25
Fev 19

Léxico: «pisteologia»

O que nos falta

 

      Afortunados anglófonos, que têm, sem peso na consciência nem itálico no papel, todos os vocábulos de todas as línguas, basta quererem ou precisarem. O filósofo fala aqui em «Pistis and Gnosis». Gnose temos nós ­— mas a outra, do grego πίστις? Bem, aqui e ali, envergonhado, lá aparece um «pístis», e, num arrojo, até «pisteologia». Ora, em inglês, pisteology está nos dicionários gerais da língua, e pistis não está ausente de nenhum estudo bíblico. Nós somos uns encolhidos, não vamos longe.

 

[Texto 10 881]

Helder Guégués às 21:47 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «pampilho»

Nem vara nem planta

 

      Hoje não fui a Santarém, mas comi um delicioso pampilho. Na realidade, metade de um pampilho, que eu não quero ser um intelectual ventrudo (nem intelectual nem ventrudo, atenção). O dicionário da Porto Editora diz-nos que pampilho é a «vara comprida terminada em aguilhão para picar o gado; aguilhada; garrocha» (lá está, Santarém) e, na botânica, o «nome vulgar extensivo a várias plantas (em especial à também chamada malmequer), da família das Compostas, algumas das quais muito frequentes em Portugal». O nome do bolo é uma (doce) homenagem aos campinos do Ribatejo e existe desde a década de 1970. Portanto, aquele dicionário anda quarenta anos atrasado.

 

[Texto 10 880]

Helder Guégués às 20:10 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «vento solar»

Vamos ver

 

      «No site da NASA, pode ler-se que “a aurora foi causada por um buraco na coroa do Sol que expeliu partículas carregadas num vento solar que seguiu um campo magnético interplanetário em mudança para a magnetosfera da Terra”. Assim que as partículas entraram em contacto com a atmosfera da Terra, emitiram luz, tornando visível a aurora» («NASA supreendida por aurora boreal em forma de dragão», Sandra Xavier, TSF, 25.02.2019, 16h57, itálico meu).

      Vento solar. Algum dicionário quer dar para este peditório? Não querem ser tira-dúvidas isentos e rigorosos?

 

[Texto 10 879]

Helder Guégués às 17:26 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Tradução: «biofilm»

Má opção

 

      «Já em fevereiro de 2017, um outro estudo feito na Estação Espacial Internacional alcançou um resultado importante: duas espécies de algas verdes conseguiram sobreviver mais de dois anos no espaço. De mais de 500 amostras de espécies de algas provenientes de zonas extremas do globo, recolhidas por Thomas Leya, do Instituto de pesquisa alemão Fraunhofer-Gesellschaft, as duas sobreviventes foram a blue-green, uma cianobactéria, e a biofilme» («As algas podem ser a solução para criar condições de vida em Marte», Rui Frias, Diário de Notícias, 25.02.2019, 12h25).

      Só surpreendia se estivesse correcto. O itálico em «biofilme» é para quê? Se pretende ser o aportuguesamento do inglês biofilm, não precisa do itálico. Seja como for, é má opção. Biofilms, explica aqui a investigadora Brigitte Kempter-Regel, são «symbiotic communities of bacteria, fungi or algae that adhere to surfaces and grow there». Ora, tal tem sido referido na nossa língua pelo termo biopelícula — que, logo por acaso, não está nos nossos dicionários. Omeletes sem ovos e ciência sem palavras.

 

[Texto 10 878]

Helder Guégués às 17:18 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «soventre/sobessa»

Para a arca

 

      «A ARCA, Associação Recreativa e Cultural da Açoreira[,] é quem prepara o evento ao pormenor. O dia começa com uma matança do porco que depois será consumido num almoço convívio. “A ementa é sempre a mesma”, diz Gabriel Teixeira[,] o presidente da ARCA. “Migas de sarrabulho, batatas de soventre e feijoada”, Com muito vinho à mistura que é preciso preparar o estômago para o que há de vir» («Adegas abertas e vinho para todos. Nesta aldeia oferece-se vinho e a população triplica», Afonso de Sousa, TSF, 25.02.2019, 10h52).

      Sim, é o toucinho da barriga do porco, um regionalismo da Beira Baixa. Está no dicionário da Porto Editora, mas não como regionalismo. E, se está este, porque não está, formado da mesma maneira, sobessa, a parte inferior, relativamente a um lugar ou a um objecto, o lado de baixo? Dá-se a mesma fusão do b de sub, como no popular, que já ouvi muitas vezes, «soverter». Ora, aquele dicionário dá gasalho a este verbo, dando-o como mera variante de «subverter». Não pode ser. Não pode ser, vai enganar muitos falantes! Ah, e onde está sarolhento/sorolhento?

 

[Texto 10 877]

Helder Guégués às 14:31 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «macromaré»

Esquece agora o Carnaval

 

      «Uma cria de baleia [baleia-corcunda, Megaptera novaeangliae] foi encontrada morta em Soure, na ilha de Marajó, em plena floresta Amazónica. [...] No Facebook, os investigadores do Bicho D’Água, uma associação ambientalista ligada à Fundação Instituto para o Desenvolvimento da Amazónia, escrevem que este pode não ser o mistério que aparenta. “Devido às macromarés comuns na Costa Norte do Brasil, é totalmente compreensível que uma carcaça vá parar dentro do manguezal”, explicam» («Cria de baleia morta encontrada em plena floresta da Amazónia», Carolina Rico, TSF, 25.02.2019, 10h24).

      Esquece por agora o Carnaval, dicionário da Porto Editora: apanha esta. Ficam de fora apenas submaré e intermaré (já registas submareal e intermareal).

 

[Texto 10 876]

Helder Guégués às 11:09 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «trio eléctrico»

Porque é quase Carnaval

 

      «Depois de muitos ensaios em Lisboa, a artista [Luciana Abreu] de 33 anos de idade estreou-se no bloco carnavalesco do Ribeirão Preto, cantando em cima de um trio elétrico (camião grande com colunas)» («Luciana Abreu espalha sensualidade no Carnaval do Rio», Flash!, 24.02.2019, 12h13).

      Já que a palavra do dia é gigantone, tomem mais um brasileirismo que todos os anos lemos e ouvimos.

 

[Texto 10 875]

Helder Guégués às 08:35 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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25
Fev 19

Léxico: «pranchamento»

É pena pensarem assim

 

      «As primeiras evidências recolhidas sugeriam a “existência de falhas na configuração no sistema de controlo de pranchamento da aeronave, consistentes com eventuais perturbações desse sistema durante ações de manutenção”» («Avião que assustou Lisboa continua em Beja sem segurança para voar», Nuno Guedes, TSF, 25.02.2019, 7h00).

      Já o vimos aqui antes. Tem duas acepções, uma no campo da aeronáutica e a outra na área do socorro de vítimas. Encontramo-lo, por exemplo, num manual do INEM sobre técnicas de extracção e imobilização de vítimas de trauma. Alguém decidiu, caprichosamente, que não deve ir para os dicionários.

 

[Texto 10 874]

Helder Guégués às 08:19 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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