05
Dez 18

Um retroactivo substantivo

Paulo contra Paulo

 

      «P.G. concede-me, e à língua portuguesa, que haja dois significados para a palavra “retroativo” e sabe, mas omite, que o sentido em que utilizo o adjetivo é o que vem em todos os dicionários: “Que tem efeitos sobre factos passados, que modifica o que já foi feito” (Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora, 2010)» («O umbigo de Paulo Guinote», Paulo Pereira Trigo, Público, 5.12.2018, p. 54).

      Evidentemente, o deputado não soube exprimir-se, ou, o que é incomparavelmente pior, quis deturpar os factos, pois a sua declaração de voto, na redacção que foi divulgada em vários jornais, diz assim: «Importa sublinhar que os sindicatos reivindicam retroativos relativamente a todos os anos que as carreiras estiveram congeladas. Em nosso entender, o descongelamento já é um progresso, sendo que a verdade é que a questão dos retroativos não consta do programa do PS ou do programa do Governo, sendo algo injusto relativamente a outras carreiras atendendo, designadamente, ao facto de a progressão dos professores ser mais rápida que a existente no plano das carreiras gerais.» Paulo Guinote não pôde deixar passar sem apontar semelhante erro ou lapso ou trapalhada intencional: «Comecemos pela acepção mais corrente e “popular” do termo “retroactivos”. Consultando a Infopédia, como nome comum, um “retroactivo” corresponde a “montante que corresponde a pagamentos devidos e que estão em atraso”, sendo mais usado na forma plural (como o faz P.T.P.). Ora, isto é completamente falso. Em nenhum momento, mesmo de mais intenso conflito, professores ou sindicatos exigiram ou sequer sugeriram receber qualquer montante pelos anos em que a sua carreira esteve “congelada”» («Os “factos alternativos” à portuguesa», Paulo Guinote, Público, 4.12.2018, p. 45).

 

            [Texto 10 407]

Helder Guégués às 23:09 | comentar | favorito
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Léxico: «puxeiro»

Serve para puxar

 

      «Contactada pelo JM, a coordenadora da SPEA Madeira, Cátia Gouveia, explicou que foram encontrados dois ganchos ou ‘puxeiros’ em colónias distintas, assessórios [sic] que são utilizados para retirar os juvenis de cagarra do interior do ninho» («Continua a captura ilegal de cagarras», Cláudia Ornelas, Jornal da Madeira, 5.12.2018, p. 11).

      Ai que no Jornal da Madeira também não consultam o dicionário... Ai, ai, Cláudia Ornelas... Sim, assessório existe — relativo ao assessor. Como sinónimo de utensílio ou apetrecho, é acessório. (Aproveite-se a oportunidade para dizer que a definição do dicionário da Porto Editora parece ter sido redigida por uma criança: «objecto e utensílio necessário para executar qualquer coisa; apetrecho». Executar uma coisa...) Quanto a puxeiro, esquecido, por amor de Deus, não venham dizer que é regionalismo da Madeira.

 

            [Texto 10 406]

Helder Guégués às 09:28 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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05
Dez 18

Léxico: «ranhurar»

Tem e não tem

 

      «Assim, foram instalados discos ranhurados de 350 mm de diâmetro no eixo dianteiro e de 330 mm atrás. Ao cabo de muito abuso e de vários dias de utilização na mão dos jornalistas em apresentação internacional, registou-se alguma fadiga dos travões na nossa unidade, tornando o pedal mais ‘esponjoso’, mas percebe-se...» («Contacto Mercedes-AMG A35 4MATIC: Algo poderoso vem a caminho», Pedro Junceiro, Motor 24, 5.12.2018, 2h18). O que pressupõe um ranhurar, que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista, mas o Dicionário de Alemão-Português acolhe como tradução do verbo kehlen. Ah, se já existisse a informática, isto não acontecia...

 

            [Texto 10 405]

Helder Guégués às 09:11 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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