30
Mai 19

Léxico: «rebaixante»

Mais um tijolo

 

      «Em resumo: tudo nesse ser nojento me parecia ostensivo e rebaixante, até a estupidez, aliás não muito visível para os examinadores que lhe atribuíam sempre notas de «urso» — o que já nessa altura me levava a crer que, em determinadas ocasiões, a estupidez não passa da inteligência que nos falta, só acessível a alguns eleitos» (Coleccionador de Absurdos, José Gomes Ferreira. Lisboa: Moraes, 1978, p. 43).

      A Porto Editora mantém-no de reserva apenas em dois dicionários bilingues. No da língua portuguesa, nada. Acabei de o encontrar a traduzir o inglês diminishing.

 

[Texto 11 447]

Helder Guégués às 11:51 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «atenazar»

Estamos a tempo

 

      «Luísa de Jesus, foi a última mulher condenada à morte em Portugal. Foi atenazada (queimada com uma tenaz em brasa) e garroteada (perfuração gradual do pescoço, com o corpo amarrado a uma cadeira), por entre os gritos e os aplausos da multidão que assistia. Estávamos no século XVIII e esta mulher de Coimbra, [sic] foi a maior homicida que o país conheceu» («Psicopatas Portugueses. Um livro para maiores de 18 com sangue nas folhas», Teresa Dias Mendes, TSF, 30.05.2019, 7h44).

      Estão a ver como os nossos dicionaristas foram imprudentes quando mandaram para o lixo certos, demasiados, verbetes e acepções? Hoje em dia, atanazar/atenazar é apenas, tirando os sentidos figurados, «apertar com tenaz». Tortura que é tortura não se limita a apertar — aperta com tenaz ardente. É assim em Morais. Se não houver aqui uma tomada de consciência (e muito trabalho), dentro de uns anos não se compreenderá metade do que se escreveu do século XX para trás.

 

[Texto 11 446]

Helder Guégués às 09:19 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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30
Mai 19

«Hortícolas», de novo

Parece-me óbvio

 

      O escritor Joel Neto estava ontem (mas eu ouvi-o hoje) na Prova Oral. Regressou, há sete anos, ao campo, vive na Terceira, Açores. Disse que ia pouco à cidade, apenas para ir ao ginásio (vivendo no campo, precisará?) e para «comprar plantios de hortícolas», por exemplo. É um verdadeiro substantivo, não meramente um adjectivo substantivado.

 

[Texto 11 445]

Helder Guégués às 09:10 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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29
Mai 19

Tradução: «livery company»

Escolham

 

      Para o Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora, a livery company é a «corporação londrina com libré própria». E já tenho visto dar-se-lhe o nome de companhia de libré. Serão quê — corporações, guildas? Bem, certo é que, definindo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora libré como a «espécie de uniforme de lacaios e cocheiros de casa nobre», uma das duas está errada: ou a libré faltam acepções, ou a definição de livery company está errada. Escolham.

 

[Texto 11 444]

Helder Guégués às 23:38 | comentar | favorito

Léxico: «consultadoria | consultoria»

Não é a melhor opção

 

      «No entanto, os seus poderes estavam limitados à consultoria nos planos de investimento e de tarifas de então» (A Financeirização do Capitalismo em Portugal, João Rodrigues, Ana Cordeiro Santos e Nuno Teles. Coimbra: Actual Editora, 2016, p. 126). Evidentemente, devemos preferir as formas mais breves às mais longas, e, assim, preferirmos consultoria a consultadoria. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que regista ambos, só erra num aspecto: só em consultoria remete para consultadoria, mas neste verbete, onde se encontra a definição, não remete nem menciona «consultoria».

 

[Texto 11 443]

Helder Guégués às 20:43 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Os dicionários bilingues

Perdemos todos

 

      Se também os dicionários bilingues da Porto Editora estivessem abertos a contributos, a melhoramentos e correcções imprescindíveis, como todos ganharíamos... Mas não querem. Um exemplo menor: acabei de encontrar a frase «speaking parochially». Decerto, não conhecem o contexto, mas confiem em mim — nenhuma das propostas do Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora se adequa: «1. duma maneira provinciana; 2. com estreiteza de espírito; 3. Tacanhamente; 4. por paróquias».

 

[Texto 11 442]

Helder Guégués às 19:47 | comentar | favorito

Léxico: «tancagem»

Ouviste mal

 

      «Entretanto, precisou, também têm que [sic] decorrer negociações com a ANA – Aeroportos de Portugal, “não só porque este oleoduto tem que [sic] entrar dentro do aeroporto, como vai ser necessário reforçar a capacidade de tancagem que hoje existe no próprio aeroporto”» («​Aeroporto de Lisboa terá abastecimento por oleoduto em 2021», Rádio Renascença, 29.05.2019, 13h18).

      Não, Porto Editora, eu não disse «tanchagem», isso é outra coisa. Tancagem, o armazenamento de líquidos em tanques.

 

[Texto 11 441]

Helder Guégués às 18:52 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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29
Mai 19

Léxico: «hebefilia»

Ajudem o leitor doente

 

      «A obsessão por Lolita é um sintoma de hebefilia, atração por pré-adolescentes. Na adaptação ao cinema, a idade da protagonista passou de 12 para 16 anos» («Hebefilia é crime», João Pedro Ferreira, «Domingo»/Correio da Manhã, 12-18.05.2019, p. 42). Até na ficção o Correio da Manhã combate o crime. Eh, valentes!

      Agora imaginem uma dessas pessoas obcecadas com o cumprimento da lei, que julgam estar sempre a incorrer em crimes. (Há medicamentos para isto, eu sei.) Consultava o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e esbarrava na pergunta: «Queria pesquisar hemofilia?» Acolhe, é verdade, efebofilia, mas não esperam decerto que uma pessoa perturbada e acuada pelo medo chegue lá. Também regista, diga-se, lolita, que remete para ninfeta, a rapariga jovem que está nos «primeiros anos da adolescência». Será mesmo? Não é antes na pré-adolescência, como era o caso da doce Dolores Haze? Não custa muito (nem mais) ser rigoroso.

 

[Texto 11 440]

Helder Guégués às 14:27 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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