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Dez 18

«História/estória»

Uma grande treta

 

      «Em resposta à líder do CDS-PP, António Costa disse, no debate quinzenal, que as políticas do Governo “estão certas, os resultados são bons” e que o Executivo do PS “tem de continuar”. “Nós não contamos histórias, nós apresentamos resultados”, afirmou, depois de ouvir Assunção Cristas afirmar que “o primeiro-ministro é um contador de estórias”» («“Autarca de Borba conhecia a matéria há muito tempo”», João Alexandre e Judith Menezes e Sousa, TSF, 11.12.2018, 15h15). 

      Os jornalistas que me desculpem, se quiserem, mas isto é uma treta irritante. Acaso espreitaram por cima do ombro de Assunção Cristas e viram a palavra assim escrita nos papéis do discurso? Ou da boca da deputada centrista, em vez de sons, saíram, materializadas, sílabas? Treta, não tanto pela legitimidade ou não da palavra «estória», que jamais usarei, mas porque são homófonas. Quem não sabe, ou contesta, que o vocábulo «história» tanto designa a dimensão mais episódica e ficcional do relato de uma história, como a dimensão de narrativa oficial dos acontecimentos? Uma treta, repito, que não devia ser caucionada pelos jornalistas. Já hoje aqui citei um bom exemplo: Histórias da História, de Helena Matos, na Antena 1. Como se vê, soube resistir.

            [Texto 10 444]

Helder Guégués às 20:18 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «abeto-de-fraser»

É a nossa prenda de Natal

 

      «Os norte-americanos de todos os estados podem este ano receber árvores autênticas e com até dois metros pelo correio. [...] A maior árvore à venda, um Abeto de Fraser da Carolina do Norte com mais de dois metros[,] custa 115 dólares (cerca de cem euros). Um pinheiro da Ilha de Norfolk fica mais em conta. A entrega é gratuita» («Amazon entrega árvores de Natal naturais com mais de dois metros pelo correio», Rui Tukayana e Carolina Rico, TSF, 11.12.2018, 15h33).

      O capitalismo em toda a sua pujança! Aposto que há textos com o Acordo Ortográfico de 1990 à venda na Amazon. Oxalá caia um exemplar no sapatinho de Rui Tukayana e outro no de Carolina Rico. Nunca se sabe. Eles sim, deviam escrever «abeto-de-fraser», e não nós, mas enfim. O dicionário da Porto Editora tem vários abetos, mas não este abeto-de-fraser (Abies fraseri). Na ficha desta espécie na página da Internet do Jardim Botânico do Porto, lê-se que as folhas são «achatadas e flexíveis com uma ponta emarginada e arredondada». Emarginado é outra palavra que o dicionário da Porto Editora não acolhe; regista somente imarginado, «sem margens ou bordos». Ora, folhas de árvores sem margem não pode ser, não é assim? Quanto a emarginado, lê-se neste brasílico Glossário Ilustrado de Morfologia, «diz-se quando o ápice de um órgão (folha, fruto ou semente) apresenta uma reentrância (incurvação), como se tivessem tirado um pedaço». Pois, também não regista incurvação....

 

            [Texto 10 443]

Helder Guégués às 16:32 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «microcrédito»

Uma história muito repetida

 

      «Associação que trouxe o microcrédito para Portugal vai fechar» (Sandra Afonso, Rádio Renascença, 11.12.2018, 12h25). Trata-se da Associação Nacional de Direito ao Crédito, que faz agora 20 anos. O nosso Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ignora o vocábulo e o conceito. E, contudo, o Dicionário de Português-Tétum acolhe-o. Mikrokréditu.

 

            [Texto 10 442]

Helder Guégués às 16:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «composição»

Isto é muito, muito grave

 

      Um dos mais constantes leitores do Linguagista — e só o sei porque não é anónimo — foi hoje à Póvoa de Varzim de metro e regressou a casa a tempo do almoço. Apanhou uma composição que fazia serviço expresso. Chegado a casa, em vez de ir logo espreitar à cozinha, como faria qualquer comilão, foi antes espreitar ao dicionário da Porto Editora. «Nada de composição ferroviária!» Homessa! Então ao conjunto de carruagens, de veículos ferroviários não se dá o nome de composição? Caramba, está em tantos dicionários. O primeiro que tenho aqui à mão é o de José Pedro Machado, e lá está a acepção. Não a encontramos em todos, é certo, o que demonstra bem a falta de cuidado.

      Divergindo um pouco: «porque não é anónimo», escrevi ali mais acima. Prezados leitores, se querem ver os seus comentários publicados, assinem-nos, ainda que seja com um nome inventado. Que raio, porquê como anónimos? São mais ou menos importantes do que eu, que dou a cara todos os dias? Têm medo de errar? Têm falta de confiança? Receio de comparações?

 

            [Texto 10 441]

Helder Guégués às 13:47 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «ciberjornalismo»

E mais alguma coisa

 

      «Das três categorias em que estava nomeada para esta edição dos prémios atribuídos pelo Observatório do Ciberjornalismo, a Renascença foi distinguida nas categorias “Narrativa Vídeo Digital” e “Última Hora”» («Renascença vence prémios ObCiber com cobertura dos grandes incêndios de 2017», Rádio Renascença, 22.11.2018, 18h51).

      Parabéns, Rádio Renascença. Agora só falta o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registar ciberjornalismo.

 

            [Texto 10 440]

Helder Guégués às 10:44 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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As palavras da bebedeira

Por acaso faltam

 

     «Bêbedos, borrachos, borracholas. Copofónicos, empielados e enfrescados [sic]. Tosgas, pielas e pifões. No dicionário da Língua Portuguesa não faltam palavras para definir o ato de beber em excesso. Mas e as canções? Um grupo de amigos juntou-se para olhar para o cancioneiro popular português e descobriu músicas relacionadas com o vinho e com o ato de beber na cultura portuguesa» («Bêbedos e borracholas. Há um livro que canta as histórias do vinho em Portugal», Sara de Melo Rocha, TSF, 11.12.2018, 8h54).

      Não faltam na língua, melhor dizendo; em concreto, dicionário a dicionário, faltam e nota-se muito: no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, e noutros, não estão todas as citadas, e elas são usadas tanto na oralidade como na escrita, até na literatura. (O livro é Vinho & Amigo, o mais Antigo — Canções de Beber Dedicadas aos Amigos, João Pimentel (org.). Lisboa: Fabula Urbis, 2018. Ver aqui.)

 

            [Texto 10 439]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Como anda a nossa imprensa

Sem intervenção do raciocínio

 

      «A NATO anunciou esta segunda-feira em Riga, Letónia, que a proposta vencedora para detetar o uso malicioso de vídeos e fotos na internet foi a apresentada pela Universidade de Aveiro (UA). “A proposta que a Universidade de Aveiro apresentou à NATO ganhou face às duas concorrentes da final: um projeto apresentado pela Universidade de Torino e outro apresentado por uma ‘startup’ [empresa emergente em fase de desenvolvimento] da Lituânia”, avançou à agência Lusa fonte académica» («Universidade de Aveiro vai detetar mensagens extremistas», Rádio Renascença, 10.12.2018, 20h49).

      Se não houvesse tanto psitacismo na nossa imprensa, é claro que uns escreveriam «Torino», mas outros, e em maior número, escreveriam «Turim». Uma tristeza. Não se salvem a si próprios, não. Esperem pelo Ti Celito.

 

            [Texto 10 438]

Helder Guégués às 09:12 | comentar | favorito
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Dez 18

Léxico: «torque(s)»

Mistérios

 

      Conhecem aquele exercício de oratória que consiste em improvisar durante cinco ou dez minutos sobre determinado objecto? Agora imaginem que o objecto era um torque e a única informação que tínhamos era a definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «pulseira, bracelete». É uma definição imprecisa, paupérrima. Lembrei-me disto porque esta semana Helena Matos, no programa Histórias da História, na Antena 1, anda a falar da xorca de Sintra. Trata-se de um torque ou de uma xorca? E porque é que o dicionário da Porto Editora, que regista as variantes axorca e xorca, não acolhe as variantes torque e torques, não me dizem? Mistérios.

 

            [Texto 10 437]

Helder Guégués às 08:34 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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