29
Mai 19

Léxico: «animalista»

Era o que esperava

 

      «No espaço de opinião que ocupa na TSF, Daniel Oliveira sublinhou que “o PAN é um partido animalista, nunca foi um partido ecologista” e explicou que o mesmo foi criado em 2009, por “vegans e budistas new age”, com o nome “Partido dos Animais” e não “Pessoas Animais e Natureza”, como é hoje» («A quarta oportunidade perdida para um partido ecologista português», Sara Beatriz Monteiro, TSF, 28.05.2019, 11h29).

      Esperava ver nos nossos dicionários algo equivalente ao que encontro nos dicionários em língua inglesa: «An animal liberationist.» Mas não, nos nossos fia mais fino, mete filosofia e tudo. Portanto, quando Marinho e Pinto, de quem agora a Europa se livrou, deu os parabéns aos animais, queria dizer aos animalistas. Foi um lapsus linguæ.

 

[Texto 11 439]

Helder Guégués às 14:12 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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29
Mai 19

Léxico: «recentramento | recentragem»

Uma necessária reorientação

 

​      «A recentragem do PS» (Francisco Sarsfield Cabral, Rádio Renascença, 29.05.2019). «Nuno Melo está mesmo convencido de que este recentramento doutrinário é o único caminho que permitirá ao CDS crescer. [...] Mesmo que o recentramento ganhe adeptos, esta não será altura para se falar na sucessão da líder» («CDS sai arrasado e Cristas diz ter “compreendido bem o sinal”», Luciano Alvarez, Público, 27.05.2019, p. 7).

      Ora, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, nem recentragem nem recentramento. Vêem como faltam sempre muitos? Só o primeiro assoma num bilingue, por sinal um bom verbete. O próprio dicionário andava a precisar de um recentramento, de uma reorientação, o que parece estar a acontecer agora.

 

[Texto 11 438]

Helder Guégués às 07:04 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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28
Mai 19

Léxico: «populismo»

Uma coisa de cada vez

 

      «E agora não consegue parar. Lê letreiros, cartazes, legendas, anúncios, manchetes, títulos. Com a campanha para as Europeias em marcha, pergunta-me o que significa “iniciativa”, o que é “emprego”, para que serve a palavra “imposições” e quem são os “contribuintes”. Talvez em outubro, nas legislativas, eu consiga explicar-lhe que “de-ma-go-gi-a” tem cinco sílabas e “po-pu-lis-mo” tem quatro e que uma anda de mão dada com a outra. Mas uma coisa de cada vez» («Aprender a escrever. E um obrigado à professora Maria Emília e à professora Isabel», Paulo Farinha, «DN Life»/Diário de Notícias, 28.05.2019).

      De acordo, uma coisa de cada vez: primeiro, convinha que o pai soubesse exactamente o que significa populismo. O pai e os lexicógrafos, pois que na definição de populismo falam em preconceitos e cederam eles próprios a preconceitos. Procurem saber e depois já me contam. Para já, não devem falar de ideologia, e nem talvez mesmo em doutrina ou prática política, quando não é mais do que uma estratégia discursiva de construção de uma fronteira política entre o povo, nós, e a oligarquia, eles. Pelo menos num populismo de esquerda, como o defendido por Chantal Mouffe. E mais não quero dizer.

 

[Texto 11 437]

Helder Guégués às 23:10 | comentar | favorito

Léxico: «desurbanização»

Mas usam-na

 

      «Esta tendência para a “desurbanização” do PSD tem-se acentuado nos últimos actos eleitorais» («PSD só ganha Vila Real e Madeira. Em Lisboa, vale 16,4%», Filipa Almeida Mendes, Público, 28.05.2019, p. 5). Usada há décadas, ora com aspas, ora sem aspas, mas sempre esquecida pelos dicionários.

[Texto 11 436]

Helder Guégués às 22:46 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «kippa | quipá»

Não compreendo esta obstinação

 

      O mérito do jornal Público na luta persistente contra a maldição do Acordo Ortográfico de 1990 é inegável. Por mim, o prémio que lhe concedo é a minha assinatura permanente há anos. Com este ponto assente, devemos afirmar, por outro lado, que é quase tão infestado por erros e idiossincrasias atoleimadas como outros. Uma delas é, por exemplo, é usarem o termo estrangeiro cannabis — isto quando a generalidade da imprensa portuguesa usa o termo canábis. E por estes dias, a propósito da prevenção contra casos de anti-semitismo na Alemanha, o uso do vocábulo kippa quando quase os restantes meios optam, e muito bem, por quipá. Isto não acaba por ser uma no cravo, outra na ferradura? Porque não preferem as palavras portuguesas, caramba?

      «O Governo alemão prometeu adoptar medidas para garantir a segurança de judeus que usem a kippa (solidéu) em público, depois da admissão extraordinária do comissário para o combate ao anti-semitismo, Felix Klein, que armou no sábado que “não podia recomendar a judeus que usassem a kippa sempre e em todo o lado”» («Alemanha debate a segurança dos judeus que usam kippa em público», Maria João Guimarães, Público, 28.05.2019, p. 30).

 

[Texto 11 435]

Helder Guégués às 22:06 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «quark»

E o queijo?

 

      «Murray Gell-Mann foi desencantar o nome quark, segundo dizem, a uma frase do último (e talvez o mais complexo) livro de James Joyce Finnegans Wake. Mas o importante nesta história é o facto de o físico norte-americano ter escolhido a palavra “quark” para nomear as minúsculas partículas elementares que integram toda a matéria. [...] Já dissemos que foi inspirado num romance de James Joyce que Murray Gell-Mann deu o nome ao (hoje célebre) quark. O texto referia, a dada altura, “três quarks para Muster Mark!”, continuando para uma rima com a palavra bark (latido), reforçando-se o mesmo som. O físico norte-americano agarrou-se à palavra que pode ter vários significados, entre os quais um tipo de queijo, e ao facto de a armação incluir o número “três” que, justificou, encaixava perfeitamente na forma como os quarks estão na natureza. A palavra escolhida — por causa do som, não do seu significado — foi mais importante do que parece» («Morreu o físico norte-americano que deu o nome ao quark», Andrea Cunha Freitas, Público, 28.05.2019, p. 32).

      Há muito melhores definições de quark do que a que encontramos no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas também não é a pior. Por isso, só pergunto: onde está o queijo?

 

[Texto 11 434]

Helder Guégués às 21:47 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «sobredeterminar | sobredeterminação»

Assim não

 

      «Já nos referimos, na leitura que apresentamos do texto de Michel Pêcheux, à sobredeterminação, opondo-a à noção de determinação, entendendo essa última como a suposição de uma causalidade linear e de estrutura dual» (A Língua Que me Falta: Uma Análise dos Estudos em Aquisição de Linguagem, Maria Teresa Guimarães de Lemos. Lisboa: Mercado de Letras, 2002, p. 52).

      No ensaio que estou a rever, aparece duas vezes, para traduzir o inglês overdetermination. No Aulete, que também acolhe o verbo, aparece com três acepções, da psicologia, da filosofia e da linguística. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, e noutros dicionários, nem verbo nem substantivo. Diga-se, a tempo, que também existem subdeterminar e subdeterminação.

 

[Texto 11 433]

Helder Guégués às 21:02 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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28
Mai 19

Léxico: «Touriga-Franca | Touriga-Nacional»

Até 2036

 

      Tenho à minha frente uma garrafa de Gloria, um tinto de reserva da Vicente Faria, do Douro. Uma das três castas usadas é a Touriga-Franca (30 %), que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora desconhece completamente. Das outras duas castas, Touriga-Nacional (30 %) e Tinta-Roriz (40 %), só esta última está naquele dicionário. É um vinho que se pode guardar perfeitamente até 2036. Esperemos que antes dessa data estejam todos estes nomes nos dicionários.

 

[Texto 11 432]

Helder Guégués às 14:23 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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