31
Dez 18

Léxico: «piscina infinita»

Está aí um sinal

 

      «Como ninguém queria ficar atrás, apareceram os vizinhos a querer substituir os velhos tanques por piscinas infinitas, e depois outros construíram caves e anexos, alpendres e mezaninos, ou montaram sombras para os carros e ergueram muros altos; ou então instalaram lareiras, jacúzis ou um aquecimento central, dentro das suas casas rústicas, com telhados de colmo» («Comporta clandestina», Sílvia Caneco, Visão, 26.07.2018, p. 39).

      Se já me perguntaram o que é uma piscina (de borda) infinita, então, meus amigos, isso quer dizer que está na hora de ir para os dicionários.

 

[Texto 10 518]

Helder Guégués às 19:34 | comentar | favorito
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Léxico: «auto-enxerto»

Erro capital

 

  «Atualmente, as lesões de nervo periférico são tratadas frequentemente com recurso a autoenxertos, método que apresenta muitas desvantagens, como a resistência a sutura e sacrifício de um nervo saudável» («Novo tubo-guia biodegradável. Projeto português devolve função sensorial após lesão», Rádio Renascença, 31.12.2018, 6h53).

      O termo é usado num verbete do Dicionário de Termos Médicos da Porto Editora («operação de Phemister»), mas, incongruentemente, não o vamos encontrar no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

 

[Texto 10 517]

Helder Guégués às 09:35 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «tubo-guia»

Sem guia

 

      «Um grupo de investigadores portugueses desenvolveu um inovador tubo-guia biodegradável que promete devolver a função sensorial após lesões do nervo periférico (responsável pela função motora e/ou sensorial)» («Novo tubo-guia biodegradável. Projeto português devolve função sensorial após lesão», Rádio Renascença, 31.12.2018, 6h53).

      Usam-se tubos-guias em várias áreas. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, há tubos e guias, mas não tubos-guias.

 

[Texto 10 516]

Helder Guégués às 09:33 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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31
Dez 18

Brasil: posse e porte de arma

O mundo explicado às criancinhas

 

      Chegaram-me ecos, esta madrugada, de que os Brasileiros, ou uma parte significativa, o que dá logo milhões, não compreendem a diferença entre posse e porte de arma. Tudo isto, é claro, a propósito da intenção bolsonaresca de assinar um decreto para permitir a posse de arma de fogo a todas as pessoas sem cadastro. Não é o pior nem o melhor exemplo para explicar que, nestas questões, nem sempre o conceito comum e o conceito científico ou legal coincidem, o que me leva a incentivar os lexicógrafos a copiarem, sem pejo nem receio, as definições legais. A última vez que o fiz aqui foi a propósito do crime de violação. No caso concreto do Brasil, não me se afigura assim tão difícil: a posse é relativa ao direito de possuir, em casa ou no local de trabalho, uma arma; o porte é relativo ao direito de a transportar, de a levar consigo fora de casa ou do local de trabalho. Para desmentir as antevisões de um Faroeste no Brasil, basta ver que o decreto só diz respeito à posse, não ao porte.

 

 [Texto 10 515]

Helder Guégués às 09:17 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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30
Dez 18

Léxico: «hematoncologia»

Caladinhos

 

      «“Dizia-se que usar muito o telemóvel podia fazer cancro do cérebro ou do ouvido. Não há, até hoje, nenhuma evidência científica que justifique essas conclusões”, adianta-nos António Parreira, director clínico da Fundação Champalimaud e especialista na área de hematoncologia (junção da hematologia, estudo do sangue, com a oncologia, estudo da doença do cancro)» («Os grandes mitos sobre o cérebro», Maria Espírito Santo, Sábado, 30.08-5.09.2018, pp. 82-83). Para onde quer que nos viremos, contudo, é «hemato-oncologia» que se lê. Os nossos dicionários mantêm-se caladinhos.

 

[Texto 10 514]

Helder Guégués às 20:24 | comentar | favorito
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Léxico: «encáustico»

Não serão

 

      «O hotel Xianjiang, que abriu ao público em 1954 como o primeiro hotel para estrangeiros da cidade [de Changsha, no Centro-Leste da China], desde a fundação da República Popular da China (em 1949), foi deslocado 35,5 metros para norte da sua localização original “para proteger melhor a estrutura”, avançou, este domingo, a agência de notícias Xinhua. O edifício, com três pisos e uma superfície total de 3.800 metros quadrados, foi construído com tijolos vermelhos e telhas de cimento encáustica, de “grande valor histórico e cultural”» («Como se muda um edifício com 5 mil toneladas de lugar? Veja as imagens», TSF, 30.12.2018, 15h11).

      Não tem pés nem cabeça. Como é da Lusa, andará por aí reproduzido por todo o lado. Seriam «telhas encáusticas», acepção que não se encontra entre as três registadas no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «1. pintura sobre cera; 2. tinta de púrpura misturada com cera; 3. preparado de cera para polir móveis». Seriam, mas talvez não sejam: na imprensa de língua inglesa, lê-se «red bricks and encaustic tiles».

 

[Texto 10 513]

Helder Guégués às 20:02 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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Léxico: «ronca»

Panela ou lata...

 

      «É já este sábado, dia 29 de dezembro, às 17:00, que se vão ouvir os cantares alentejanos na Praça do Município. Diz a tradição que no Natal de Elvas os grupos de populares vestiam capotes, pegavam nas roncas e andavam pelas ruas a cantar ao “Menino”. A tradição esmoreceu e quase se perdia irremediavelmente, empobrecendo a identidade cultural da terra. Mas está de regresso. [...] A ronca é uma vasilha de barro, à qual se ata na boca uma pele de coelho ou de borrego, tendo presa ao centro uma cana muito delgada. É friccionando essa cana com a mão humedecida que se tira da ronca um som cavo, ou ronco arrastado, com o qual se acompanha na quadra de Natal os cantes ao Menino. Este instrumento musical foi muito provavelmente introduzido na Península Ibérica, a partir do séc. VIII, com a chegada de diversas tribos berberes do norte de África, donde será original [sic]» («O som das roncas de Elvas na Praça do Município», Diário de Notícias, 27.12.2018, 15h29).

      A definição de ronca que encontramos no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora copia mais ou menos o que se diz há décadas noutros dicionários, e a primeira falha, a meu ver, é logo não se afirmar que se trata de um instrumento musical (membranofone de fricção): «panela ou lata com uma pele de bexiga distendida, que produz um som rouco e áspero quando se passa a mão por um cordel encerado que lhe está ligado».

 

[Texto 10 512]

Helder Guégués às 10:20 | comentar | ver comentários (2) | favorito
30
Dez 18

Léxico: «vinho de talha»

Devia

 

      «A paixão do arménio Mirko é o vinho, em especial o chamado vinho de talha, que há milhares de anos é produzido no seu país e que os romanos trouxeram também para Portugal, sendo hoje no Alentejo que a tradição está mais preservada. “Vinho de talha, ou karas na Arménia, é o vinho que é fermentado em recipientes de barro”, explica o jovem académico de 28 anos, de seu verdadeiro nome Mkrtich Harutyunyan (“Mirko é para ser mais fácil para os meus amigos portugueses”, diz, entre risos), que está a fazer um doutoramento em Microbiologia do Vinho no Instituto Superior de Agronomia, na Ajuda, que integra a Universidade de Lisboa. [...] Em Portugal, como prova de que esta tradição herdada dos romanos é bem forte, há atualmente 20 municípios envolvidos no projeto de candidatura da produção artesanal de vinho de talha à classificação de Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, um processo liderado por Rui Raposo, presidente da Câmara de Vidigueira» («O arménio apaixonado pelo vinho de talha alentejano», Leonídio Paulo Ferreira, Diário de Notícias, 30.12.2018, 00h00).

      Pois, e como já se disse por aqui, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista vinho de talha, e devia fazê-lo, evidentemente.

 

[Texto 10 511]

Helder Guégués às 09:54 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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