o fim de governos» («Cuidados intensivos», João Pereira Coutinho, Sábado, 7.11.2018, p. 130).

      O Dr. Coutinho (ou «dr. Coutinho», que é como esta gente escreve) acha que é assim, mas está enganado: Equador, com maiúscula, é somente o nome do país; o círculo máximo é o equador. Difícil, ou é preciso uma tese?

 

[Texto 10 342]

Helder Guégués às 12:20 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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