26
Mar 19

Léxico: «ansiedade»

Doença e preconceito

 

      «Um quarto da população portuguesa sofre ou virá a sofrer de ansiedade, razão pela qual a doença já é considerada a epidemia do século XXI. Chegar ao diagnóstico é um caminho longo e todos os dias são uma batalha contra o preconceito» («A ansiedade domina a vida e controla a mente», Marta Martins Silva, «Domingo»/Correio da Manhã, 10.03.2019, p. 29).

      Preconceito... Estou a ver: o mesmo que leva os lexicógrafos a omitirem que se trata de uma doença. É um «estado de perturbação psicológica», dizem eles; não é nada sério como uma anemia, por exemplo, essa sim uma doença.

 

[Texto 11 042]

Helder Guégués às 21:05 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «melgueira»

Só para alguns

 

      «Que hei-de eu fazer? Embucho o que sei; tomo à minha conta espreitar a ama... — a ama!, que a leve o Diabo, que quem me paga é o fidalgo — espreito, e se pilho a melgueira em termos, esbarronda-se o negócio, e meu amo dá cabo deste ladrão que o veio desonrar a sua casa» (Amor de Salvação, Camilo Castelo Branco. Lisboa: Publicações Europa-América, 1981, p. 110).

      Também esta acepção de melgueira — sinónimo de maroteira, patifaria — foi esquecida pelo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Camilo vai deixando de ser acessível.

 

[Texto 11 041]

Helder Guégués às 20:04 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «cabeça de xara»

Do Alentejo

 

      «Não é fácil destacar uma criação de Dona Octávia, mas se tiver mesmo de ser vamos hoje sugerir a cabeça de xara (amanhã seria um bucho recheado, um pedaço de cachaço ou outra coisa)» («A arte de Dona Octávia», Edgardo Pacheco, «Domingo»/Correio da Manhã, 24.03.2019, p. 18).

      Tanto quanto sei, não o encontramos em nenhum dicionário. Já se sabe que, no que toca às origens seja do que for, as controvérsias estão sempre prontas a saltar. Uns dizem que os soldados de Napoleão levaram este prato do Alentejo, herança árabe, e lhe deram o nome de tête d’achard; outros acham que foi ao contrário, que os soldados de Napoleão trouxeram este prato para cá. Seja como for, o pior não é isso, mas sim estar ausente dos nossos dicionários. Nem sequer para nós somos bons.

 

[Texto 11 040]

Helder Guégués às 19:13 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «artes marciais»

Desleixo & Cia.

 

      «O lutador irlandês Conor McGregor vai retirar-se das artes marciais. O anúncio fei feito pelo próprio, num pequeno comunicado nas redes sociais: “Rápido anúncio. Decidi retirar-me do desporto conhecido como ‘Mixed Martial Art’. Desejo tudo de bom aos meus antigos companheiros, e junto-me a todos os meus ex-colegas na reforma”, pode ler-se» («Conor McGregor retira-se dos combates aos 30 anos de idade», Rádio Renascença, 26.03.2019, 9h08).

      Porque terá o jornalista pretendido manter a designação do desporto em inglês, quando é vulgar a expressão artes marciais mistas, ainda que a sigla, MMA, seja a inglesa? Estranhamente, os nossos dicionários nem sequer «artes marciais» acolhem. (Pior: nem uma abreviatura como Cia. acolhem!) No Merriam-Webster, por exemplo, está assim: «any of several arts of combat and self-defense (such as karate and judo) that are widely practiced as sport».

 

 

[Texto 11 039]

Helder Guégués às 12:04 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «directiva»

Não chega o genérico

 

      «O atual regime de mudança da hora é regulado por uma diretiva (lei comunitária) de 2000, que prevê que todos os anos os relógios sejam, respetivamente, adiantados e atrasados uma hora no último domingo de março e no último domingo de outubro, marcando o início e o fim da hora de verão» («Parlamento Europeu vota mudança de hora para 2021», Rádio Renascença, 26.03.2019, 7h55).

      É muito estranho que os dicionários não tenham uma palavra para este diploma do direito comunitário.

 

[Texto 11 038]

Helder Guégués às 10:53 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «gola/boquete/bracel-da-rocha»

Já temos o nosso boquete

 

      «Resultado de uma erupção submarina, tipo surtesiano [sic], que originou uma cratera de forma quase circular, com aproximadamente 150 m de diâmetro em comunicação com o mar através de uma pequena passagem designada por boquete, este ilhéu é actualmente constituído por duas porções distintas: o Ilhéu Pequenino, situado na costa Nordeste e o Ilhéu Grande, a maior estrutura emergente. O Ilhéu Grande [a pouco menos de um quilómetro de Vila Franca do Campo, antiga capital da ilha de São Miguel] é cortado por [seis] fendas – as golas, estruturas que na sua maioria, estabelecem comunicação profunda com a bacia e o mar exterior, sendo apenas visíveis as suas extremidades. Outra componente distintiva deste conjunto geológico de rara beleza é o Farilhão, um rochedo afastado 20 m do Ilhéu Grande com 32,5 m de altura, coroado por bracel-da-rocha (Festuca petrae)» («Ilhéu de Vila Franca do Campo», Sandra Toste. SIARAM, Açores).

      Ponham aqui os olhos e vejam o que estamos a perder, as palavras que nos roubaram. E agora já não serão apenas os Brasileiros que se deliciam com o boquete.

 

[Texto 11 037]

Helder Guégués às 10:49 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «párvoo/párvoa»

Parvoamente

 

      «Esporeado pelo ciúme e pela mais párvoa das vaidades, subiu a um combro para atrair a atenção, fez pontaria, disparou e... rompeu o ventre de um cão perdigueiro de dous narizes, o melhor da matilha; e, por desgraça sua e vilipêndio do caçador, o cão assassinado era o que mais longe estava do porco-bravo!» (O Santo da Montanha, Camilo Castelo Branco, in «Obras de Camilo Castelo Branco», vol. 60. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1972, p. 152).

      Estão dispensados, se não se quiserem maçar muito, de registar a forma masculina, párvoo, de uso antigo, mas a feminina, párvoa, está bem representada na literatura novecentista, é amplamente empregada por Camilo. Não podes, dicionário da Porto Editora, fingir simplesmente que não existe. Isso é um mau serviço, é agir parvoamente.

 

[Texto 11 036]

Helder Guégués às 10:47 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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26
Mar 19

Descobertas

Minhas e dos outros

 

      Os jornalistas estão todos empolgados com a nova descoberta, o novo brinquedo: a expressão aeródromo de trânsito. Agora é usar à tripa forra (sim, não vejo a lógica de usar aqui hífen) e agradecerem ao ciclone Idai. Fica então estabelecido que Figo Maduro é um aeródromo de trânsito. Descoberta minha, hoje mesmo, é a do passe deslizante, um passe que, ao que percebi, tem início em qualquer dia do mês e vale por trinta dias.

 

[Texto 11 035]

Helder Guégués às 10:45 | comentar | favorito
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