15
Abr 19

Demais a mais/de mais a mais/mais a mais

Revejam tudo

 

      «Num trabalho desta dimensão, mais a mais em edifícios que são património classificado, Marlene [Maia, da empresa portuguesa Dalmática, especializada em conservação e restauro] garante que as regras de segurança são muitas e apertadas, razão pela qual explica que o incêndio desta tarde em Notre Dame “não é comum”» («Notre Dame em chamas. “Existem perdas irrecuperáveis”, garante especialista em conservação», Rádio Renascença, 15.04.2019, 20h52).

      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, isto não existe. Seguem a lição de quem, neste caso? De José Neves Henriques, no Ciberdúvidas, para quem só existia de mais a mais. Longe dos engravatados (que também é substantivo, Porto Editora), ouve-se, sempre ouvi, mais a mais e de mais a mais. Ouvia, pelo que me seria indiferente escrever «demais a mais» ou «de mais a mais». Ora bem, é aqui que entra Rebelo Gonçalves, que, no seu Vocabulário da Língua Portuguesa — que a Porto Editora costuma seguir em quase tudo e com resultados menos maus —, regista a locução adverbial de modo demais a mais. Apenas esta. Estamos a esquecer-nos de alguma coisa? Sim; no meu caso, deliberadamente, porque o quis deixar para o fim. Onde regista a Porto Editora a locução «de mais a mais»? No verbete mais, com o significado de «para além do que foi dito anteriormente». E, se admitisse a locução «demais a mais», onde devia estar? Para mim, não apenas no verbete demais, mas, como sinónimo, junto da locução «de mais a mais». A Porto Editora, de facto, reconhece que existe a locução «demais a mais», mas só a regista no verbete demais. Faz mal. Não é somente isso, todavia, que está mal: afirma que significa «ainda por cima». Ou seja, não reconhece que sejam sinónimas. Mau, então ainda é mais grave. Para rematar: compulsem publicações como a Revista de Portugal e a Ocidente, e encontrarão estudiosos da língua que ensinam que existem as três locuções: de mais a mais, demais a mais, mais a mais. E corrijam o que é preciso corrigir — sem pruridos nem preconceitos.

 

[Texto 11 192]

Helder Guégués às 23:42 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «astrossismologia/asterossismologia»

Mais luz! Mais ciência!

 

      «[Tiago Campante, investigador no Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço] Dedica-se ao estudo da física das estrelas e aos planetas em torno delas, com uma técnica denominada astrosismologia — “a sismologia dos astros, por exemplo no sol existem ondas sonoras repetidas no seu interior que não ouvimos mas que fazem a estrela vibrar. A sua luminosidade é alterada e essas variações do brilho dão-nos informações acerca da composição das estrelas”» («A aventura portuguesa no espaço», Fernanda Cachão, «Domingo»/Correio da Manhã, 27.01.2019, pp. 31-32).

      É astrossismologia ou asterossismologia (queiram desculpar a jornalista — faltou à aula na escola primária em que se ensina que a consoante dobra, assim como sobre Sol com maiúscula), que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não faz a mais pálida ideia do que se trata. Agora vejam lá não se esqueçam dos dois adjectivos: astrossismológico/asterossismológico. Ah, sim, também existe a heliossismologia, mas não nos dicionários.

 

[Texto 11 191]

Helder Guégués às 23:11 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «lançador»

Aguardamos, ansiosos

 

      «Até agora lançavam-se uma centena de satélites por ano, nos próximos dez anos vão ser mais de dez mil. Mas não sabemos como é que eles vão ser lançados, se em lançadores grandes, acoplados, ou por pequenos lançadores e isso poderá afetar a viabilidade de um porto, especialmente um novo”, diz [Luís Braga Campos, coordenador do curso de Engenharia Aeroespacial no Instituto Superior Técnico]» («A aventura portuguesa no espaço», Fernanda Cachão, «Domingo»/Correio da Manhã, 27.01.2019, p. 31).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não tem um lançador destes. Os estudantes de Engenharia Aeroespacial aguardam, ansiosos.

 

[Texto 11 190]

Helder Guégués às 23:01 | comentar | favorito
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Ortografia: «espectrógrafo»

Já são letras a menos

 

      «[Alexandre Cabral, investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço] Esteve na equipa do instituto que em 2010 começou a desenvolver o espetrógrafo EXPRESSO para a última agência» («A aventura portuguesa no espaço», Fernanda Cachão, «Domingo»/Correio da Manhã, 27.01.2019, p. 29). Está certo, pois claro, só que os que não seguem o Acordo Ortográfico de 1990 não vão gostar. Ainda assim, eu tenho é pena dos Gregos, coitados, que se vão ver — sim, gregos também, mas a isso eles já estão acostumados — em palpos de aranha quando consultarem o Dicionário de Grego-Português da Porto Editora e virem que a φασματογράφος, ου fazem corresponder... «espectógrafo». Erro que vão encontrar confirmado num texto de apoio sobre Francis Aston na Infopédia.

 

[Texto 11 189]

Helder Guégués às 22:46 | comentar | favorito

Léxico: «teleporto»

Há quem saiba

 

      «A Edisoft é uma das empresas portuguesas em jogo. Emprega uma centena de pessoas e é responsável pelo Teleporto em Santa Maria» («A aventura portuguesa no espaço», Fernanda Cachão, «Domingo»/Correio da Manhã, 27.01.2019, p. 30).

 

[Texto 11 188]

Helder Guégués às 22:44 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Algumas incongruências

Eu não percebo

 

      Vejo muito isto no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: baniano «BOTÂNICA (Ficus benghalensis) árvore de grande porte, da família das Moráceas, é nativa da Índia e da África oriental e destaca-se pelas raízes adventícias que se formam a partir dos ramos e se transformam em novos troncos depois de se fincarem no solo; árvore-de-gralha, figueira-de-bengala»; jilaba «peça de vestuário comprida, com capuz e mangas longas, tradicionalmente utilizada pelos muçulmanos do Norte de África; jelaba»; oriental «designativo da região biogeográfica que compreende o subcontinente indiano, o sul da China, Indochina, Filipinas e a metade ocidental da Indonésia». Podia multiplicar os exemplos por cinquenta. Porquê esta diferença? Está aqui a escapar-me alguma coisa?

 

[Texto 11 187]

Helder Guégués às 22:02 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «gozitano»

Ah, são os habitantes ou naturais de

 

      «Neste país-ponte, também se falou (e fala) em construir uma ponte literal entre Malta e Gozo, contudo a maioria dos gozitanos não quer perder a sua insularidade no país-insular. Afinal, quando estão no estrangeiro até podem dizer que são malteses, mas em Malta (país e ilha) são sempre gozitanos, como nos diz a nossa guia, Audrey Bartolo, gozitana, claro, vizinha, aliás, do monumento mais importante de Gozo, o Templo Ggantija» («A janela azul de Malta», Andreia Marques Pereira, «Fugas»/Público, 3.11.2018, p. 5).

 

[Texto 11 186]

Helder Guégués às 21:44 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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15
Abr 19

Léxico: «audimetria»

Isso já é querer saber muito

 

      «Como a audimetria só mede o que se vê em televisores, não dá a realidade actual da nova televisão, os conteúdos vistos pela Internet ou em computadores ou em telemóveis» («Tendências», Eduardo Cintra Torres, «Sexta»/Correio da Manhã, 5.04-11.04.2019, p. 66).

      Só o audímetro, o aparelho, encontramos no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora; querer saber o que é a audimetria já é querer saber demasiado. Uma ampola de Absorvit Smart ao pequeno-almoço.

 

[Texto 11 185]

Helder Guégués às 17:33 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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