02
Mar 19

Léxico: «pára-comando»

Nem eu sabia

 

      «O grosso da coluna eram dois batalhões — o 4.º e o 7.º — de pára-comandos zairenses, as tropas da FNLA e uma unidade de voluntários portugueses e angolanos, cerca de uma centena, que o major Alves Cardoso trouxera da Rodésia» (Jogos Africanos, Jaime Nogueira Pinto. Lisboa: Esfera dos Livros, 2008, p. 61).

      Em francês, diz-se para-commando — mas isso só agora o sei, porque nunca antes tinha visto a palavra. Em pleno século XXI, para estar em consonância com os tempos, tinha de mudar de nome: agora é capacité de réaction immédiate. Nenhum dicionário regista a palavra, por isso também estou desculpado.

 

[Texto 10 914]

Helder Guégués às 10:50 | comentar | favorito
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Anel de Fogo do Pacífico

O que é igual, etc.

 

      «Um sismo de magnitude 7.1 na escala de Richter atingiu, esta sexta-feira, o Peru e foi sentido em vários países da América Latina. [...] O sismo foi o mais forte dos 46 que, esta manhã, atingiram a zona conhecida como Anel de Fogo do Pacífico e abalaram vários países – entre os quais, Brasil, Bolívia e Chile» («Sismo de 7.1 faz tremer o Peru», Rádio Renascença, 1.03.2019, 9h13).

      O ponto em vez da vírgula é já um clássico da ignorância, mas não venho aqui por isso. Nada de estatísticas infundadas, mas diria que quase sempre se lê assim com maiúsculas, Anel de Fogo do Pacífico. A meu ver, muito bem. Acontece que na Infopédia optaram pelas minúsculas, anel de fogo do Pacífico, no que não estão, diga-se, completamente mal acompanhados. Ora, vamos encontrar na mesmíssima Infopédia uma expressão para um conceito em tudo exactamente igual, e que grafam com maiúsculas — Grande Barreira de Coral. Conseguem explicar? E reconhecer que está mal?

 

[Texto 10 913] 

Helder Guégués às 10:46 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Léxico: «extremista»

Extremismo doce

 

      «O Departamento de Estado norte-americano considera que Hamza é um líder em ascensão no grupo extremista e procura informações que possam identificá-lo ou localizá-lo em qualquer país» («EUA oferecem 880 mil euros pelo filho de Bin Laden», 1.03.2019, 7h30).

      Já viram a coisa chocha que é a definição de extremista nos nossos dicionários? Pois é, inspirem-se nesta: «A person who holds extreme political or religious views, especially one who advocates illegal, violent, or other extreme action. ‘right-wing extremists’ [as modifier] ‘extremist groups’» (in English Oxford Living Dictionaries). Nos nossos, não se fala nem em política nem em religião, assim tudo um pouco no ar.

 

[Texto 10 912]

Helder Guégués às 10:45 | comentar | favorito

Honduras

Deve estar a brincar

 

      «Dos migrantes que estão a caminho dos Estados Unidos, cerca de 85% são das Honduras. Com 9,1 milhões de pessoas, a pobreza atinge 60% da população e 23% das crianças são subnutridas, atingido os 40% em alguns períodos, segundo dados das Nações Unidas» («À procura de uma vida melhor. Quem são os migrantes da caravana a caminho dos EUA?», Joana Bourgard, Rádio Renascença, 19.11.2018, 11h00).

      Algum erro ali? (Bem, é verdade que tive de escolher bem o trecho, e mesmo assim...) Luiz Antonio Sacconi vê logo um, enorme: «Honduras é nome masculino, como bem se pode ver no Grande Dicionário Sacconi e em tantas outras obras enciclopédias sérias. Os jornalistas brasileiros, no entanto, quando da crise que abalou esse país da América Central, usaram mais de uma vez tal nome como feminino. Um exemplo disso ocorreu com o jornal O Globo, que trouxe este título: Honduras só não terá eleição se for “invadida”, diz Micheletti. Essa frase foi criada na redação, já que o ex-presidente hondurenho teria dito de outra forma, correta: “Haverá eleições presidenciais em novembro, a menos que nos invadam”. O jornalista, no entanto, ao tentar reproduzir a declaração, acabou se enlambuzando todo» (Não Erre mais!, Luiz Antonio Sacconi. São Paulo: Matrix Editora, 2018, pp. 36-37).

      Não é coincidência: o Sacconi do livro é o mesmíssimo Sacconi do dicionário. Portanto, não há mais autores sérios. E que inaudita trapalhada é aquela de misturar a discussão do género com o número, singular ou plural? Livra! Confirmado: na página 1107 daquele dicionário (e persigno-me aqui), Honduras é masculino singular, «Honduras foi governado da Guatemala». Três Xanaxes, já. Por todos, Rebelo Gonçalves na página 538 do seu Vocabulário da Língua Portuguesa: «Honduras, top. f. pl. Loc. top. f. pl.: Honduras Britânicas.» Ia lamentar o Brasil, mas, vendo bem, também nós temos cá gente igualmente abstrusa e que vende livros. Uns a condenarem tudo, outros a desculparem tudo. Deixá-los.

 

[Texto 10 911]

Helder Guégués às 10:42 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «bioengenheiro»

E este?!

 

      «A cápsula, que tem um minúsculo microscópio, pode ser engolida facilmente, mesmo por crianças, devido ao seu reduzido tamanho e permite examinar e detetar lesões no intestino e noutros órgãos do aparelho digestivo sem o desconforto de uma endoscopia ou colonoscopia sem anestesia, de acordo com o patologista e bioengenheiro Guillermo Tearney, do hospital norte-americano de Massachusetts, onde criou o dispositivo, que, ainda assim, tem agarrado um cabo flexível que fornece luz à cápsula e que se liga a um monitor onde são reproduzidas as imagens visualizadas pelo médico» («Vacinas anticancro e hambúrgueres vegan com sabor a carne. As invenções que vão mudar o mundo», TSF, 28.02.2019, 11h50).

      Para o dicionário da Porto Editora, há bioengenharia, mas nunca lhe ocorreu que houvesse bioengenheiros, estava fora de toda a previsão.

 

[Texto 10 910]

Helder Guégués às 10:39 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «arcôntico»

Até este?

 

      «Assim, é natural que Husserl conclua que a “filosofia deva exercer a sua função na humanidade europeia tornando-a como que arcôntica de toda a humanidade”» (Dez Críticas, Carlos Leone. Lisboa: Edições Colibri, 1999, p. 28).

      Oh, valham-me os 365 céus de Basilides! Então até arcôntico falta nos nossos dicionários?!

 

[Texto 10 909]

Helder Guégués às 10:38 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «naasseno/barbelognóstico»

Tudo gente morta e esquecida

 

      Ah, coitados dos naassenos, que deixaram de ter lugar neste mundo, ou pelo menos no mundo dos nossos dicionários. E os barbelognósticos?

 

[Texto 10 908]

Helder Guégués às 10:37 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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02
Mar 19

Gémeos verdadeiros e gémeos falsos

Basta quererem

 

      «Um rapaz e uma rapariga, hoje com quatro anos, em Brisbane, Austrália, são o segundo caso mundial conhecido de gémeos semi-idênticos, segundo a BBC. O fenómeno é raro; estes embriões geralmente não sobrevivem. [...] Difere assim dos outros casos de gémeos: os “verdadeiros” (ou monozigóticos), que resultam da divisão do óvulo fecundado (por um único espermatozoide) em dois óvulos distintos; os “falsos” (ou fraternos), que resultam da fecundação de dois óvulos por dois espermatozoides, separadamente mas na mesma altura» («Gémeos semi-idênticos. Tão raros que só se conhecem dois casos no mundo», Diário de Notícias, 27.02.2019, 23h30).

      Até neste breve excerto de um artigo se pode encontrar matéria para melhorar as definições dos dicionários. Basta quererem.

 

[Texto 10 907]

Helder Guégués às 10:35 | comentar | ver comentários (2) | favorito