02
Jul 19
02
Jul 19

O AO90 no dia-a-dia

O cuidado e o conhecimento

 

      É este o profundo conhecimento das regras do AO90 que se tem nas redacções de revistas e jornais: «Por isso, aborda quase filosoficamente o grave problema político do familygate e aceita não importa o quê dos ministros. A factura pode ser pesada. [...] É a eles que a história [sic] deve alguma coisa, não aos teóricos, cronistas de secretária e inventores com verve, ou aos meros colecionadores de tragédias mediáticas curriculares, na pele de enviados especiais que raramente saem para lá de um raio de meio quilómetro dos respetivos hotéis» (Eduardo Dâmaso, editorial, Sábado, 11-16.04.2019, p. 8).

 

[Texto 11 663]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | favorito
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01
Jul 19

Léxico: «vigoréxico»

E claro que faz falta

 

      «Nuno Carneiro concorda com esta distinção: “Não é igual ter uma perceção errada da autoimagem e treinar em excesso para ficar um Adónis, ou treinar duramente para obter resultados sabendo o que já alcançou e lhe falta alcançar”, explica o praticante de artes marciais, que malha muitas vezes com os pés em ferida e à beira das lágrimas pela segunda razão, nunca pela primeira. “Até pode haver dor física e emocional em ambas, mas são caminhos diferentes. Eu próprio cometo muitos erros e não sou vigorético”» («Treinar até doer: o vício que faz sofrer por gosto mas pode fazer mal à saúde», Ana Pago, «DN Life»/Diário de Notícias, 1.07.2019).

      Como já afirmei em relação a outra palavra semelhante, para mim é vigoréxico, porque entendo que se formou na nossa língua com base em «vigorexia». O dicionário da Porto Editora, que regista vigorexia, não acolhe nenhum dos adjectivos.

 

[Texto 11 662]

Helder Guégués às 22:46 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «galgueiro»

Relativo a galgo

 

      «As corridas de galgos têm muitos adeptos no norte do país, onde está sediada a Associação Galgueira e Lebreira do Norte. Fazem parte dos programas de feiras e outros eventos, como ainda recentemente na Expolima — caça, pesca e lazer» («Cruz Vermelha cancela corrida de galgos por pressão da SOS Animal», Paula Sofia Luz, Diário de Notícias, 1.07.2019, 17h41).

      Não tarda nada e até sacudir as moscas de cima de nós será proibido, a mera menção será considerado mosquicídio na forma tentada. Quanto à língua: foi graças à minha sugestão que a acepção de galgueiro relativo a galgo foi para o dicionário da Porto Editora: «que ou pessoa que faz criação de galgos». Agora parece-me evidente que falta outra acepção: «relativo a galgo».

 

[Texto 11 661]

Helder Guégués às 22:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «codório»

Má opção

 

      A palavra do dia, na Infopédia, é hoje codório. É mais burlesca do que outra coisa qualquer, mas não está registada como tal. O meu reparo, porém, não vai para esse aspecto, mas para a etimologia: «Do latim quod ore [sumpsimus], frase latina que o sacerdote pronunciava na missa, ao receber, no cálice, vinho e água». Faltou dizer, e parece-me essencial para se perceber tudo, que quod ore sumpsimus significa «o que pela boca tomamos». Temos mais alguma palavra de uso popular tirada de expressões da Igreja? Outra, pelo menos, e muito semelhante: santoro ou santório, que aquele dicionário define assim: «espécie de pão bento que se dá nos dias de Todos os Santos e de Finados». Há textos brasileiros que mostram que também se usou a forma «codoro», o que faz sentido, pois a terminação -oro mudou-se em -ório. Infelizmente, os nossos dicionários apenas acolhem uma das formas, e nem sequer a original.

 [Texto 11 660]

Helder Guégués às 16:44 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «sárquico»

Como se não existisse

 

      A propósito de tríade, desta vez já não as mafiosas, quem ler alguma coisa sobre gnosticismo vai deparar, mais cedo ou mais tarde, com a tríade cristã-gnóstica da pneumática, psíquica e sárquica. Pois, onde vai encontrar explicado o adjectivo sárquico, alguém me diz? Em lado nenhum. Sárquico provém do grego σάρξ (sarx), «carne», e encontramo-lo em obras publicadas em Portugal há largas décadas.

 

[Texto 11 659]

Helder Guégués às 16:20 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «foca-monge-do-mediterrâneo»

Fala-se mais desta

 

      «Muitos porto-santenses quiseram ver o bicho de corpo afunilado, roliço, de olhos negros, vivos, de bigodes enormes, esbranquiçados. Nunca se vira uma foca-monge-do-mediterrâneo (Monachus monachus), também conhecida por lobo-marinho, nas praias daquela ilha» («A foca mais rara do mundo está a recuperar mas não tanto como se pensava», Ana Cristina Pereira, Público, 1.07.2019, p. 32).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora apenas regista foca, foca-cinzenta e foca-leopardo. Tem aqui a oportunidade de fazer melhor.

 

[Texto 11 658]

Helder Guégués às 13:13 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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O AO90 no dia-a-dia

Nem daqui a cem anos

 

      «Os médicos vão passar a ter um guia para atender utentes da comunidade LGBTI (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais ou Transgêneros e Intersexo). A medida é inédita na área da saúde e pretende dar aos profissionais um guia de boas práticas nos cuidados a pessoas LGBTI» («Médicos vão ter guia para atender utentes da comunidade LGBTI», Sara de Melo Rocha com Sara Beatriz Monteiro, TSF, 1.07.2019, 11h48).

      Duas Saras, e ainda assim o texto ficou doente: «transgênero», hein? E ainda o tal ministro afirmava que as regras do Acordo Ortográfico de 1990 se aprendiam em 10 minutos... Gostava de ler um texto escrito por ele. Ainda hoje os professores — sim, também os de Português — não dominam as regras, e isto depois de acções de formação, guias e outras formas criativas de esbanjar dinheiro público. Tal como estes guias para os médicos — não bastam a experiência e a sensibilidade?

 

[Texto 11 657]

Helder Guégués às 12:24 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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01
Jul 19

Léxico: «cabeça-de-lista», de novo

O mundo ao contrário

 

      O Acordo Ortográfico de 1990 foi apenas o último abanão nas já tão frágeis certezas ortográficas: «O líder do partido Chega, André Ventura, será cabeça-de-lista por Lisboa nas eleições legislativas de outubro, enquanto o primeiro candidato no Porto vai ser o militar da GNR Hugo Ernano, que em 2008 disparou mortalmente sobre um jovem de 13 anos durante uma perseguição» («Militar da GNR é cabeça-de-lista pelo Porto», Destak, 1.07.2019, p. 4). «A direcção do PSD pôs fim à especulação e assumiu o nome dos seis primeiros cabeças de lista do partido às legislativas. Entre eles há apenas uma deputada — Margarida Balseiro Lopes — e dois homens — Hugo Carvalho e André Coelho Lima» («Seis primeiros cabeça de lista do PSD: quem é quem», Sónia Sapage, Público, 29.06.2019, 17h23).

 

[Texto 11 656]

Helder Guégués às 10:55 | comentar | favorito
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