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Linguagista

Léxico: «boxe»

Isso é que é amor à língua!

 

      «Desta forma, os comissários entenderam que Miguel Oliveira violou o artigo 1.21.2 das Regras do Campeonato do Mundo da Federação Internacional de Motociclismo (FIM), que estipula que “os pilotos devem conduzir de forma responsável, não causando perigo para outros participantes, seja na pista ou no “pit lane”» («“Conduziu de forma irresponsável.” Miguel Oliveira penalizado na grelha do GP da Holanda», TSF, 29.06.2019, 18h09).

      Agora que anda a tirar a carta cá fora, começa a armar-se em parvo. E por parvos: não se diz, mais compreensivelmente, porque em português, «corredor das boxes», em vez de pit lane? Isso é que é amor à língua... Finalmente, e aproveitando a veia inquiridora, porque diz o dicionário da Porto Editora de boxe que é o «local, junto à pista, onde é prestada assistência aos carros em competição»? E as motos?

 

 [Texto 11 646]

Léxico: «marcionita»

De novo com Jonas

 

      «Para os Marcionitas, o Deus supremo opõe-se ao Deus criador do universo material e da Lei mosaica. Por isso há três céus ou três mundos: no primeiro, superior e inacessível, habita o Deus supremo que só foi revelado por Jesus Cristo; no segundo habita o Deus do Génesis e da Lei de Moisés, que se compara inclusivamente com o Diabo; o terceiro é o da matéria, da terra e dos seus poderes» (Jesus de Nazaré: Quem És Tu?, Joaquim Carreira das Neves. Braga: Editorial Franciscana, 1980, p. 213).

      A minha escolha seria sempre esta, e por isso mesmo fico surpreendido por ver que o dicionário da Porto Editora só regista marcionista. O VOLP da Academia Brasileira de Letras regista ambas as formas, marcionita e marcionista. E agora a definição de marcionismo naquele dicionário: «RELIGIÃO doutrina dualista de Marcião (século II d.C.), considerada herética pela Igreja católica, que defendia uma separação radical entre o cristianismo e a fé judaica, com base na ideia de que o Deus do Antigo Testamento não seria o mesmo que o revelado por Jesus». Marciões há muitos: este, figura central no gnosticismo, era Marcião de Sinope. Sinope era uma cidade no Ponto Euxino, onde seu pai era bispo. Era, portanto, conterrâneo de Diógenes de Sinope, o da lanterna. A propósito, diga-se que temos um nome comum derivado do nome desta cidade: sinople (sinopla ou sinopera), uma terra vermelha proveniente daquela cidade pôntica. Também não percebo porque não regista o Dicionário de Toponímia da Porto Editora os nomes de todas estas cidades da Antiguidade, que vejo tantas vezes escritos com erros.

 

[Texto 11 645]

Contra o AO90

Mais de dois por ano

 

      Na sua crónica no Público, diz hoje Pacheco Pereira que prometeu a si próprio escrever um ou dois artigos por ano contra o Acordo Ortográfico de 1990. Cada um faz o que pode.

      Vamos a um caso prático. Vou adoptar um gato. Naturalmente, não quero ir muito longe buscá-lo. Pesquiso na aplicação da OLX: «gatos adopção». Um tigrado de olhos azuis podia ser o eleito. Depois lembro-me da divisão que quiseram fazer na sociedade portuguesa, amaldiçoo aquela gente toda e escrevo, simulando cuspir para o lado: «gatos adoção». Aparecem oito resultados — nenhum coincidente com a outra pesquisa. Podem objectar-me: «Mas isso é a aplicação que não está bem concebida!» É então esse o problema, a aplicação, não o acordo? Alguém inteligente pode fazer semelhante afirmação?

      Com as décadas que levamos de democracia depois do 25 de Abril, estou convencido de que a imposição do AO90 foi a decisão política mais estúpida, desnecessária e antidemocrática.

 

[Texto 11 644]