18
Jul 19

Pontuação e jornais

Menos palavras

 

      Só mais um exemplo, para que o leitor, sem deixar de aprender qualquer coisa, não se aborreça nestes tempos tão lúdicos. «Depois de tudo o que ouvi, votaria nela [em Ursula von der Leyen] sem hesitação. Foi o que fizeram, aliás, os deputados portugueses do PS, PSD e CDS (ao contrário dos do PAN, BE e PCP, numa espécie de espelho da caseira geringonça), o que já levou Rui Tavares a considerar a posição do PS, bem como a do PSOE que foi igual, como uma traição» («Ursula: a surpresa da normalidade», Henrique Monteiro, Expresso Diário, 17.07.2019).

      É uma simples vírgula, mas ela faz ali falta: «posição do PS, bem como a do PSOE, que foi igual». Sem vírgula, pode levar a pressupor-se que o PSOE tem várias posições, uma das quais, esta, foi igual à do PS. E se quiséssemos poupar palavras, sem comprometer a compreensão, assim: «a posição do PS, e a do PSOE, que foi igual, uma traição». Escrever muito é fácil.

 

[Texto 11 806]

Helder Guégués às 13:48 | comentar | favorito
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Ortografia e jornais

Henrique, o Inverificador

 

      Vamos agora para coisas mais miúdas. «A este propósito da diversidade, bastaria ver a votação de terça-feira para a detetarmos. Gente de todas as etnias, vestidas de formas que iam do ‘ultraformal’ ao ‘estilo campista’, temos representantes. Até para o mau-gosto piroso, como Berlusconni, que com a mão direita entrapada fazia questão de distribuir sorrisos e apertos de mão (com a esquerda)» («Ursula: a surpresa da normalidade», Henrique Monteiro, Expresso Diário, 17.07.2019).

      Henrique Monteiro, salta à vista, é muito mais cuidadoso na escrita do que muitos outros jornalistas — mas também descura certos aspectos, como, neste caso, o nome de um político. Como jornalista, não é o que devia fazer, verificar? É Berlusconi. E em que dicionário viu Henrique Monteiro a grafia «mau-gosto»? Aqui entram os dicionários: porque é que não registam, no verbete gosto, a subentrada «bom gosto» e «mau gosto»? Sim, há outras: «bom humor»/«mau humor», etc. Diga-se também, vem mesmo a propósito, que não há em Portugal, do que conheço, jornal que, na edição em linha, aplique tão indecorosamente mal as regras do Acordo Ortográfico de 1990 como o Expresso. Se respeitassem, como deviam, os leitores, deixavam hoje mesmo, agora, de aplicar a execrável nova grafia e dedicavam-se a reaprender as regras do Acordo Ortográfico de 1945. Demoraria, mas o progresso seria mais seguro. Teria de haver novo período de transição, agora para trás.

 

[Texto 11 805]

Helder Guégués às 11:52 | comentar | favorito
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Léxico: «rádio-escuta»

Mas existe

 

      «“A sua localização foi concebida graças à radio-escuta das comunicações alemãs, que apesar de criptografadas pela máquina Enigma, foram descodificadas em Bletchley Park por uma equipa de que o mais proeminente elemento foi Alan Turing. Tratava-se de informação de tal modo secreta que a sua fonte era indicada nos documentos que se produzissem como ULTRA”, explica José António Barreiros ao DN» («Descodificação da Enigma apanhou espião português na II Guerra. E foi um problema para a diplomacia», Céu Neves, Diário de Notícias, 17.07.2019, 19h47, itálico meu).

      Outra palavra que os lexicógrafos fingem que não existe. Uma peneira muito opaca, mas a realidade impõe-se sempre com mais força.

 

[Texto 11 804]

Helder Guégués às 10:10 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Os seguidores do pastor Russell no dicionário

Nessa não me apanham

 

      «Helena Strzelecka, uma polaca do mesmo grupo, recordou uma ocasião em que foi com Gerda ao bunker recolher o corpo de uma testemunha de Jeová de uma cela» (Se Isto é Uma Mulher, Sarah Helm. Tradução de Ana Saldanha. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2015, p. 272).

      Não é teatro: sofri mesmo uma comoção ao ver que o dicionário da Porto Editora grafa com hífen o nome dos membros ou seguidores do movimento cristão Testemunhas de Jeová, fundado nos EUA pelo pastor Charles Taze Russell (na definição, escrevem «Russel», erro muito comum). Não sabia desta perfídia. Tenho duas soluções: ou adopto (adoto), em parte e neste aspecto (aspeto), o AO90, e escrevo como ali acima, ou, como mais informalmente se diz há décadas (e o dicionário da Porto Editora ainda não regista), escrevo jeová.

 

[Texto 11 803]

Helder Guégués às 09:38 | comentar | favorito

Léxico: «doença dos pezinhos»

Demasiada e inútil dispersão

 

      «Mais de 42.100 crianças nasceram no primeiro semestre do ano em Portugal, um recorde dos últimos três anos para igual período, segundo dados do Programa Nacional de Diagnóstico Precoce, conhecido como “teste do pezinho”» («Nasceram mais 42 mil bebés nos primeiros seis meses do ano», Rádio Renascença, 18.07.2019, 7h48).

      Aqui acontece algo parecido: no dicionário da Porto Editora, doença dos pezinhos remete simplesmente para paramiloidose, onde se descreve a doença — mas num texto de apoio da Infopédia ficamos a saber que também tem o nome de polineuropatia amiloidótica familiar (eles escrevem com maiúsculas, mas isso foi antes do uso pleno do cérebro). Mas que esquizofrénica dispersão é esta, que fim persegue?

 

[Texto 11 802]

Helder Guégués às 08:52 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «fenilcetonuria | fenilcetonúria»

De uma só vez, um só esforço

 

      «O programa arrancou em Portugal em 1979 com o rastreio da fenilcetonuria, que tem uma prevalência em Portugal de um caso por cada 10.867 nascimentos, e dois anos mais tarde passou a incluir o hipertiroidismo congénito, com uma prevalência de um caso por cada 2.892 nascimentos» («Nasceram mais 42 mil bebés nos primeiros seis meses do ano», Rádio Renascença, 18.07.2019, 7h48).

      O título é ambíguo, enganador até, mas não vamos agora tratar do caso. Vamos a fenilcetonuria. Se consultarmos o verbete no dicionário da Porto Editora, não ficamos a saber que há outra grafia, acentuada, fenilcetonúria. «PATOLOGIA defeito congénito do metabolismo proteico, que afecta o sistema nervoso central, causando grave atraso mental». Já se cairmos em fenilcetonúria, temos uma mera remissão: «PATOLOGIA ver fenilcetonuria». Isto faz sentido? Não faz. Lógico, económico, seria termos somente um verbete, assim: «fenilcetonuria, fenilcetonúria». Há outros vocábulos com o mesmo tratamento naquele dicionário. De uma só vez, o falante fica a saber tudo.

 

[Texto 11 801]

Helder Guégués às 08:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito

«Ad nutum, in primis, a latere...»

E vão três

 

      Mais um caso. Já tínhamos aqui visto que as locuções latinas ad nutum e in primis estão, erradamente, registadas como italianas no Dicionário de Italiano-Português da Porto Editora. Hoje, vi outra: a latere. Vê-se que não sabem como descalçar a bota, mas eu já indiquei um dos caminhos possíveis. Como as outras duas, esta também é latina; significa «ao lado» e tem, entre nós, uso exclusivamente jurídico. Já em castelhano é diferente, entrou na linguagem do dia-a-dia, vestida com outra roupagem, adlátere, nascida da confusão de preposições. Um adlátere é a pessoa inseparável de outra, assim como um par de jarras; também pode designar o assistente, quase a sombra subordinada de alguém, mais importante; por vezes, porém, tem um significado neutro, é o simples colega ou companheiro. Estranhamente, não está no Dicionário de Espanhol-Português da Porto Editora.

 

[Texto 11 800]

Helder Guégués às 08:18 | comentar | favorito

Léxico: «tradutológico | tradutório»

A propósito

 

      «A tradução de Il Cortegíano de Baldassare Castiglione por Juan Boscán (1534) inaugurou um novo paradigma tradutológico, de que deu conta Garcilaso de la Vega» (Dicionário de Luís de Camões, Vítor Aguiar e Silva. Alfragide: Editorial Caminho, 2012, p. 1254).

      A propósito, lembre-se que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, se regista tradutologia e tradutólogo, não acolhe o adjectivo tradutológico nem tão-pouco o menos pernóstico tradutório, ou seja, desassiste-nos no pior momento, pois o falante não tem alternativas.

 

[Texto 11 799]

Helder Guégués às 07:53 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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18
Jul 19

Léxico: «amicícia»

Escrevivendo e aprendendo

 

      No original, de autor muito proclive a invenções lexicais, na linha do nosso Mia Couto, lia-se «amiguerío». A opção do tradutor foi pela palavra amicícia (obsoleta, mas que o dicionário da Porto Editora parece ser o único a esquecer), o que não me convence. Parece-me óbvio que, sempre que possível, para um termo obsoleto temos de encontrar um termo obsoleto, para um termo da gíria temos de achar um termo da gíria — e o mesmo temos de fazer para uma criação lexical, uma liberdade semântica, uma tirada nonsense, etc. Temos de adequar o registo, o que é muitas vezes esquecido. É difícil? Sim, é difícil — mas até nos pagam para o fazer.

 

[Texto 11 798]

Helder Guégués às 07:33 | comentar | ver comentários (5) | favorito