30
Mar 19

Léxico: «micro-híbrido»

Nem nisto acertam

 

      «Descubra a tecnologia por detrás deste Golf micro-híbrido que se destaca pela eficiência» («Golf micro-híbrido é tão eficiente como um diesel», Motor 24, 20.03.2018). Há um ano sabiam escrever a palavra. Nas últimas horas, porém, publicaram um artigo que envergonha um miúdo da escola primária. Como não se trata meramente de uma palavra, mas de um conceito, devia ir para os dicionários. Costuma distinguir-se três níveis diferentes de hibridação, consoante a utilização do motor eléctrico, e, assim, fala-se em micro-híbrido, híbrido médio e em híbrido completo.

 

[Texto 11 076]

Helder Guégués às 15:27 | comentar | favorito
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Léxico: «imunoalergologia»

Quem diria...

 

       «O “pai da imunoalergologia” em Portugal nasceu a 21 de março de 1933 e era filho de Adelino da Palma-Carlos, professor de Direito e primeiro-ministro do I Governo Provisório de Portugal, e de Elina Guimarães, jurista, escritora e ativista dos direitos das mulheres» («Morreu Antero da Palma-Carlos, o “pai da imunoalergologia” em Portugal», TSF, 30.03.2019, 12h08).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é que parece não conhecer pai nem mãe, e por isso não regista imunoalergologia. Tem os ingredientes — imuno- e alergologia —, mas não consegue juntá-los.

 

[Texto 11 075]

Helder Guégués às 14:57 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «couve-rábano»

Desde 1485

 

      «À semelhança de outros vegetais crucíferos, a couve-rábano é rica em fibra, vitamina C e potássio, pelo que nos estimula o sistema imunitário e aumenta a energia» (Sopas & Descanso, Elina Fuhrman. Tradução de Carla de Melo. Alfragide: Lua de Papel, 2016, p. 149).

      A couve-rábano (Brassica oleracea L. var. gongylodes) foi descrita pela primeira vez na Europa em 1485, mas ainda não chegou ao dicionário da Porto Editora. E, contudo, aparece num bilingue: kohlrabi.

 

[Texto 11 074]

Helder Guégués às 08:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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30
Mar 19

Léxico: «termopólio»

Novidades e confusões

 

      «Pode parecer, mas não é exagero dizer que foi encontrado um balcão de fast-food em Pompeia, a cidade do Império Romano que desapareceu no ano 79, depois da erupção do vulcão Vesúvio. Para sermos rigorosos, o que as escavações arqueológicas descobriram no setor chamado Região V foi um termopólio. E o que era isto? Era um lugar — normalmente uma pequena sala, com uma mesa ou balcão — onde se vendiam alimentos já confecionados e prontos para o consumo» («Fast-food em Pompeia? Descoberto balcão de venda de comida com mais de dois mil anos», Ana Kotowicz, Observador, 28.03.2019, 12h41).

      Encontro-o em diversas obras, vocabulários, dicionários, pelo que merece acolhimento no dicionário da Porto Editora. Já não digo o mesmo de «dólio», que nunca antes vira sem ser em latim, dolium, e quase sempre traduzida por «barril»: «A comida, ainda quente, era armazenada em dólios, que eram grandes jarras de cerâmica.» Resta agradecer a Ana Kotowicz este artigo e pagar-lhe com uma advertência: não confunda as preposições sob/sobre, como fez neste texto: «A descoberta foi anunciada por Massimo Osanna, diretor do Parque Arqueológico de Pompeia, e que desde o ano passado tem dado nova vida à vila preservada sobre as cinzas do Vesúvio.» Que preservação seria essa, em cima das cinzas do Vesúvio? Em cima das cinzas seria para assar.

 

[Texto 11 073]

Helder Guégués às 07:40 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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29
Mar 19

Léxico: «rumbeiro»

Só tristeza

 

      E rumbeiro, aquele que dança, toca e/ou canta rumbas, será mesmo brasileirismo? Rumbeiro, que até era sinónimo, aí pelos anos 20 do século XX, de festivo, alegre, não marca presença nos dicionários deste lado do Atlântico. Nós, povo fúnebre, só conhecemos o tumbeiro, o que conduz a tumba, o corpoferário (que não registas, Porto Editora), o pallbearer, para os que prezam acima de tudo a língua inglesa.

 

 

[Texto 11 072]

Helder Guégués às 16:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «Mobulídeos»

Agora em português

 

      «Os dados recolhidos até agora — dois mil mergulhos entre 2012 e 2017, cerca de cinco mil fotos e 62 horas de vídeo captado entre 1990 e 2018 — permitiram, por exemplo, criar a primeira base de dados do mundo de foto-identificação [sic] de mobulideos nos Açores e de jamanta-chilena (Mobula tarapacana) do mundo. [...] As jamantas pertencem à família Mobulidae, são “completamente inofensivas” e possuem “os maiores cérebros de todos os peixes”.» («Todas as jamantas e milhares de mergulhos, dos Açores para o mundo», Mariana Durães, Público, 29.03.2019, pp. 34-35).

      A jornalista arriscou-se seriamente a acertar: o melhor — porque é português, porque não precisa de itálico — é Mobulídeos.

 

[Texto 11 071]

Helder Guégués às 14:59 | comentar | favorito
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Léxico: «(ja)manta-oceânica»

Nome comum, erro comum

 

      Temos aqui mais jamantas: «Na base de dados do Manta Catalog Azores, constam 143 indivíduos de jamanta-chilena e 29 de manta-oceânica (Mobula birostris) — ambas as espécies com ocorrência entre Junho e Outubro, registada em anos diferentes, o que reforça a crença de que os montes submarinos constituem, de facto, “habitats importantes”. Devem, então, ser preservados» («Todas as jamantas e milhares de mergulhos, dos Açores para o mundo», Mariana Durães, Público, 29.03.2019, p. 34).

      Ora, dá-se o caso de, no verbete jamanta do dicionário da Porto Editora, esta Manta birostris aparecer — com a falha de sempre, a falta do nome comum. Em especial na tradução, os nomes comuns da botânica e da fauna são imprescindíveis, pelo que estarem dicionarizados contribui em muito para evitar mais erros.

 

[Texto 11 070]

Helder Guégués às 14:56 | comentar | favorito
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29
Mar 19

Léxico: «fotoidentificação»

Analogia, analogia, analogia

 

      «“A foto-identificação cria a oportunidade de envolver o público nos projectos e beneficia os investigadores, aumentando a quantidade e extensão geográfica dos dados disponíveis”, afirma Ana Filipa Sobral» («Todas as jamantas e milhares de mergulhos, dos Açores para o mundo», Mariana Durães, Público, 29.03.2019, p. 34).

      Se se escreve fotointerpretação, por exemplo, é claríssimo que se tem de escrever fotoidentificação. Alguém diga isto a Mariana Durães, que não teve tempo ou cabeça para o saber.

 

[Texto 11 069]

Helder Guégués às 14:54 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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