18
Abr 19

Léxico: «tetradimensional»

Um dia chegarás aqui

 

      «E um sistema determinista como a teoria de campo de Einstein poderia até ser descrito como uma versão tetradimensional do universo tridimensional e imutável de Parménides» (Conjeturas e Refutações, Karl Popper. Tradução de Benedita Bettencourt. Lisboa: Edições 70, 2019, p. 178).

      Um dia chegarás aqui, Porto Editora. Convenho, já lá estás, mas preferes chamar-lhe quadridimensional. Não te podes dar por satisfeita, e nós tão-pouco.

 

[Texto 11 220]

Helder Guégués às 16:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «clubite»

Já é velha

 

      «O papa não teme a clubite característica dos estádios; apresenta-se tal qual é, frágil e doente no fim, mas habitado por um espírito que os jovens parecem perceber» (João Paulo II: A Biografia, Andrea Riccardi. Tradução de António Maia da Rocha. Prior Velho: Paulinas Editora, 2016, p. 347).

    Não é nada, meus amigos: já estava na excelente Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. No dicionário da Porto Editora, nem vestígios. Isto não pode ser por malícia do Diabo, mas por incúria de alguém.

 

[Texto 11 219]

Helder Guégués às 16:25 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «maxwelliano»

Aguardamos

 

      Tens maxwell (só faltava que não), a unidade de medida de fluxo magnético do antigo sistema de unidades CGS, mas ignoras maxwelliano, adjectivo: relativo ou pertencente a James C. Maxwell, físico escocês (1831-1879). E agora? Podemos contar com ele para a Páscoa?

 

[Texto 11 218]

Helder Guégués às 15:52 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «bola/folar»

Avisem-no

 

      Está lá, é da Antena 1? Por favor, digam aí a Rui Gomes, do Vou ali e já Venho, que hoje andou (sempre de fones nos ouvidos?) pelo planalto mirandês e até tentou falar mirandês, que não se diz /bóla/, mas /bôla/. Tratava-se da deliciosa bola doce mirandesa, um dos ex-líbris da região. Faz lembrar, até porque também é mais consumida na Páscoa, os folares de que já aqui falámos. Ou seja, e até se concluiu isso mesmo nos comentários, podemos estar perante doces/bolos iguais em quase tudo e serem chamados folares ou bolas. Pode haver teorias e críticas, mas a realidade é esta.

 

[Texto 11 217]

Helder Guégués às 15:16 | comentar | favorito
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Léxico: «Jampal»

Um regresso aguardado

 

      «Enquanto procurava um terreno para instalar um centro de estágio, a mulher de André Manz, Margarida Carmo, ginasta olímpica portuguesa em Los Angeles, acabou por apaixonar-se por Cheleiros, onde construíram uma casa. Num terreno perto, que compraram entretanto, descobriram uma casta branca, jampal, há muito abandonada na zona e no país. Com a primeira colheita de 2007, o vinho jampal monocasta, levado para Inglaterra por Julia Harding, recebeu a distinção de um dos 50 melhores vinhos portugueses» («Cheleiros e Jampal regressam ao mapa», Augusto Freitas de Sousa, TSF, 18.04.2019, 13h54).

      Regresse Cheleiros ao mapa; Jampal (com três ou quatro variantes) tem é de regressar aos dicionários. Regressar, sim, já lá esteve. Das obras especializadas sobre vinho nunca esteve ausente.

 

[Texto 11 216]

Helder Guégués às 14:49 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «hidro-hélio/nébula»

O ião ignoto

 

      Foi encontrada a primeira molécula do Universo. O hidro-hélio (HeH+) surgiu a uma temperatura de 3700 graus Celsius, milhares de anos após o big-bang. Esta primeira molécula de sempre foi agora detectada na nébula NGC 7027, da constelação de Cisne, a três mil anos-luz. Temos hidro-hélio nos nossos dicionários? Não. Temos nébula nesta acepção nos nossos dicionários? Não. Queremos ficar para trás e não dicionarizar nada disto? Não.

 

[Texto 11 215]

Helder Guégués às 12:28 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «missiologia/missiólogo»

Missionswissenschaft

 

      Decorreram no ano passado várias iniciativas para assinalar o centenário da morte de D. António Barroso (1854-1918), bispo do Porto. Foi, segundo se diz, um dos melhores e maiores missiólogos portugueses do século XIX, pela forma como estudou e expôs os problemas básicos da evangelização de África. Missionário em três continentes, em 2017 o Papa Francisco publicou o decreto em que se lhe reconhecem virtudes heróicas, ou seja, é agora venerável, o primeiro passo para a canonização. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, nem missiologia nem missiólogo. Não é por mal.

 

[Texto 11 214]

Helder Guégués às 11:48 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «dinomania»

Temos, mas é outra coisa

 

      Não é dinomania, gosto muito mais de cães e de gatos... Esperem, deixem lá entortar (a Porto Editora não deixa obliquar) as letras: dinomania, «a strong interest in or enthusiasm for dinosaurs». É que também nós temos uma dinomania, mas sem nenhuma relação com dinossauros. A nossa é a vontade irresistível de dançar. Se não a encontramos nos nossos dicionários, no VOLP da Academia Brasileira de Letras é infalível: dinomania e dinomaníaco.

 

[Texto 11 213]

Helder Guégués às 10:39 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «apatossauro»

Grande ausência

 

      Se fossem só os Arévacos. Onde está o apatossauro («lagarto falso ou enganador»), o enorme dinossauro que pesava mais do que cinco elefantes adultos? No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não está. (Por ser demasiado grande?) Acolhe brontossauro, sim, mas, entre os cientistas, o nome usado é «apatossauro». Falta um verbete.

 

[Texto 11 212]

Helder Guégués às 10:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «Arévacos/ Arevacos/ Aravacos/ Arvacos»

Em descompensação

 

      Se fosse só a galinha cerejada... Então, quando se fala em povos ibéricos pré-romanos, não é mencionado um povo aguerrido como poucos — os Arévacos, Arevacos, Aravacos ou Arvacos? Estão nos nossos dicionários actuais? Não os vejo lá. Consultamos o VOLP da Academia Brasileira de Letras, e encontramo-los. Nós, ninguém me descapacita disto, temos problemas graves, e não andamos a tratar-nos.

 

[Texto 11 211]

Helder Guégués às 10:07 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «cerejar»

Falhas clamorosas

 

      Não é isso que vai acontecer, mas gostava de ter para o almoço galinha cerejada como se faz no barrocal algarvio. É nome que está até na boca de turistas ingleses, alemães, franceses, em livros de culinária — mas não nos nossos dicionários! Caramba, qual a dificuldade? Já registam acerejar, que é aloirar bem, corar, dar ou tomar cor de cereja. Se até se diz sarjar. Somos assim tão ricos que possamos desprezar centenas e mesmo milhares de vocábulos?

 

[Texto 11 210]

Helder Guégués às 09:49 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «EMIR»

É emergência agora

 

      É verdade, a abreviatura Cia. foi entretanto registada no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Eu já dizia mal do caso. Eis que ontem o trágico acidente com um autocarro de turismo na Madeira nos trouxe imagens de veículos de socorro com a sigla EMIR — de equipa médica de intervenção rápida, serviço que, existindo há vinte anos na Madeira, se desconhece aqui no continente, onde temos a VMER. Escusado será dizer que os nossos queridos dicionários se esqueceram totalmente de registar EMIR.

 

[Texto 11 209]

Helder Guégués às 08:56 | comentar | favorito
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«Descristianizar/laicizar»

É o que se diz, mas...

 

      «A catedral sobreviveria, ainda que descristianizada, e as paredes ganhavam buracos e as janelas perdiam vidros. Depois da reconstrução-chave de 1844, já de novo consagrada à Santa Sé, em 1977 haveria uma surpresa: 21 das cabeças de pedra decapitadas foram encontradas numa parede de uma velha mansão parisiense, juntamente com outras cabeças de estátuas de Notre-Dame que faziam parte do entulho» («Momentos em que a catedral sobreviveu à História», Joana Amaral Cardoso, Público, 17.04.2019, p. 7).

      Pois não, não foi inventado pela jornalista, fala-se muitas vezes em «templos descristianizados». Será a melhor palavra para expressar o que se pretende? Trata-se de edifícios que, deixando de ser igrejas, não passaram a ser mesquitas, por exemplo (o que já aconteceu). Não: são edifícios que, tendo sido construídos para acolherem o culto de uma religião, deixaram, em determinada altura, de ter esse fim. Assim, não seria mais adequado usar-se o verbo laicizar, por exemplo? (Entretanto, porque não há mal que não traga um bem, as vendas do vítor-huguesco Notre-Dame de Paris, o romance histórico, dispararam.)

 

[Texto 11 208]

Helder Guégués às 08:41 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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18
Abr 19

Léxico: «orgânico/inorgânico»

Meia hora

 

      «O país foi apanhado de surpresa porque a surpresa faz parte da natureza estratégica destes movimentos quase inorgânicos. Como faz parte da sua natureza violar as imposições de serviços mínimos ou de subalternizar os processos negociais que impliquem as normais cedências de parte a parte» («O sindicalismo em tempos de cólera», Manuel Carvalho, Público, 17.04.2019, p. 10).

      Os lexicógrafos ainda não quiseram perder meia hora a redigir uma definição capaz desta acepção de inorgânico/orgânico. (Também tenho de confessar que nunca como agora, com Manuel Carvalho, apreciei tanto os editoriais do Público. Serão seguramente antológicos alguns deles.)

 

[Texto 11 207]

Helder Guégués às 08:34 | comentar | favorito