30
Abr 19

Léxico: «afelial / perielial»

Enquanto é tempo

 

      «E aqui, removidos o movimento afelial de Júpiter e o movimento perielial de Saturno, o movimento afelial de Mercúrio é praticamente admitido além do movimento perielial. O resto mantém-se» (Aos Ombros de Gigantes — As Grandes Obras da Física e da Astronomia, coligido e comentado por Stephen Hawking. Tradução de Heloísa Beatriz Santos Rocha e Lis Lemos Parreiras Horta Moriconi. Coordenação científica de Carlos Fiolhais. Alfragide: Texto Editores, 2017, 5.ª ed., p. 691).

    Porto Editora, regista-os — talvez dessa forma não volte a ter aqui tradutores (4.ª classe pouco sólida?) que acham que se escreve «perihelial».

 

[Texto 11 284]

Helder Guégués às 16:31 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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O nome do presidente ucraniano

Como lhes apetece

 

      «Volodimir Zelenskii, o Presidente eleito ucraniano, respondeu à oferta provocatória de Vladimir Putin de dar passaporte russo a todos os ucranianos, dizendo que o documento serviria apenas para que esses cidadãos “fossem presos”. Além disso, ofereceu também passaporte ucraniano aos russos que o desejem» («Putin provocou, Zelenskii respondeu no mesmo tom», Público, 29.04.2019, p. 28).

      Como não há normas, cada qual faz como sabe e lhe apraz. Uma liberdade que ninguém pediu. Observador e Diário de Notícias: Volodymyr Zelensky; Sábado, Jornal de Notícias e Jornal de Negócios: Volodymyr Zelenskiy; Público: Volodimir Zelenskii; Correio da Manhã: Vladimir Zelenski. Vir um linguista sugerir, ensinar, propor, isso é que não, andam demasiado ocupados com elucubrações estéreis.

 

[Texto 11 283]

Helder Guégués às 12:49 | comentar | favorito (1)
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30
Abr 19

Léxico: «zuca»

Deplorável

 

      «Em causa está a exposição nos corredores da faculdade de cartazes com frases de teor xenófobo. Colado a uma caixa de madeira com pedras e colocada no chão, lia-se num cartaz: “Grátis se for para atirar a um zuca (que passou à frente no mestrado)”. Na caixa, identificada por outro cartaz como Loja de Souvenirs, estavam pedras, disse à Lusa Flora Almeida, uma das estudantes brasileiras de mestrado que primeiro denunciou a situação nas redes sociais e que confrontou o grupo Tertúlia com a situação» («Brasileiros protestam contra cartaz. Universidade de Lisboa abre processo disciplinar por caso de xenofobia», Observador, 29.04.2019, 19h43).

      Raramente os dicionários vão à frente da realidade (já tem acontecido, e até por culpa minha), e assim é que está bem. Contudo, não convém que se espere tanto, ou a língua que se fala a cada momento nunca estará inteiramente reflectida neles. Neste caso, pelo menos o dicionário da Porto Editora não acolhe ainda esta redução de brasuca. E, como se vê, zuca anda por aí. Uma palavra em relação ao caso da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa: deplorável.

 

[Texto 11 282]

Helder Guégués às 09:14 | comentar | ver comentários (1) | favorito (1)
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29
Abr 19

Léxico: «ceitil»

Quem tem farelos?

 

      «Até ao seu inesperado aparecimento, apenas se tinha como hipótese que o rei D. Manuel, natural de Beja, e onde foi duque, tinha ali mandado cunhar ceitis (moedas de cobre)» («Fórum romano transformou-se num campo de papoilas», Carlos Dias, Público, 29.04.2019, p. 21). O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, e outros dicionários, valha a verdade, despacham a coisa de uma penada: «moeda portuguesa que valia um sexto do real». E a época? O reinado? O metal? Até a etimologia (e nós) merecia outro tratamento. Como se sabe (ou não...), o nome árabe ou antigo de Ceuta era Cebta, e daí teria derivado «cebtil» e daqui «ceitil». Já agora, diga-se também que de menor valor era a mealha, moeda que valia meio ceitil. Infelizmente, nos dicionários nada aparece relacionado. Se até muitas das variantes de vocábulos aparecem sem ligação! Na peça Quem Tem Farelos?, de Gil Vicente, o escudeiro canta: «Oh pesar nunca de Deos/ vós tendes-me em dous ceitis.» Como quem diz: «Tendes-me em pouca conta.»

 

[Texto 11 281]

Helder Guégués às 23:49 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «racializar»

Isso pode mudar

 

      «Em vez de racializar o Censo, seria preferível criar um observatório público do racismo e da xenofobia. Entretanto, muito pode ser feito com o que já se sabe. Por exemplo, não precisamos de estatísticas raciais para enfrentar os problemas da segregação racial em termos territoriais, por definição de grande visibilidade» («É possível combater o racismo com a classificação racial dos cidadãos?», Rui Pena Pires, sociólogo, secretário nacional do PS, Público, 29.04.2019, p. 19).

      Com que então o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não sabe o que significa racializar...

 

[Texto 11 280]

Helder Guégués às 23:43 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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29
Abr 19

Léxico: «simógrafo/ sismómetro»

Não tão brilhante assim

 

      Na edição de hoje do Portugal em Directo, na Antena 1, ouvi a investigadora Ana Ferreira, do University College de Londres, que dizia que é necessário instalar mais sismómetros no fundo oceânico, à volta do arquipélago dos Açores. Sim, sismómetros. Se usou esta palavra, e não «sismógrafo», não terá sido por acaso, pelo que vale a pena pesquisar em que consiste cada um deles. Para a jornalista que a entrevistou, parece ser tudo igual, pois usou ambas as palavras. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora dá-lhe razão, pois em sismómetro remete simplesmente para sismógrafo. Está tudo dito? Não. Num texto de apoio sobre o sismómetro na Infopédia, lê-se isto: «Um sismómetro consiste no sensor básico dos instrumentos sismográficos de que o sismógrafo e o sismoscópio fazem parte.» Ou seja, talvez não seja assim uma ideia tão brilhante remeter sem mais do primeiro para o segundo vocábulo.

 

[Texto 11 279]

Helder Guégués às 23:26 | comentar | ver comentários (2) | favorito