13
Fev 19

Léxico: «honricas»

Se é nosso, é para esquecer

 

      «O município de Miranda do Douro ofereceu, esta quarta-feira, ao Papa Francisco uma capa de honras mirandesa. [...] Segundo o investigador António Rodrigues Mourinho, a capa de honras mirandesa tem origem na região espanhola de Leão e “remontará aos séculos IX ou X, tendo origem na ‘capa de chiba’ que, traduzido do espanhol para português, quer dizer ‘capa de cabra’”. [...] Há também quem defenda que a capa de honras mirandesa poderá ter surgido da capa pluvial de Arperjes, usada nos mosteiros das Terras de Leão (Espanha)» («Papa recebe capa de honras mirandesa. “Portugueses são muito fortes”», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 13.02.2019, 13h50).

      Olímpia Mairos costuma ser mais cuidadosa, mas aqui errou e muito. Escrito assim, o pobre leitor há-de pensar que se trata de alguma aldeia espanhola. Não, é capa de asperges, ou pluvial. É um paramento, uma capa, que os sacerdotes do rito romano e do síriaco usam para fazer a aspersão em certos rituais mais solenes. Está nos dicionários. Está no dicionário da Porto Editora. Como também lá podia estar capa de honras. Se disserem que não está dicionarizada porque é uma locução (também a outra é, mas finjamos por ora que nos esquecemos), arranja-se já a solução: a capa de honras mirandesa também é conhecida por honricas. Nos dicionários, nem rasto.

 

[Texto 10 785]

Helder Guégués às 20:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «laranja-sanguínea»

Queremos mais

 

      «Portugal tem 8,5 milhões de consumidores de rádio», titulou a Rádio Renascença de manhã. «Portugal tem 7 milhões de consumidores de rádio», titula a Rádio Renascença à tarde. É melhor não ler o que escreverão à noite. Esqueçamos isto.

      «Laranjas-sanguíneas: foi o que acabou espalhado pela plataforma da estação, esmagadas como ovos da Páscoa» (O Quinto Evangelho, Ian Caldwell. Tradução de Maria do Carmo Figueira. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2016, p. 130). Os dicionários acham que não precisamos de mais do que de laranjas-baía/laranjas-da-baía/laranjas-de-umbigo. Pois, e então as blood oranges, perdão, as laranjas-sanguíneas ou laranjas-sangue, onde estão?

 

[Texto 10 784]

Helder Guégués às 16:11 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «estrelista»

Andam na lua

 

      «Nove anos depois da extinção do histórico Clube de Futebol Estrela da Amadora, a Renascença revisitou o [Estádio] José Gomes. Refundado, o emblema da Reboleira é hoje o Clube Desportivo Estrela, cujo futebol sénior deu esta época o pontapé de saída. O passado está bem presente no dia a dia dos que fazem parte da nova narrativa. [...] Infelizmente para os estrelistas nada foi ficção: as dívidas, a queda dos campeonatos profissionais, a desclassificação, as rescisões, a insolvência e em 2010 a extinção. [...] Esta é a história e a “estória” de um até já, prometem os estrelistas. E que arrancou pelo terceiro escalão dos distritais de Lisboa. O Estrela ocupa um lugar a meio de uma tabela liderada pelo Belenenses» («Estrela que não apaga», Rui Viegas, Rádio Renascença, 13.02.2019, 11h30).

      Estrelistas dantes e estrelistas doravante — mas ainda não passou debaixo dos olhos de nenhum dicionarista.

 

[Texto 10 783]

Helder Guégués às 12:34 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «centrista»

Não digam que não

 

      «Esta é uma das propostas constantes no diploma dos centristas que cria o regime do cuidado familiar e que será apresentado, em conferência de impressa, pelo líder parlamentar, Nuno Magalhães, e pelos deputados Filipe Anacoreta Correia e Isabel Galriça Neto» («CDS apresenta projeto-lei sobre estatuto dos cuidadores informais», Rádio Renascença, 13.02.2019, 9h56).

      Está bem que os nossos dicionários definam centrista de forma genérica, numa das acepções, mas a todos falta esta acepção específica relativa ao CDS, o partido do Centro Democrático Social, fundado em 19 de Julho de 1974, agora com o apêndice PP, CDS-PP. (Agora imaginem se não se tivessem abandonado os pontos abreviativos.)

 

[Texto 10 782]

Helder Guégués às 10:44 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Tabela periódica

E depois?

 

      «São seis cenas encaixadas em dois actos para contar as peripécias de um grupo de residentes num bairro, dividido por blocos. A acção passa-se sobretudo em reuniões de condomínio onde se discutem vários temas, entre os quais estão, por exemplo, as questões de género. “Já reparou que, na língua portuguesa, há apenas dois elementos da tabela periódica que se conjugam no feminino? Prata e platina” [diz Manuel João Monte, professor de Química da Faculdade de Ciência da Universidade do Porto]» («A tabela periódica em dois actos», Andrea Cunha Freitas, Público, 12.02.2019, p. 32).

      E depois, querem impor quotas aos nomes femininos dos elementos da tabela periódica? Não falem em voz alta, que as esquerdas encostadas ainda ouvem e vamos ter problemas.

 

[Texto 10 781]

Helder Guégués às 09:02 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «paleopatologia»

Vai tratar-te

 

      «A maior parte dos males que levam à morte não deixam quaisquer marcas nos ossos, nos casos em que sobrevivem tecidos moles, a paleopatologia (o estudo de doenças antigas) pode revelar muita coisa» (Arqueologia — Uma Breve Introdução, Paul Bahn. Tradução de Alexandra Abranches. Lisboa: Gradiva, 1997, p. 55).

      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, a paleopatologia é o «estudo das doenças do homem e de outros animais na pré-história, através do exame dos seus ossos e restos tecidulares». (E as maiúsculas em Pré-História, pá?) Sabemos que o elemento paleo- exprime a ideia de antigo — mas quão antigo? E se o estudo incidir não sobre a Pré-História, mas sobre a História, a Idade Antiga, por exemplo, já não estamos perante um estudo paleopatológico? Agora vejo que nem sequer registas Idade Antiga, nem paleopatológico, nem... Vai tratar-te.

 

[Texto 10 780]

Helder Guégués às 08:49 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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13
Fev 19

Léxico: «estrona»

Temos de emigrar?

 

      «Testes químicos feitos aos sedimentos encontrados no seu interior revelaram a presença de colesterol (o que aponta para tecido humano ou animal) e de hormonas esteróides, como a estrona» (Arqueologia — Uma Breve Introdução, Paul Bahn. Tradução de Alexandra Abranches. Lisboa: Gradiva, 1997, p. 54).

      Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, não sejas estroina, regista estrona, como fazem outros dicionários. Creio que está em todos os dicionários e vocabulários brasileiros.

 

[Texto 10 779]

Helder Guégués às 08:34 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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