18
Fev 19

Léxico: «festa branca»

Parece coisa inocente...

 

     No elevador, duas mulheres jovens, uma portuguesa e outra brasileira, iam a falar numa certa «festa branca». Hum... Há clientes para tudo, e o cliente tem sempre razão: a pudicícia dos nossos lexicógrafos é que tem impedido a chegada de festa branca aos dicionários. «Em cada encontro nunca faltava a “festa branca”, que era uma espécie de festa dentro da própria festa. Cedendo a vários pedidos, Alberto disponibilizava uma certa quantidade de cocaína para que um grupo restrito dos seus convivas pudesse dar largas às suas apetências» (Estranha Forma de Vida, Carlos Ademar. Alfragide: Oficina do Livro, 2007, p. 340).

 

[Texto 10 819]

Helder Guégués às 17:17 | comentar | favorito
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Léxico: «neurotípico»

É típico

 

       «Rita Nolasco fez da sua história de vida um cavalo de batalha para provar que as pessoas com Síndrome de Asperger podem ter tão felizes e tão saudáveis como as pessoas neurotípicas. Pode acompanhar os passos do movimento “Claramente Autista” aqui» («“O autismo não está na cara.” Mitos e verdade sobre a Síndrome de Asperger», Sara Beatriz Monteiro, TSF, 18.02-2019, 9h23).

      E eu, serei neurotípico ou terei Síndrome de Asperger? (Aqui há uns anos, num comentário a um texto no Assim Mesmo, um doido ou um psicólogo, nunca cheguei a saber, lançou-me à cara que eu sofria de Asperger, mas de uma maneira acintosa, como se fosse a última das ofensas. Talvez devesse pagar-lhe o diagnóstico, mas o certo é que o escorracei do blogue. Como outros, só poderá voltar a comentar na Primavera de 2022.) Bem, voltemos a neurotípico: nos dicionários, nada. Isto é que é uma vida!

 

[Texto 10 818]

Helder Guégués às 16:34 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «mulá/pasdarã»

Só mulas

 

      «O iraniano *** não conhece outro sistema de governo que não seja o dos mullahs, dos pasdaran e dos basijis.» Já não digo pasdarã — que, contudo, leio na edição portuguesa do Le Monde Diplomatique —, mas mulá não podia faltar no dicionário da Porto Editora. Não podia, mas falta. Tem mulas, mas não mulás. Até para a última palavra há uma melhor solução: «O iraniano *** não conhece outro sistema de governo que não seja o dos mulás, dos pasdarãs e dos elementos da milícia Basij.» Não temos já talibã, aiatola, etc.? Aportuguesar é o mal menor.

 

[Texto 10 817]

Helder Guégués às 15:17 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «dinossauro»

Ajudem o marciano

 

      Agora imaginem que um linguista ou sociolinguista marciano estava a ouvir na Antena 1, como eu, José Carlos Trindade (acho que era ele) chamar dinossauro da música a Tim, dos Xutos & Pontapés. Se o marciano se limitasse a consultar o dicionário da Porto Editora, o coitado ia pensar que o simpático Tim é um réptil fóssil. (Caro R. A., não ensine à sua neta que é preferível dinossáurio só porque Galopim de Carvalho, um dinossauro da paleontologia, afirma que é mais correcto: não é. Como híbrido que é, nunca podia ser mais correcto do que dinossauro. Híbridos bons, só carros.)

 

[Texto 10 816]

Helder Guégués às 10:48 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «macrossísmico»

Makroseismisch

 

      «Um sismo de magnitude 2,6 na escala de Richter foi sentido, esta segunda-feira, pelas 0h27, perto de Sesimbra, informou o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). [...] “De acordo com a informação disponível, este sismo foi sentido, devendo em breve ser emitido novo comunicado com informação instrumental e macrosísmica atualizada. Se a situação o justificar serão emitidos novos comunicados”, referiu ainda aquele organismo» («Sismo de magnitude 2,6 sentido perto de Sesimbra», TSF, 18.02.2019, 7h37).

      Nunca deixarei de me espantar que um jornalista dê erros deste calibre: não é elementar que, num caso como este, o s tem de dobrar? Isto não é conhecimento da escola primária? Não percebo. Nos dicionários, nem rasto de macrossísmico. Quer dizer, rasto até há num dicionário: makroseismisch...

 

[Texto 10 815]

Helder Guégués às 08:53 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «balada»

A papel químico

 

      «Crime ocorreu à porta de uma danceteria. A vítima tem cerca de 40 anos» («Mulher assassinada em Santarém. Detido ex-companheiro», Rádio Renascença, 18.02.2019, 6h08).

      Aos jornalistas da Lusa e da Rádio Renascença não ocorreu nenhuma designação mais portuguesa. Danceteria! Nos nossos dicionários, a definição foi quase copiada a papel químico. A propósito, sabiam que balada é, no Brasil, sinónimo de «discoteca»? Este é brasileirismo que os nossos dicionários não registam, e deviam, pois não temos esta acepção, pelo que é mais susceptível de gerar equívocos.

 

[Texto 10 814]

Helder Guégués às 08:35 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «banco de neve»

Como faltam outros

 

      «— Pode ter sido o banco de neve lá em cima a desabar e a bater na vertente da montanha. O que, por sua vez, desencadeou a avalanche» (O Leopardo, Jo Nesbø. Tradução de Ricardo Gonçalves. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2014).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolhe alguns bancos — há muitos outros, atenção —, mas não este.

 

[Texto 10 813]

Helder Guégués às 08:18 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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18
Fev 19

Léxico: «achocolatado»

Concordei

 

      Quando chegou a casa, ainda quis beber um achocolatado e comer um folhado de carne. Não me opus, mas fiz-lhe ver que no dicionário da Porto Editora achocolatado é só adjectivo. «Está errado», foi a resposta.

 

[Texto 10 812]

Helder Guégués às 08:17 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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