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Dez 18

Léxico: «bicombustível»

Bi-, não bio-

 

      O uberista, a pessoa mais divertida com que me cruzei nos últimos tempos, veio quase todo o caminho a gabar o seu novo carro. «E é bicombustível», rematou a lista das características. «Vá lá dizer isso», pensei para mim próprio, «ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.»

 

            [Texto 10 475] 

Helder Guégués às 16:03 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «apalpador»

Com que então, só mulheres...

 

      «O elevador imobilizou-se com um suspiro de tédio, como se àquela hora os visitantes não tivessem nada que cheirar ali. Indiquei à ascensorista — robusta e com expressão de estúpida — o nome de Barney Kelly, e examinou-me como se fosse uma apalpadeira da Polícia [police matron]» (Um Sonho Americano, Norman Mailer. Tradução de Eduardo Saló. Lisboa: Livros do Brasil, 1988, p. 194).

      Está no dicionário da Porto Editora, sim senhor, ou, pelo menos, um sentido próximo: «mulher que, em certos estabelecimentos alfandegários, verifica se as pessoas do seu sexo são portadoras de objectos proibidos ou sujeitos a direitos». Que pensamos logo? Se há apalpadores. Aquele dicionário jura que não, mas sabemos que está a mentir, pois encontramo-lo em dicionários bilingues.

 

            [Texto 10 474]

Helder Guégués às 09:52 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «alquibla/quibla»

Está mal

 

      Tendo em conta o nosso passado, e até o presente, é estranho que os nossos dicionários não acolham a palavra quibla — ou uma variante, enfim. Por motivos óbvios, podemos pôr de parte qibla, mas não alquibla, que é precisamente a grafia que encontramos no Aulete. (E no Dicionário da Real Academia Espanhola.) Na Infopédia, ora se usa qibla ora quibla.

 

            [Texto 10 473]

Helder Guégués às 09:48 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «cecília»

Não há pior cego

 

      «Um anfíbio cego, recentemente descoberto pelos cientistas, vai ser chamado “Dermophis donaldtrumpi”, uma referência ao Presidente norte-americano[,] que teima em negar as alterações climáticas. Trata-se de uma cecília (ou cobra-cega) e o direito a atribuir-lhe um nome foi leiloado para angariar dinheiro para a Rainforest Trust, uma organização sem fins lucrativos, que tem como objetivo a proteção das espécies e ecossistemas em perigo» («Anfíbio que enterra a cabeça na areia batizado “donaldtrumpi”», Rádio Renascença, 19.12.2018, 8h00).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, se regista cobra-cega, esquece-se de cecília, que só aparece (outra vez!) num bilingue. O artigo lembra, e bem, que «cecília vem do latim cecus, que significa cego, o que reflete perfeitamente a visão estratégica que o Presidente Donald Trump tem constantemente demonstrado em relação às alterações climáticas».

 

            [Texto 10 472]

Helder Guégués às 09:46 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «deobandita»

Assim, é nosso

 

      «Porque é que o TLP, movimento sufi, inicialmente moderado e inimigo dos talibãs deobanditas, ambos sunitas, se tornou um grupo temível, capaz de mobilizar multidões de fanáticos?», pergunta a jornalista Margarida Santos Lopes num artigo na Além-Mar de Janeiro. Infelizmente, os nossos dicionários não registam deobandita. Quando é necessário usar o termo, pedimo-lo emprestado.

 

            [Texto 10 471]

Helder Guégués às 09:35 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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19
Dez 18

Léxico: «marinhão»

Isso é muito pouco

 

      No domingo, o convidado do Afinidades, de Maria João Seixas, foi Jorge Bacelar, um veterinário de campo na zona da Murtosa e de Estarreja. Em 2013, começou a fotografar os animais que trata e os seus donos e agora as suas fotografias admiráveis arrecadam prémios de prestígio internacional. Às tantas, falou na «região marinhoa», nas «vaquinhas marinhoas, que eram usadas na arte xávega para puxarem as redes». Ora, marinhão, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é somente «(gado) criado no litoral». Não é bem assim, como se vê.

            [Texto 10 470] 

Helder Guégués às 09:31 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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