02
Mai 19

Léxico: «coligação negativa»

Cada vez mais inevitável

 

      «Professores: “Coligação negativa” aprova contagem integral do tempo de serviço congelado» (Rita Tavares, Observador, 2.05.2019).

 

[Texto 11 299]

Helder Guégués às 22:43 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «bifobia»

Um campo inesgotável

 

      «Já não vai haver duas passadeiras com as cores do arco-íris na Avenida Almirante Reis, em Lisboa. Quem o garante é Margarida Martins, presidente da Junta de Arroios, que assinala também que as indicações rodoviárias têm de estar marcadas a uma cor única: branco. A proposta, anteriormente aprovada pela Junta, foi apresentada por dois representantes do CDS-PP na Assembleia de Freguesia de Arroios, de forma a assinalar o Dia Internacional de Luta contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia» («Passadeiras, só brancas. Arco-íris LGBTI na estrada “é ilegal”», Catarina Maldonado Vasconcelos, TSF, 2.05.2019, 18h42).

      O CDS de Arroios é mesmo prà frentex, caramba. Mas esqueceu-se de falar com o CDS do Caldas. Bem observado: o dicionário da Porto Editora não regista prà frentex nem — mas aqui tem alguma desculpa, parece que todos os dias surgem palavras novas neste campo — bifobia.

 

[Texto 11 298]

Helder Guégués às 20:53 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «par»

Termos do golfe

 

      «Segundo classificado à entrada para a quarta e última volta, Tiger Woods marcou 70 pancadas, duas abaixo do par, e terminou com um agregado de 275 (13 abaixo), menos duas do que o trio composto pelos compatriotas Dustin Johnson, Xander Schauffel e Brooks Koepka» («Tiger Woods mais alta condecoração civil dos Estados Unidos», Rádio Renascença, 2.05.2019, 18h53).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não está muito a par da terminologia do golfe.

 

[Texto 11 297]

Helder Guégués às 20:12 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Sal agro-alimentar / sal marinho»

Ficamos sem perceber

 

      «O presidente da Associação Comercial de Aveiro, onde se integram os produtores de sal marinho da zona de Aveiro, destaca as diferenças entre o sal agroalimentar, “um sal que por si já não é benéfico”, que é “higienizado e que perde uma série de referências”, e o sal marinho, “puro”» («O sal é sempre prejudicial? Associação de Aveiro diz que não», Rádio Renascença, 2.05.2019, 15h49).

      Nunca tinha visto esta distinção — sal agro-alimentar/sal marinho. Uma questão semântica, decerto, pois o habitual é sal marinho/sal refinado. A ignorância sobre o sal é tão grande, que Jorge Silva, o presidente da Associação Comercial de Aveiro, diz que há pessoas que vão comprar sal marinho aos produtores de Aveiro para o usarem nas piscinas e usam sal refinado, comprado nos supermercados, para confeccionar os alimentos. Os dicionários também não ajudam muito, valha a verdade. O da Porto Editora, por exemplo, acolhe as locuções sal das cozinhas/comum/marinho. No processo industrial a que é submetido, o sal refinado é quase inteiramente destituído de microelementos ou oligoelementos, ficando o pior — o cloreto de sódio. Naquela miscelânea do dicionário, todas as subtilezas se perdem. Para terminar: também seria útil que se dicionarizasse a locução marinha de sal.

 

[Texto 11 296]

Helder Guégués às 19:55 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Asteróide Apófis

Sendo assim, preferimos só 99942

 

      Basta um excerto do artigo (o suficiente para ficarmos afectados): «Chama-se 99942 Apophis — a designação grega para um deus egípcio, conhecido como “o Lorde do Caos”, que tenta engolir o sol» («Um asteroide gigante vai passar pela Terra e está a unir cientistas de todo o mundo», Rita Carvalho Pereira, TSF, 2.05.2019, 12h55).

      Que sentido faz, Rita Carvalho Pereira, manter o nome do asteróide em inglês? E que dizer da ressonância cinéfila do «Lorde do Caos»? Reescrevendo: «Chama-se 99942 Apófis. Este era o nome grego de um deus egípcio, conhecido como “Senhor do Caos”, que tenta engolir o Sol.» Só é pena o Dicionário de Nomes Próprios da Porto Editora não registar teónimos, em cuja grafia se erra mais do que em Vanessas e Sandras.

 

[Texto 11 295]

Helder Guégués às 13:50 | comentar | favorito
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Escala de Saffir-Simpson

Ou quando se tem mais informação

 

       «O Departamento Meteorológico da Índia indicou, em comunicado, que “é muito provável” que o Fani chegue a terra na sexta-feira, perto da cidade de Puri, em Odisha, com rajadas de vento que podem chegar aos 200 quilómetros por hora. [...] Esta quarta-feira, o Fani já gerava ventos de 195 km/hora, o que o coloca na categoria 3 da escala de Saffir-Simpson (uma escala de 1 a 5), capaz de destruir edifícios e causar grandes inundações» («Ciclone Fani chega à Índia em 24 horas. Mais de 800 mil pessoas retiradas de casa», TSF, 2.05.2019, 9h41, itálicos meus).

      Está na Infopédia, mas não recomendo a definição: «Escala de classificação de furacões, ou tempestades tropicais, de ventos ininterruptos de mais de 118 km/h (65 nós ou mais). O seu nome foi herdado dos cientistas Herbert Saffir e Robert Simpson, que a desenvolveram nos anos 60 e 70 do século XX.» Imagino que muita coisa se possa medir nos furacões e tempestades. Esta escala mede — o que não é claro na definição da Porto Editora — a intensidade dos ventos dos furacões, classificados por categorias, de 1 a 5. Quanto ao nome ter sido herdado... enfim. A escala foi concebida em 1969 pelo engenheiro civil Herbert Saffir e pelo meteorologista Robert Simpson (então director do Centro Nacional de Furacões, nos EUA). O que a escala dá, na verdade, é a estimativa do potencial risco de danos e inundações esperados durante a passagem de um furacão. A definição fala em «ventos ininterruptos»; na verdade, a categoria é estimada por meio da velocidade do vento mantida durante um minuto. A Infopédia apresenta a seguir uma tabela, mas tem um aspecto pouco cuidado, pouco profissional, mais parece ter sido copiada de algures e transplantada para ali.

 

[Texto 11 294]

Helder Guégués às 11:23 | comentar | favorito

Sobre «decano», de novo

Corrigir quando é necessário

 

      Depois de a Porto Editora ter registado, por sugestão minha, a acepção mais usada de decano no seu dicionário, o leitor Afonso Costa fez alguns reparos pertinentes que deixou na caixa de comentários e que eu enviei para a Porto Editora. A definição é esta: «professor de faculdade ou universidade que, por ser dos que tem mais anos de serviço, pode presidir a certos conselhos, departamentos, etc.». O primeiro desses reparos era que a definição da Porto Editora deixa de fora o ensino superior politécnico. Não só: nos estabelecimentos de ensino militares, há muito que se usa o termo. Assim, por exemplo, no perfil biográfico de Fernando Venâncio Peixoto da Fonseca (1922-2010), consultor do Ciberdúvidas, é dito que era antigo decano dos professores do Colégio Militar. Ainda hoje em dia é assim. Quanto aos restantes aspectos da crítica de Afonso Costa, remeto para o seu comentário, realçando apenas o terceiro: «Em terceiro lugar porque, ao professor decano, os estatutos e regulamentos cometem funções específicas, isto é, não se trata de «pode[r] presidir a certos conselhos, departamentos, etc.» (sublinhado meu) antes de dever exercer determinadas funções que lhe são expressamente atribuídas pelas leis e regulamentos ou, nalguns casos, pelas praxes.» Ora, este aspecto avultava no meu texto, pois referia o caso de um «professor catedrático que andou mais de uma década a fugir às chatices burocráticas do decanato». Trata-se de obrigações, deveres, não de caprichos ou discricionariedades ditadas pela vontade do titular.

 

[Texto 11 293]

Helder Guégués às 10:25 | comentar | ver comentários (5) | favorito
02
Mai 19

Como escrevem alguns jornalistas

Para se perceber só em parte

 

      «Nos entretantos, o director da FDUL, Pedro Romano Martinez, foi apresentando péssimas explicações para justificar a permanência e ascensão de Farinho na faculdade, cheias daquelas technicalities a que as pessoas do Direito recorrem quando assobiam para o ar» («Domingos Farinho no país da inimputabilidade», João Miguel Tavares, Público, 2.05.2019, p. 48).

      Por qualquer motivo que nem sequer interessa conhecer, João Miguel Tavares acha que nenhuma palavra portuguesa poderá substituir o inglês technicality. Para um jornalista, não é mau — é péssimo. Quem é que não se lembra de pelo menos meia dúzia de formas de dizer o mesmo em português?

 

[Texto 11 292]

Helder Guégués às 09:11 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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