11
Jan 19

Léxico: «infiltrado»

Há, mas em Espanha

 

      «A psicóloga está também preocupada com o facto de as imagens que foram captadas por um infiltrado poderem vir a ser divulgadas noutros meios, aumentando o perigo de serem identificados outros membros do grupo» («Visados de reportagem da TVI avaliam processo judicial», Filipe d’Avillez, Rádio Renascença, 11.01.2019, 17h23).

      Primeiro que tudo, deve dizer-se que há dicionários que nem sequer acolhem o termo infiltrado. O dicionário da Porto Editora regista-o, mas não se pode dizer que o falante — por exemplo, um jovem ou um estrangeiro aprendente do português — fique a saber exactamente o que significa: «1. aquele que se infiltrou; 2. MEDICINA (radiologia) opacidade pulmonar homogénea e pouco extensa; 3. MEDICINA (anatomia patológica) aglomeração mais ou menos densa e extensa de células de diferentes tipos num tecido ou num órgão». Tão-pouco o encontramos no Sacconi. Está, contudo, no Houaiss (Lisboa, 2003) e, melhor que todos, no Dicionário da Real Academia Espanhola: «Persona introducida subrepticiamente en un grupo adversario, en territorio enemigo, etc.»

 

[Texto 10 579]

Helder Guégués às 18:28 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Um novo dicionário

Vamos comprová-lo

 

      «O dicionário de Morais e Silva regista, apenas, a palavra “obrigado” como particípio passado de obrigar, mas o dicionário da Língua Portuguesa, saído já em 2018, regista a palavra como adjetivo, interjeição ou como tempo verbal. Registos que atestam que os “próprios dicionários, enquanto elementos de estabilização da língua, mostram a forma como o conjunto da comunidade vai reconhecendo aquilo que é o uso reconhecido”, explica Maria Antónia Coutinho [investigadora do Centro de Linguística da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa]» («Já disse “obrigado” hoje? Aprenda a saborear o agradecimento», Sandra Xavier e Fernando Alves, TSF, 11.01.2019, 12h14).

      Então, é «o dicionário da Língua Portuguesa» e não se diz mais nada? Tive de ouvir a entrevista para saber que se trata do Dicionário da Língua Portuguesa — Léxico, Gramática, Prontuário, de Aldina Vaza e Emília Amor (Alfragide: Texto Editora, 2018). Da entrevista que as autoras deram a Rita Pimenta, do Público («Dicionários em papel para quê? (e para quem?)», 30.12.2018, 7h41), extraio este trecho, que, se não serve para os dicionaristas já falecidos, serve para os outros, aspecto para o qual estou frequentemente a chamar a atenção: «A lista definitiva [dos vocábulos incluídos neste dicionário] teve ainda de incluir, posteriormente, todas as palavras que foram usadas na redação dos artigos (como nas definições e nos exemplos), mas que não constavam na nomenclatura criada.» Não conheço nenhum dicionário que cumpra este critério — e agora falta comprová-lo neste.

 

[Texto 10 578]

Helder Guégués às 17:50 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «carpoteca/espermateca»

Mais dois esquecidos nos museus

 

      Temos vários bancos de sementes em Portugal. O mais antigo é o banco de sementes A. L. Belo Correia, que conserva mais de 3700 amostras de sementes de 1200 espécies e subespécies, e tem sede no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, da Universidade de Lisboa. Nele, há uma carpoteca (colecção de frutos conservada para fins científicos) e uma espermateca (colecção de sementes). Carpoteca o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora simplesmente não conhece; esta acepção de espermateca não a regista. De qualquer maneira, diga-se que nem o culto Houaiss nem o espevitado Sacconi se lembraram desta acepção de «esperma(to)teca». Sacconi, aliás, nem sequer regista «carpoteca». Vergonha.

 

[Texto 10 577]

Helder Guégués às 15:16 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Como se escreve (e se pensa) por aí

Uma miséria

 

      «É o maior evento LGBTI da Europa — todos os anos, uma cidade europeia recebe conferências, concertos e uma Marcha Pride, para celebrar o orgulho LGBTI (Lésbico, Gay, Bissexual, Transexual e Intersexual). Portugal vai candidatar-se para receber a edição de 2022 do EuroPride» («Portugal avança com candidatura para receber o maior evento LGBTI da Europa», Joana Carvalho Reis, TSF, 11.01.2018, 7h29).

      Foi mesmo muito a tempo que, a 20 de Junho passado, propus que o dicionário da Porto Editora registasse intersexo e LGBTI. Quanto ao artigo da TSF, para quê aquela salsada de «marcha» e «pride»? Então não se costuma escrever «marcha do orgulho»? Não estamos em Portugal, Joana Carvalho Reis? (De vez em vez, espreito as caixas de comentários destas notícias, para avaliar a saúde mental dos Portugueses. Uma miséria. Choninhas que na vida real são incapazes de levantar os olhos para os outros, na vida virtual são uns facínoras. Um pede um novo terramoto em Lisboa para aqueles dias. Outro queria que fossem manifestar-se para o Árctico. E por aí fora. Um ponto em comum: escrevem todos mal como a porra. Mas hoje é Dia Internacional do Obrigado, e eu agradeço que toda essa gente exista: até parece que somos mais normais, não é? Já se sabe que, de perto, ninguém é normal.)

 

[Texto 10 576]

Helder Guégués às 14:34 | comentar | favorito
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Léxico: «Utopianos/utopiano»

Pensemos nós também

 

      Há autopianos, e estão nos dicionários (ainda recentemente vi uma reportagem na televisão sobre um autopiano, da Steinway & Sons, creio), e Utopianos, os habitantes da Utopia. Os lexicógrafos anglo-saxónicos pensaram nisso, e, assim, Utopian é também «an inhabitant of Utopia».

 

[Texto 10 575]

Helder Guégués às 12:24 | comentar | favorito
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Léxico: «subxerife»

Perdido nos bilingues

 

      Em 1510, Thomas More (1478-1535), que já fora membro do Parlamento, foi nomeado subxerife de Londres. E mais não digo.

 

 

[Texto 10 574]

Helder Guégués às 10:44 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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11
Jan 19

Léxico: «helitransporte»

Vá, mais um passinho

 

      A Inspecção-Geral das Actividades em Saúde (IGAS) instaurou um inquérito disciplinar ao médico afastado do INEM que recusou o helitransporte de um doente. Também o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nos recusa o helitransporte, mas agora vai processar esta informação e satisfazer o pedido.

 

[Texto 10 573]

Helder Guégués às 08:27 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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