22
Jan 19

Léxico: «desertificação/sub-húmido»

Faltam palavras

 

      A definição de desertificação difere entre o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e a Infopédia. No primeiro, está assim: «GEOGRAFIA processo de degradação do solo que transforma áreas de terreno fértil em zonas áridas ou semiáridas, com perda total ou parcial da fauna e da flora, resultante de intervenção humana e/ou de factores naturais (seca, desflorestação, agricultura intensiva, etc.)». No segundo, assim: «O conceito de desertificação pode ser definido, de acordo com a “Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação”, como a degradação da terra nas zonas áridas, semiáridas e sub-húmidas, resultante de fatores diversos, tais como as variações climáticas e as atividades humanas.» Para que servem ali as aspas? E o conceito de sub-húmido, lembraram-se acaso dele, dicionarizaram o vocábulo? Não.

 

[Texto 10 637]

Helder Guégués às 23:48 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «pescada-do-chile»

Não está mal

 

      Desta vez, comi, não uma sopa de barbo e de boga, mas de pescada-do-chile (Merluccius australis). Há várias espécies de pescada no mundo, todas do género Merluccius e amplamente utilizadas na alimentação. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que acolhe algumas, não conhece esta. Foi, garantem aqueles grandes mentirosos, capturada empregando o método de anzóis e aparelhos de anzol nas águas frias do Chile. Tem carne branca e suculenta e a textura é suave, e até forma melhores lascas, mas a pescada-preta, a meu ver, é melhor.

 

[Texto 10 636]

Helder Guégués às 21:46 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «parada»

Sessenta e um anos depois

 

      Armado em São Tomé, Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora? Um de inúmeros exemplos que comprovam o que afirmo: «Na parada do quartel, procedeu-se à entrega de 54 medalhas de comportamento exemplar, de prata e cobre, aos bombeiros com 23 anos de serviço» (Revista Municipal de Lisboa, edições 76-79. Lisboa: C.M.L., Direcção dos Serviços Centrais, 1958, p. 36).

 

[Texto 10 635]

Helder Guégués às 21:28 | comentar | favorito

Bombistas e bombeiros

Não pratica atentados

 

      Ao fim da manhã, um leitor diz-me que acaba de ouvir na Praça da Alegria a porta-voz do grupo Bombos de Janeiro de Cima, uma aldeia do Fundão, dizer que era «bombista com muito orgulho». Nos dicionários, nada. Parem as rotativas!

      Fomos ver e rever o programa e, se encontrámos o orgulho, nem rasto do bombista. Por vezes, julgamos ter ouvido isto ou aquilo, mas nem sempre corresponde à realidade. Seja como for, é uma boa questão: então o tocador de bombo não tem nome? É que, em relação a muitos instrumentos — bateria, viola, rabecão, etc. —, e já vimos isso aqui, o nome do próprio instrumento serve para designar a pessoa que toca esse instrumento. Não foi o caso, mas não me surpreende que haja quem use o termo bombista ou até bombeiro para designar aquele que toca o instrumento. Aliás, forçosamente os próprios instrumentistas arranjaram uma forma fácil, económica, de se designarem. Só não os encontramos nos dicionários porque estes estão distraídos. Rodrigo de Sá Nogueira, sobre esta questão, escreveu com graça, há décadas, que o «tocador de bombo é que por conveniência de alta política ficou destitulado».

 

[Texto 10 634]

Helder Guégués às 21:17 | comentar | favorito
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Léxico: «bioimpressão»

Má impressão

 

      «Num comunicado do i3S [Instituto de Investigação e Inovação em Saúde] sobre o projecto, Meriem Lamghari indica que serão criadas duas matrizes. E explica: “Uma [matriz] é baseada num polímero que já foi testado na clínica veterinária, nomeadamente em animais de grande porte, para grandes defeitos de cartilagem do joelho; e a outra é gerada com a tecnologia de bio-impressão, composta por células de cartilagem humanas e à qual também iremos incorporar as nanopartículas inteligentes”» («Implantes inteligentes para cartilagem no joelho ganham 5,5 milhões de euros», Teresa Sofia Serafim, Público, 22.01.2019, p. 33).

      Não devia servir de desculpa a um jornalista, mas bioimpressão fora dos dicionários não ajuda mesmo nada. (E a professora de Inglês que ontem escreveu «rainning»? Só no Dumbtionary.)

 

[Texto 10 633]

Helder Guégués às 11:09 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «grande prematuro»

Será útil

 

      «Mais de metade das mortes infantis que ocorreram no ano passado foram na fase neonatal, até aos 28 dias de vida do recém-nascido, segundo dados divulgados ontem pela Direção-Geral da Saúde (DGS). [...] Dessas 194 mortes neonatais, 100 tinham sido bebés prematuros de gestações com menos de 28 semanas, que são considerados “grandes prematuros” e apresentam maior risco de mortalidade e de complicações associadas» («Mais de metade das mortes ocorreu na fase neonatal», Jornal da Madeira, 22.01.2019, p. 23).

      O dicionário da Porto Editora define bem neonatal (embora com um toque arcaizante: «relativo a recém-nascido até o 28.º dia de vida»), pelo que agora só falta acrescentar «grande prematuro» no verbete de prematuro. Serviço público.

 

[Texto 10 632]

Helder Guégués às 09:28 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «(fundo) abutre»

Já atacaram

 

      «Os fundos de investimento internacional (conhecidos como “abutres”) estão a tomar conta do mercado da habitação em Portugal» («Os “abutres” descobriram as casas portuguesas», José Milheiro, TSF, 22.01.2019, 6h53).

      É verdade, é assim que são conhecidos, tradução do inglês vulture fund. À semelhança da ave da rapina, esperam pacientemente até poderem deitar as garras, sobretudo em países frágeis como o nosso. Nos dicionários? Nada. E, contudo, já acolhem fauna da economia. No dicionário da Porto Editora, unicórnio, por exemplo: «ECONOMIA gíria designação de uma empresa startup avaliada em valor igual ou superior a mil milhões de dólares». (Grafa o anglicismo em itálico, se faz favor.)

 

[Texto 10 631]

Helder Guégués às 09:05 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Uma paelha para a Quinta do Bom Pastor

Mera ignorância

 

      «Julen e os pais encontravam-se a passear num monte de Totalán (Málaga), onde tinham encontrar-se [sic] com outros membros da família para uma “paella”» («Túnel pronto em Málaga. Começa a fase final do resgate de Julen», Rádio Renascença, 22.01.2019, 7h33).

      Ando a ver isto há vários dias, o que é irritante. Então os nossos jornalistas não sabem que para nós é «paelha»? Ia ser bonito começarmos agora a escrever na grafia castelhana todos os muitos e muitos termos que recebemos dos nossos vizinhos. Melhor ainda, tentem dizer em português tudo o que esses vocábulos expressam, numa espécie de retaliação: enquanto não nos devolverem Olivença, não queremos nada vosso.

 

[Texto 10 630]

Helder Guégués às 08:48 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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22
Jan 19

Como se escreve (por vezes) nos jornais

Obstinação

 

      De quando em quando, o Público vai contra as suas próprias regras — e isso é simplesmente fantástico quando as regras são erradas. Sobre Alexandria Ocasio-Cortez, fez ontem na primeira página a pergunta: «Porque é que os republicanos estão obcecados com esta congressista?» É certo que amanhã já se terão esquecido, mas, já se sabe, enquanto o pau vai e vem, folgam as costas. E que dizer da teimosia de continuarem a escrever cannabis, quando toda a gente escreve «canábis»? Incongruente. É como se se viesse a saber que o deputado do PAN andava por aí à noite a acirrar pastores-alemães contra gatos indefesos e desprevenidos.

 

[Texto 10 629]

Helder Guégués às 00:24 | comentar | favorito
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