25
Nov 18

«Colar/fio» nos dicionários

Uma nebulosa

 

      «Isto é um colar ou um fio?», perguntou ela. Os interlocutores eram dois, com duas respostas diferentes ficou. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora — veja o leitor noutros —, não se pode dizer que se encontrem boas definições das duas palavras nesta acepção. De fio até se pode dizer que não tem a acepção em apreço; de colar, somente esta coisa insonsa: «ornato para o pescoço». Ora, ornatos há muitos e variados.

 

[Texto 10 355]

Helder Guégués às 19:55 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Santa Maria sobre Minerva

Vamos lá nós soprar

 

      «O cardeal português D. António Marto tomou este domingo posse da Basílica de Santa Maria Sopra Minerva, na capital italiana, sublinhando na homilia da Missa a que presidiu a ligação entre Roma e Fátima. [...] O bispo de Leiria-Fátima assumiu assim o título que lhe foi atribuído por Francisco, no consistório de 28 de junho deste ano; no consistório, além do barrete e do anel cardinalícios, o Papa atribui a cada cardeal uma igreja de Roma – que simboliza a “participação na solicitude pastoral” do pontífice na cidade» («D. António Marto toma posse de basílica em Roma», Rádio Renascença, 25.11.2018, 18h38).

      Um pouco mais de cuidado, e os leitores ficariam a saber mais: não poucas vezes, o nome que usamos é Santa Maria sobre Minerva — sobre porque esta igreja romana, a maior igreja gótica de toda a cidade, foi erigida sobre os restos de três templos pagãos, mas sobretudo sobre o de Minerva. Há lá tempo para estes apuros — o pouco tempo livre é para as «redes sociais».

 

[Texto 10 354]

Helder Guégués às 19:48 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «tetra-mexicano»

Desconhecido por cá

 

      «Os genes do pequeno peixe tetra-mexicano, o Astyanax mexicanus, podem conter o segredo para o tratamento de alguns problemas cardíacos em humanos, já que esta espécie é capaz de regenerar o seu próprio coração sem deixar cicatrizes» («Peixe mexicano pode ser o segredo para regenerar corações humanos», Joana Capucho, Diário de Notícias, 23.11.2018, 22h40).

 

[Texto 10 353]

Helder Guégués às 19:13 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «jarra»

Ficamos a saber

 

      «Fernando Marques, presidente do Conselho da Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) no início dos anos 90 morreu aos 89 anos. Esteve sempre ligado ao futebol, em particular com clubes da Associação de Futebol do Porto. Presidiu o Conselho de Arbitragem da FPF entre 1990 e 1993, implementou o sorteio dos árbitros, e é o ‘pai’ do termo ‘a jarra’ para os árbitros que cometessem erros com influência nos resultados» («Fernando Marques (1929-2018). O inventor do sorteio dos árbitros», Correio da Manhã, 23.11.2018, p. 47).

      Realmente, já tinha visto aqui a ali esta «jarra», mas só hoje se proporciona falar do caso. Já se pode encontrar em livros: «Quando comete um erro grave, um árbitro vai para a chamada ‘jarra’, isto é, chega a ficar um mês sem ‘apitar’, que é o maior castigo que se pode aplicar-lhe: tirar-se-lhe o que mais gosta de fazer» (Pedroto, Cubillas e muito mais..., Jorge Vieira. Porto: Vida Económica – Editorial, S. A., 2013, p. 98). Tendo em conta que o País gira à volta do futebol, é melhor dicionarizá-lo.

 

[Texto 10 352]

Helder Guégués às 18:17 | comentar | favorito
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Léxico: «papa-reformas»

Não me parece

 

      «O despiste de um quadriciclo (vulgarmente conhecido como ‘papa-reformas’), em Bernadinheiro, perto da Santa Luzia, Tavira, que sexta-feira à noite provocou a morte de um homem, de 71 anos, e de uma mulher, de 49, causa dúvidas aos moradores da zona» («Acidente fatal com ‘papa-reformas’ em Tavira causa dúvidas», Correio da Manhã, 25.11.2018, 9h33).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o, mas não concordo com a definição: «microcarro conduzido por um idoso». Também é conhecido, como se sabe, por mata-velhos, que aquele dicionário também acolhe, mas remetendo simplesmente para microcarro: «veículo automóvel pouco potente e de dimensões reduzidas, geralmente com menos de 3 metros de comprimento e lugares apenas para o condutor e um passageiro». (Tirando a potência, um Smart Fortwo não difere muito disto...) Toma um nome diferente consoante é conduzido por um idoso ou por um adolescente? Aqui em Cascais, provavelmente a localidade onde há mais Bentleys e mata-velhos, estes são conduzidos sobretudo por miúdos.

 

[Texto 10 351]

Helder Guégués às 14:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Tradução: «requirement»

É desta que vamos aprender?

 

      «Até agora, a CEU cumpriu todos os requerimentos, abriu um campus nos Estados Unidos, mas o Governo ainda não assinou o acordo que lhe permitiria continuar a funcionar na Hungria, nem lhe comunicou se poderão existir requerimentos adicionais» («Eu estou com a CEU», Andrea Pető, Professora na Universidade Centro-Europeia, Budapeste, Público, 25.11.2018, p. 30).

      Será que o texto foi escrito pela Prof.ª Andrea Pető directamente em português? Não me parece. O mais provável é tratar-se de tradução, mas os nossos jornais têm o mau hábito de não indicarem quem faz a tradução. Seja como for, temos ali um erro repetido — erro para o qual já chamei a atenção noutras ocasiões —, um falso cognato mal traduzido. O inglês requirement, neste contexto, traduz-se por «requisito», «exigência», «condição», e não por «requerimento».

 

[Texto 10 350]

Helder Guégués às 12:13 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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25
Nov 18

Léxico: «irritante»

A própria substância

 

      «Depois de três dias a repetir, em Lisboa e no Porto, a mensagem de que as relações bilaterais estão num “novo patamar”, que “o irritante [jargão da diplomacia para problemas graves] desapareceu” e que Portugal “é um país muito querido pelos angolanos”, João Lourenço disse de novo que “não existem obstáculos na relação entre Angola e Portugal e, se existiu algum, foi de menor importância — é uma situação que está ultrapassada”» («“Portugal não é o principal esconderijo” das fortunas ilícitas de Angola», Bárbara Reis, Público, 25.11.2018, p. 8).

      Irritante é o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não o registar como substantivo. Não digo neste sentido, da gíria diplomática, mas no de substância que causa irritação. Não vimos aqui ainda recentemente o caso do vocábulo «acelerante»? Agora, volta não volta, ainda ontem, deparo com ele usado como substantivo, substância que aumenta a velocidade de uma reacção química.

 

[Texto 10 349] 

Helder Guégués às 10:14 | comentar | favorito
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