10
Dez 18

Léxico: «violação»

Muito incompleta

 

      «O PAN — Partido dos Animais e Natureza — quer alterar o Código Penal para que sexo sem consentimento passe a ser violação. Esta mudança legislativa está prevista na Convenção de Istambul e foi aconselhada pela Amnistia Internacional no início de 2018, mas só ocorreu em onze países europeus até agora» («Sexo sem consentimento não é violação? O V explica», Joana Ascensão, V Digital, 10.12.2018, 18h15).

      Neste caso, até eu votaria ao lado do PAN. Talvez até me esquecesse daquelas parvoiçadas sobre os provérbios. Portanto, não é improvável que venhamos a ter de alterar, muito em breve, a definição de violação nos nossos dicionários. Mas vamos com calma. Ainda assim, diga-se que a definição de violação que se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ganharia muito se se limitasse a copiar o que diz a lei, pois está muito incompleta.

 

            [Texto 10 436]

Helder Guégués às 22:12 | comentar | favorito

Tradução: «reverse zoonosis»

Já estamos servidos

 

      «Segundo o estudo, exploradores, baleeiros, cientistas e — mais recentemente — também turistas, são exemplos de grupos humanos que se têm deslocado até pontos mais remotos do extremo sul do planeta e que estão a provocar casos de ‘zoonoses’ de forma inversa — infeções que são transmitidas pela espécie humana a outros seres vivos. [...] O estudo mostra que o risco de zoonose inversa é mais elevado em áreas próximas das zonas geográficas mais habitadas, como as ilhas Malvinas e o arquipélago Tristão da Cunha» («Humanos levam bactérias perigosas para a Antártida. Animais colocados em perigo», TSF, 10.12.2018, 18h36).

      Parece uma formulação, sobretudo a segunda, muito acertada, quase um achado — já que zoonose é (aproveitemos a definição do dicionário da Porto Editora, tão boa como a de outros) a «doença infecciosa que é transmitida ao ser humano por animais». No original está reverse zoonosis. Contudo, esta acepção está no domínio da medicina. Se se trata de animais, o domínio já é o da veterinária. Ora, o dicionário da Porto Editora tem uma primeira acepção deste domínio: «qualquer doença que pode manifestar-se nos animais». Sendo assim, parece-me desnecessário acrescentar o adjectivo «inversa»: em ambos os casos, é de zoonose que se trata.

 

            [Texto 10 435]

Helder Guégués às 21:33 | comentar | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «subantárctico»

Pois, mas existe

 

      «O estudo [publicado na revista Science of the Total Environment], que identificou bactérias do género ‘salmonella’ e ‘campylobacter’ de origem humana em aves marinhas dos ecossistemas antárticos e subantárticos, explica que estes agentes que causam infeções frequentes nas pessoas são adquiridos pelas aves marinhas costeiras em contacto com humanos ou com o gado, e dispersam-se ao largo do oceano do sul» («Humanos levam bactérias perigosas para a Antártida. Animais colocados em perigo», TSF, 10.12.2018, 18h36).

      Parece que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora se esqueceu de subantárctico. No VOLP da Academia Brasileira de Letras: ✓.

 

            [Texto 10 434]

Helder Guégués às 21:16 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «estabilizante»

Nada de novo

 

      «Uma investigação do CIMO, Centro de Investigação de Montanha do Instituto Politécnico de Bragança[,] está a substituir os sulfitos, estabilizador químico, por um produto natural feito a partir da [sic] flor do castanheiro. [...] Fernando Paiva é viticultor desde 2000. Tem as suas vinhas em Amarante e na Lixa. Uma manhã ouviu na rádio a investigadora brigantina Isabel Ferreira falar sobre um estabilizante natural que estavam a experimentar no queijo. Ligou à cientista e propôs-lhe fazer o mesmo no vinho em substituição dos sulfitos. E assim fizeram, já lá vão três anos» («Descoberta de investigadores de Bragança pode revolucionar o mundo dos vinhos», Afonso de Sousa, TSF, 10.12.2018, 13h53).

      Parece que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora se esqueceu de estabilizante. E, contudo, usa o termo na definição de «emulsivo». No VOLP da Academia Brasileira de Letras: ✓.

 

            [Texto 10 433]

Helder Guégués às 21:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «proselitista»

Não pode ser

 

      Sim, proselitista, mas esta é palavra que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora também não regista. Diacho! Tem proselítico, proselitismo e prosélito. Pior, porque há sempre, mas sempre pior: no Dicionário de Espanhol-Português diz-se que em português é... «proseletista».

 

            [Texto 10 432]

Helder Guégués às 14:40 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Léxico: «desfiscalizar»

Para perceber o mundo

 

      «A França vestida de amarelo espera respostas concretas para aumentar o poder de compra. Por exemplo, querem o aumento do salário mínimo nacional em pelo menos 100 euros; querem desfiscalizar as horas extraordinárias; querem mais justiça fiscal, ou seja, a reposição do imposto sobre as fortunas que Emmanuel Macron aboliu» (Rosário Salgueiro, correspondente da Antena 1 em Paris, no noticiário das 9h00). O verbo nunca antes o encontrei, mas desfiscalização (redução de impostos) anda por aí.

 

            [Texto 10 431]

Helder Guégués às 14:30 | comentar | favorito
Etiquetas: ,

A importância da revisão

Assim não percebemos

 

      A Associação Ahmadia do Islão em Portugal deixou-me três folhetos iguais na caixa do correio. Deve ser importante. Deixem cá ver. «Por volta de 1400 anos atrás, o Sagrado Profeta Muhammad(sa) tinha feito profecia da expansão global do Islão.» Não é habitual escrever-se aquela abreviatura como SAW, de Salla Allah alaihi wa-Sallam, que significa «que as bênçãos e a paz de Alá estejam com ele»? Então, porque a escreveram daquela maneira? Pior: «Em 1889, o Messias Prometido(as) iniciou o renascimento do Islão e fundou a Comunidade Islâmica Ahmadia.» Mas é SA ou AS? Deixam-nos atordoados. Há algum texto que não precise de revisão? Num texto proselitista, a ortografia devia ser o último mistério.

 

            [Texto 10 430]

Helder Guégués às 13:10 | comentar | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «mor»

Uma moeda local

 

      Montemor-o-Novo, no Alentejo, vai estrear em 2019, por ocasião da Feira da Luz, uma moeda local. «Chama-se “mor”, vai conviver com o euro, mas tem o objetivo de não deixar escapar o dinheiro do concelho. A taxa de câmbio é apresentada como atrativo, beneficiando em 2% quem troca euros por mores e penalizando em 3% quem troca mores por euros. ou seja: Cada 100 euros equivalem a 102 mores, mas 100 mores valem 97 euros. [...] A ideia da moeda local, que terá a forma de um cartão de crédito, vem de 2013, tendo sido testada em três feiras francas, duas das quais seriam registadas no inventário de Moedas Comunitárias de Portugal de 2014. [...] Portugal já tem algumas experiências em moedas locais nos últimos anos, precisamente com o objetivo de conceder maior poder de compra às famílias mais desfavorecidas, sobretudo, na realização de feiras. [...] O próprio Banco Central Europeu já emitiu pareceres onde não levanta obstáculos a estes sistemas» («Mor, a futura moeda pensada para animar a economia de Montemor», Roberto Dores, Diário de Notícias, 9.12.2018, 16h14).

 

 

            [Texto 10 429]

Helder Guégués às 09:16 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
10
Dez 18

Léxico: «fogaceiro»

Mais pontas soltas

 

      «O objetivo dos fogaceiros passa por voltar a vencer os verde-rubros, depois do sucesso alcançado nos Barreiros (3-0), para a Taça de Portugal, a 25 de novembro, ainda com Cláudio Braga no banco dos madeirenses» («Trio em dúvida limita opções para o Marítimo», Vítor Pinto, Record, 9.12.2018, 15h09).

      Eu sei que parece mentira — o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista o vocábulo fogaceiro. No caso do artigo do Record, é relativo ao Clube Desportivo Feirense, mas ainda na sexta-feira vi, no Festival do Chocolate e Doçaria de Carnide, no Largo da Luz, um verdadeiro fogaceiro, a pessoa que faz ou vende fogaças. Isto é muito estranho, sobretudo porque o termo aparece em dois dicionários bilingues.

 

            [Texto 10 428]

Helder Guégués às 08:40 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,