31
Jan 19

Léxico: «criossismo»

Agora não é teórico ou no ar

 

      A propósito do vórtex (ou vórtice) polar, no Telejornal da RTP3, mostraram uma entrevista a Ed Shimon, do Serviço Nacional de Meteorologia dos EUA: «O termo oficial é “cryosysis”, mas o termo mais usado é terramoto de gelo. É uma situação onde há uma queda brusca das temperaturas, depois de uma situação em que o solo pode estar saturado de chuva, como aconteceu recentemente.» É também o que eu ouvi e o que estava nas legendas — cryosysis. Sucede, porém, que não encontro esta palavra em lado nenhum. Por outro lado, nas últimas horas, a palavra que insistentemente se tem usado a propósito do tempo nos EUA é cryoseism, esta sim registada nos dicionários: «Also known as frost quake may be caused by a sudden cracking action in frozen soil or rock saturated with water and ice» (in Collins). Ora, no dia 29 de Dezembro, um sábado, lembro-me bem, enquanto esperava uma pessoa no Parque Marechal Carmona, dei uma olhadela à revista Quero Saber, e vi lá isto: «Um abalo causado pelo gelo, ou criossismo, é um fenómeno natural raro que faz o solo tremer na proximidade imediata do respetivo epicentro e produz um som estrondoso» («Abalos causados pelo gelo», Quero Saber, Outubro/Novembro de 2018, p. 71). Afinal, sempre faz falta o termo criossismo.

 

[Texto 10 694]

Helder Guégués às 21:25 | comentar | favorito
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Léxico: «pangásio»

Não é «pancrácio»

 

      Ora aqui temos uma promoção imperdível de filetes de pangásio sem pele. Seis embalagens, se faz favor. Lá porque pangásio não está no dicionário da Porto Editora não quer dizer que não seja comestível. O pangásio (Pangasianodon hypophthalmus/Pangasius bocourti), vulgarmente conhecido como panga ou peixe-gato, vive em rios e estuários na Índia, mas, claro, este que compramos é produzido em aquacultura por todo o Sudeste Asiático. Está na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e no VOLP da Academia Brasileira de Letras, por exemplo. E, agora, no meu prato.

 

[Texto 10 693]

Helder Guégués às 19:50 | comentar | favorito
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Como escrevem alguns professores

Não devia ter lido

 

      Muito bem, hoje os meninos (e as meninas, diria qualquer bloquista menos conhecedor da língua) trouxeram uma ficha de trabalho de Matemática. Já sei que nunca é boa ideia aprofundar estas coisas, mas não resisti. «Explica como chegas-te à tua resposta. Podes usar palavras, cálculos ou esquemas.» Isso de usar cálculos ou esquemas devia aplicar-se, neste caso, apenas aos próprios professores. Não seria boa ideia o Ministério da Educação organizar cursos de alfabetização para professores?

 

[Texto 10 692]

Helder Guégués às 18:39 | comentar | favorito (1)
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Pontos cardeais e colaterais

Talvez em Fevereiro

 

      «O Instituto Português do Mar e da Atmosfera registou esta manhã um sismo de magnitude 3.3 (na escala de Richter), com epicentro a cerca de oito quilómetros a Oeste-Noroeste de Silves» («Sismo de magnitude 3.3 registado perto de Silves», Carolina Rico, TSF, 31.01.2019, 12h52).

      Carolina Rico, se calhar já não é em Janeiro que vai escrever isto correctamente, não? O que está estabelecido no Acordo Ortográfico de 1990 é que a maiúscula deve ser usada apenas «nos pontos cardeais ou equivalentes, quando empregados absolutamente». Não é o caso. Estude um pouco, com sorte não vai morrer mais cedo por causa do esforço.

 

[Texto 10 691]

Helder Guégués às 16:34 | comentar | favorito
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Léxico: «biodeterioração»

Coisas novas

 

      «Uma equipa de investigadores da Universidade de Coimbra descobriu uma nova família de fungos numa das paredes da capela de Santa Maria, na Sé Velha, que está a deteriorar a pedra. O micro-organismo – do grupo dos fungos microcoloniais negros – foi detetado na capela de Santa Maria, nos claustros da Sé Velha de Coimbra, no âmbito de uma investigação da Universidade de Coimbra que tem o objetivo de analisar a deterioração causada por fungos, algas, bactérias e por ‘archaea’ (biodeterioração) em calcário na zona da Universidade de Coimbra, Alta e Sofia, classificada Património Mundial, afirmou à agência Lusa o autor principal do artigo, João Trovão» («Detetado novo fungo que está a deteriorar pedra da Sé Velha de Coimbra», 31.01.2019, 10h39).

      Isto é tudo ainda muito novo: biodeterioração ainda não está nos dicionários, nem tão-pouco microcolonial. Quanto a este, os vendidos da pátria talvez prefiram que se diga black microcolonial fungi (MCF). Para se perceber lá fora.

 

[Texto 10 690]

Helder Guégués às 13:14 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «acaburro»

Resultante de má leitura

 

      O texto aludia ao episódio da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, montado num burro, que se recorda e se reconstitui no Domingo de Ramos, e sobejamente conhecido. Hosana nas alturas! O título do texto era «A cavalo num burro». Lembrei-me logo, e até disse ao Fernando (assim, como os maluquinhos que falam de terceiros que não conhecemos de lado nenhum), que existe o termo acaburro, por analogia com a locução adverbial a cavalo para significar o que vai montado em burro. Nos dicionários actuais, viste-lo. Só o Dicionário de Português-Francês da Porto Editora acolhe acaburro, mas remete-nos, ó desilusão, directamente para zaburro; aqui, vemos que é a tradução de gros millet. Ora, a este acaburro fez José Pedro Machado a seguinte nota, que os lexicógrafos de hoje em dia não deviam esquecer: «Creio que se trata de voc. resultante de má leitura. Estará em vez de açaburro

 

[Texto 10 689]

Helder Guégués às 11:15 | comentar | favorito
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& Cia.

Não vão adivinhar

 

      Era uma carrinha de mudanças da Medeiros & Cia., e a criancinha perguntou-me o que significava esta última palavra. O Dicionário de Siglas e Abreviaturas da Porto Editora diz que é a sigla de Central Intelligence Agency, o Serviço Secreto de Informação dos Estados Unidos da América. Ou de Conselho Internacional de Arquivos. Estou a brincar, não lhe respondi desta maneira, mas podia, não é? Cia., ou C.ia, é a abreviatura de «companhia», e tem de estar nos dicionários, para as pessoinhas e mesmo alguns crescidos e os aprendentes estrangeiros saberem, ou não?

 

[Texto 10 688]

Helder Guégués às 10:52 | comentar | favorito
31
Jan 19

Dia ao Contrário

Gramática às avessas

 

      A emissão de hoje de Um Dia no Mundo, de Francisco Sena Santos, na Antena 1, era sobre os Irlandeses e os Norte-Irlandeses, sobre as duas Irlandas, os menos de 2 milhões de um lado, os 5 milhões do outro lado. «Todos sentem-se irlandeses», garante o cronista, num imperdoável deslize — com certeza não improvisa, a crónica é escrita. Deve ser porque hoje é o Dia ao Contrário, já que Sena Santos é uma das melhores vozes e cabeças da rádio.

 

[Texto 10 687]

Helder Guégués às 10:12 | comentar | favorito
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