31
Ago 19
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Ago 19

Léxico: «manose | sobrevida»

De pouco serve

 

      «A cientista explicou à Lusa que a vacina tem na sua composição um açúcar simples (manose) e uma sequência de dois péptidos (frações de proteínas) que está presente nas células de melanoma. [...] Num próximo passo, a equipa científica, que pretende patentear a vacina e produzi-la à escala industrial para a testar novamente em animais e depois em humanos, vai estudar as implicações da vacina no cancro do pâncreas, cujos doentes têm uma sobrevida “muito baixa”» («Cientistas testam com sucesso vacina contra cancro agressivo da pele», Jornal de Notícias, 5.08.2019, 19h45).

      Foram ambos relegados para o Dicionário de Termos Médicos da Porto Editora, como se apenas interessassem a um nicho. Mais e pior: as definições deixam muito a desejar. No caso de manose, não se diz que se trata de um açúcar. Que eu saiba, os dicionários não são apenas para especialistas. No caso de sobrevida, diz-se isto: «Ato de sobreviver.» Com isto, não se adianta nem se atrasa.

 

[Texto 11 891]

Helder Guégués às 00:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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30
Ago 19
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Ago 19

Léxico: «pala»

Visitem os museus

 

      Noutra sala do museu (o maior em área em todo o País), vi algumas palas para sabre do modelo 1940: «Acessório em cabedal que permitia o transporte de um sabre nos diversos tipos de arreios.» Nos nossos dicionários, nem rasto desta acepção de pala.

 

[Texto 11 890]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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29
Ago 19
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Ago 19

Léxico: «costela | subcoxim»

Completamente ignorados

 

      Também vi um selim composto por costelas, subcoxim com atacas e abas de couro. Nos nossos dicionários, nem esta acepção de costela, nem a palavra subcoxim. «Apesar do grande peso do selim adoptado no nosso exército, sendo muito mais prático e cómodo o selim de costelas e raso, muito usado pelos boers, não é fácil transportar neste a carabina, espada, capote, mala de roupa, ferragem, sacos de grão e tôdas estas coisas só dispensadas por êles e suas montadas com a adaptação ao meio; por isso teremos de adoptar o selim do exército com todos os seus defeitos e pêso, e apenas entendo dever usar-se a carabina do lado esquerdo e a espada do lado direito, a cavalo, por ser muito mais fácil o emprego destas armas com esta disposição» (Operações Militares em Angola: a Acção da Cavalaria Portuguesa no Sul de Angola em 1914-1915, Albino Vieira da Rocha. Lisboa: Empresa Beleza, 1936, p. 71).

 

[Texto 11 889]

Helder Guégués às 00:30 | comentar | favorito
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28
Ago 19
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Ago 19

Léxico: «espontão»

É muito pouco

 

      Também vi dois espontões, que o dicionário da Porto Editora define pobremente como a «antiga arma de haste com lâmina de metal pontiaguda», mas que no Museu Militar de Elvas vi descrito como meia lança, lança curta, resultado da evolução do pique (lança longa). Foi utilizado pelos oficiais subalternos e sargentos de infantaria como insígnia de posto e como arma de defesa, até à primeira metade do século IX.

 

[Texto 11 888]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | favorito
27
Ago 19
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Ago 19

Léxico: «recuadeira»

A copiarem-se há duzentos anos

 

      Como já tenho demonstrado, há definições que vêm sendo copiadas de dicionário para dicionário ao longo das décadas, sem ponderação nem actualização. Último exemplo: recuadeira. Visitei por estes dias o Museu Militar de Elvas, que tem muito para ver, e encontrei lá, na secção dos hipomóveis, dependurado da parede, uma recuadeira (como as legendas são bilingues, cá vai: back up strap). Para o dicionário da Porto Editora, para todos os dicionários, é a «correia que se prendia à parte anterior do varal e que servia para fazer recuar as seges». Como alguém, há duzentos anos, a definiu assim, não se voltou a pensar no caso. Seges no Exército? Não sei. E se for numa charrete, numa carroça, numa carruagem...?

 

[Texto 11 887]

Helder Guégués às 00:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
26
Ago 19
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Ago 19

Léxico: «masseira»

Pode dizer-se mais

 

      «As masseiras são covas largas e retangulares cavadas nos solos arenosos. No seu fundo há água doce e nos cantos — os chamados “quatro vales” — são cultivadas vinhas, para proteger a zona central da areia lançada pelo vento do Norte (a bem conhecida nortada), e o calor da areia amadurece as uvas, usadas para produzir vinho» («Campos em masseira», Carina Fonseca, Evasões, 2-8.08.2019, p. 10).

      Para o dicionário da Porto Editora, masseira, nesta acepção, é a «zona cultivada no terreno arenoso das dunas, de forma semelhante a um tabuleiro». Como se vê, a definição pode ser substancialmente melhorada e enriquecida.

 

[Texto 11 886]

Helder Guégués às 00:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
25
Ago 19
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Ago 19

Léxico: «poliquetas»

Parece-me importante

 

      Quem diria: «157 decibéis é o volume do ruído que os pequenos vermes marinhos chamados poliquetas podem produzir. Os seres de apenas 29 milímetros fazem os sons mais altos registados no oceano» (Notícias Magazine, 28.07.2019, p. 8).

      É a informação que falta na definição de poliquetas no dicionário da Porto Editora: «ZOOLOGIA classe de invertebrados do grupo dos anelídeos, dióicos e quetópodes, a maioria dos quais marinhos, cujas sedas locomotoras estão dispostas em grupos inseridos em parápodes (inclui espécies utilizadas como isco para pesca, alimento em piscicultura, etc.)». E não serão antes cerdas? Há largos milhares de espécies, mas, quanto às marinhas, vivem em águas tropicais do Pacífico e do golfo do México. São as cerdas destas que podem penetrar a pele e produzir envenenamento gravemente doloroso.

 

[Texto 11 885]

Helder Guégués às 00:30 | comentar | favorito
24
Ago 19
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Ago 19

Léxico: «pinguim-azul»

Ainda não temos este

 

      «Dois pinguins-azuis foram recentemente capturados pela polícia, depois de terem “invadido” um restaurante de sushi em Wellington, capital da Nova Zelândia» («Pinguins fazem ninho em restaurante de sushi», Filomena Abreu, Notícias Magazine, 28.07.2019, p. 8).

      O pinguim-azul ou pinguim-fada (Eudyptula minor) é a mais pequena de todas as espécies de pinguim em todo o mundo. Ainda assim, não cabe nos nossos dicionários.

 

[Texto 11 884]

Helder Guégués às 00:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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23
Ago 19
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Ago 19

Léxico: «museografar»

Pois anda por aí

 

      «A reconstituição da Bouça foi a primeira museografia do SAAL [Serviço Ambulatório de Apoio Local], ao vivo. Em Serralves, conclui-se que museografar um momento revolucionário implica uma simplificação, e uma contenção, talvez necessárias para que o conhecimento possa avançar» («O SAAL chegou ao museu», Jorge Figueira, Público, 17.12.2014, 2h09).

      Pois, não se vê muito — mas o adjectivo/particípio, museografado, vai-se vendo aqui e ali, e também não está nos nossos dicionários.

 

[Texto 11 883]

Helder Guégués às 00:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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