27
Abr 19

Léxico: «poliatómico»

Nada mais

 

      Tenho aqui Born a falar de mehratomiger Molekeln, «moléculas poliatómicas». Como é que a Porto Editora pode dizer que poliatómico é o «designativo de toda a espécie química com mais de um átomo ou de um núcleo atómico»? Espécie química?... Nos English Oxford Living Dictionaries: «Consisting of many atoms.» Nada mais.

 

[Texto 11 267]

Helder Guégués às 20:11 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Aportuguesamento: «rolote»

Mesmo muito mal

 

      Aportuguesar termos estrangeiros está muito bem — depois de tentar encontrar um termo português que exprima a mesma ideia, é a melhor opção. Tem, contudo, de ser feita criteriosamente, ser olhada de todos os ângulos, ponderada. Dito isto, façamos um exercício breve e (espero) conclusivo com os senhores lexicógrafos. Ora digam-nos lá olhos nos olhos: se o francês rouler deu rolar, roulette deu roleta, como é que — ó incoerência! — roulotte pode dar «rulote»?! Provavelmente ainda nenhum dos actuais lexicógrafos tinha nascido é já se propunha rolote como aportuguesamento de roulette. Num bilingue da Porto Editora, até vemos essa coisa abstrusa que é «roulote». Não se trata de fazer mea culpa, todos nos enganamos; trata-se de corrigir, que, se não tem efeito retroactivo, evitará que muitos falantes escrevam doravante de forma errada. Devem ter orgulho em corrigir, não em manterem-se firmes no erro (como sucede relativamente à locução latina ad nutum, que, mesmo depois de eu chamar duas vezes a atenção, continuam a manter no dicionário de italiano).

 

[Texto 11 266]

Helder Guégués às 19:43 | comentar | favorito

Léxico: «ómnibus»

Algo vai mal no reino

 

      «Aparecem os primeiros ómnibus de quinze lugares conduzindo os passageiros a Belém por um tostão, e a novidade causa revolta entre os alugadores de seges e os barqueiros da margem do Tejo» (Um Ano Trágico: Lisboa em 1836, Luís Varela Aldemira. Lisboa: Instituto para a Alta Cultura, 1936, p. 27).

      A Porto Editora acha que se deve dizer «ónibus», e, contudo, considera errada a grafia «onipotente». Em que ficamos? Na realidade, a única forma correcta é ómnibus. José Pedro Machado também regista ónibus, é certo, mas remete para ómnibus: «Var. de ómnibus, a forma mais usada.» Como é que agora, valha-me Deus!, simplesmente eliminaram dos dicionários a forma correcta? E será necessário relembrar o que escreveu Botelho do Amaral sobre esta questão? Algo vai mal no reino dos dicionários. De vez em quando, fico estarrecido com opções abstrusas.

 

[Texto 11 265]

Helder Guégués às 17:31 | comentar | favorito

Tradução: «to rub shoulders with»

Maus começos

 

      «Agora somos todos vizinhos. Existem mais telefones do que seres humanos e cerca de metade da humanidade tem acesso à internet. Nas nossas cidades, ombreamos com estranhos de todos os países, culturas e fés» (Liberdade de Expressão – Dez Princípios para Um Mundo Interligado, Timothy Garton Ash. Tradução de Jorge Pereirinha Pires e revisão de Pedro Ernesto Ferreira. Lisboa: Temas e Debates, 2017, p.13).

      Logo na terceira linha do livro, erro de tomo. Quem traduz do inglês tem obrigação de saber que to rub shoulders with se traduz por «conviver com». Claro que podiam suspeitar que ombrear significa, ainda que metaforicamente, o mesmo — mas não significa, nem servem aqui suspeitas, bastava pegar num dicionário. Se falhou o tradutor, não podia falhar o revisor. Vá, passaram dois anos, mas consultem agora um dicionário.

 

[Texto 11 264]

Helder Guégués às 15:31 | comentar | favorito
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Léxico: «hispano»

Que seja a última

 

      «Com a questão da Catalunha e a extrema-direita a ganhar votos, sobretudo na Andaluzia, estas Eleições Gerais em Espanha vão decidir o próximo Governo. Espanha é o principal parceiro económico de Portugal. Que impacto terão os resultados na nossa própria vida política? Este sábado, no da Capa à Contracapa, as eleições espanholas vão estar em análise. São convidados Lívia Franco, especialista em questões geopolíticas, Professora e Investigadora no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica e o jornalista Enrique Pinto-Coelho que, sendo espanho-luso, tem essa característica única de poder votar em Espanha e em Portugal. Atualmente, é correspondente em Portugal do canal espanhol La Sexta e colabora com vários outros meios como repórter e tradutor» («Eleições em Espanha. Que impacto para Portugal?», Rádio Renascença, 27.04.2019).

      Há coisas que só veremos uma vez na vida. Com sorte, algumas nunca as chegaremos a ver. A esta podíamos ter sido poupados. Desde quando é que a forma reduzida de espanhol é «espanho»? Será que Enrique Pinto-Coelho sabe que dizem que ele é — deixem-me cruzar os dedos — «espanho-luso»? Hispano, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, nem sequer é identificado como redução vocabular; remete-se para hispânico e já está, o falante que se desenrasque. Tanta sucintez (palavra que aquele dicionário ignora) por vezes desemboca em ignorância.

 

 

[Texto 11 263]

Helder Guégués às 11:09 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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27
Abr 19

Léxico: «diesel/ gasóleo»

Uma questão por resolver

 

      «Entre os 28 Estados-Membros, o preço médio de referência da gasolina ronda os 1,454 euros por litro, enquanto o ‘diesel’ vale 1,361 euros por litro. Já na zona euro, um litro de gasolina custa 1,497 euros e um litro de gasóleo vale 1,356 euros» («Combustíveis em alta. Gasolina sobe até dois cêntimos e meio na segunda-feira», Rádio Renascença, 26.04.2019, 11h26).

      Só a Porto Editora continua a achar que não tem de fazer remissões mútuas nos verbetes diesel e gasóleo. Nunca, até hoje, ouvi uma pessoa mais idosa ou menos instruída usar o termo «diesel». Nem sequer as que não utilizam o termo «gasóleo» recorrem ao termo «diesel». Não: dizem qualquer coisa semelhante a «gasoil».

 

[Texto 11 262]

Helder Guégués às 10:48 | comentar | ver comentários (1) | favorito