20
Mar 19

Léxico: «retancha»

Os onze mil

 

      E cá cheguei aos 11 000 textinhos. Não custou quase nada. Agora até aos 100 000 é um saltinho. Ora vejamos o que temos aqui: «Entre 70 a 80% das árvores plantadas para reflorestar as áreas ardidas nas matas nacionais do litoral morreram, anunciou esta sexta-feira o presidente do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). Na Mata Nacional de Leiria, onde foi apresentado o Plano de Investimentos Matas Públicas do Centro e Litoral, que será aplicado até 2022, Rogério Rodrigues revelou a necessidade “de fazer retanchas [substituições] em cerca de 70 a 80% das áreas”» («Cerca de 80% das árvores plantadas em zonas de incêndio morreram», Rádio Renascença, 8.03.2019, 14h25).

      Querem que seja eu a concluir? Seja: isto não encaixa no que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora define no verbete retancha. Alguém está enganado ou desmemoriado.

 

[Texto 11 000]

Helder Guégués às 19:42 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «caimba/sub-barbela»

O génio do mal

 

      «— É — respondeu, — o cavalo que melhor galopa; tem cinco pés de altura e a perna pequena; possui uma cauda de três pés e meio de comprido; as caimbas do freio são de ouro de vinte e três quilates; as ferraduras de prata» (A Princesa da Babilónia, Voltaire. Tradução de José Carlos Marinho. Lisboa: Editorial Inquérito, 1946, p. 148).

      Então não é assim? O freio compõe-se de bocal, argolas, caimbas ou cambas, barbela e sub-barbela. Ora, os nossos dicionários só admitem a variante camba. Pior: nenhum acolhe sub-barbela. Parece que um génio do mal — e inimigo da variedade — andou a expungir afanosamente as palavras dos dicionários.

 

[Texto 10 999]

Helder Guégués às 19:34 | comentar | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «astrolábio»

Podia ser mais completa

 

      «Um astrolábio recuperado no local do naufrágio de uma nau [Esmeralda] da armada portuguesa participante na segunda viagem de Vasco da Gama à Índia, em 1502-1503, foi hoje classificado pelo livro “Guinness World Records” como o mais velho do mundo. [...] Como o mais antigo astrolábio autenticado, preenche uma lacuna cronológica no desenvolvimento destes instrumentos icónicos e pensa-se ter sido um instrumento de transição entre o astrolábio planisférico clássico e o astrolábio de roda aberta, que começou a ser usado algum tempo antes de 1517» («Astrolábio português de nau de Vasco da Gama é o mais antigo do mundo», TSF, 19.03.2019, 22h05).

      É tão pobrezinha a definição de astrolábio nos nossos dicionários, fica-se com uma pálida ideia. No artigo citado, diz-se que, no caso do astrolábio da nau Esmeralda, estamos perante um fino disco de 175 milímetros de diâmetro e apenas 344 gramas (o equivalente a dois iPhones X) — esta é uma informação relevante.

 

[Texto 10 998]

Helder Guégués às 19:31 | comentar | favorito

Léxico: «melaço»

E se se esforçassem?

 

      «Ela voltou a ocupar-se com o café, tomando-o a ferver, remexendo com os beiços para aspirar as gotas de melaço que cristalizavam no fundo da chávena» (Embaixada a Calígula, Agustina Bessa-Luís. Porto: Guimarães, 2009, p. 68).

      Já viram a definição de melaço nos nossos dicionários? Mesmo com o sentido figurado, muito poucochinho.

 

[Texto 10 997]

Helder Guégués às 19:28 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «sapatos de vela»

Coisa de marinheiros (e betos?)

 

      «Adoro velas e ténis», dizia o rapaz para a senhora de meia-idade (mãe? amante?). Velas? «Decidiu-se por uma camisa de cor escura, pois seria aquela que potenciaria de modo mais favorável a tez esbranquiçada. Mudou de camisa e depois de calças. Usaria uma calça de cor idêntica, tipo safari e uns sapatos de vela, sem meias» (Amor Plástico, Mário Borges. Porto: Edições Caixotim, 2002, p. 11).

      Em inglês, como sabem, é deck-shoes/deck shoes: «Deck shoes are flat casual shoes made of canvas or leather» (in Collins). Ajuda a perceber de que vela se trata. Nos nossos dicionários, nem vestígio. Fastígio da incúria.

 

[Texto 10 996]

Helder Guégués às 19:24 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «né»

Como perdeste estoutro

 

      «Estás na fossa, né? Confessa.» Dicionário da Porto Editora, bebeste da água do Lete, não foi? O advérbio né, de uso coloquial, é ou não é a contracção da locução «não é»?

 

[Texto 10 995]

Helder Guégués às 19:22 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «eufemista»

Não perdeste nada, Porto Editora?

 

      «Mau grado esta atitude repressiva consentida pela autoridade colonial levada a cabo por colonos, a guerra rebentaria em meados de Março sob a égide da UPA, com sangrentas ofensivas contra plantações do Norte daquela província ultramarina, como de forma hipócrita e eufemista o Governo se passara a referir àquela e às outras colónias» (Soltam-se as Amarras, Fernando Chiotte. Lisboa: Prefácio, 2003, p. 149).

 

[Texto 10 994]

Helder Guégués às 19:19 | comentar | ver comentários (3) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «cola»

Diz-me que é mentira

 

      «Depois de terminarmos ela bebeu uma cola com rum sem gelo e eu vodka puro gelado. Deixei-a em casa de táxi e quando cheguei à minha telefonei-lhe a agradecer» (Saudades de Nova Iorque, Pedro Paixão. Rio de Janeiro: 7Letras, 2002, p. 92).

      Então não é assim que falamos, dicionário da Porto Editora? Porque não registas tu esta acepção de cola, Santo Deus? É que cola não é necessariamente Coca-Cola ou Pepsi-Cola, como sabes — é qualquer refrigerante que tem cola, o fruto da coleira, a árvore intertropical, como um dos ingredientes.

 

[Texto 10 993]

Helder Guégués às 19:16 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,
20
Mar 19

Com que então inglesa...

Uma simples preposição

 

      «Durante a digressão de estado em estado, Lindbergh perdeu-se duas vezes devido ao mau tempo e, em cada uma delas, decorreram várias horas antes de o contacto via rádio ser restabelecido e ele poder comunicar ao país que estava tudo bem» (A Conspiração contra a América, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues. Revisão de F. Baptista Coelho, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2005, p. 45). Distracção? Convicção: «Nascera na Carolina do Sul em 1879, filho de um imigrante, negociante de tecidos, e sempre que se dirigia ao seu público judaico, quer do púlpito quer via rádio, o seu cortês sotaque sulista, aliado às suas cadências grandíloquas — e às cadências do seu próprio nome polissilábico —, deixava uma impressão de digna profundidade» (idem, ibidem, pp. 46-47).

      Passaram catorze anos, e agora decerto o revisor já sabe que via é uma preposição portuguesa como qualquer outra — e não grafamos nenhuma em itálico, não é assim?

 

[Texto 10 992]

Helder Guégués às 15:27 | comentar | favorito
Etiquetas: ,