22
Ago 19
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Ago 19

Léxico: «manjoeiro | charniqueiro»

Vejam lá isso bem

 

      «Manjoeiros. Também conhecidos como charniqueiros, são o doce típico [de Loures]» («O primeiro concelho a abraçar a República», Catarina Mendes, Jornal de Notícias, 2.08.2019, p. 46).

      Aqui tão perto. Nos nossos dicionários, nada de nada. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista como adjectivo relativo à charneca charnequeiro, mas o certo é que relativo à Charneca, povoação do concelho de Almada, há vocabulários que registam charniqueiro. Portanto, vejam lá isso. Manjoeiro, recorde-se, é também topónimo.

 

[Texto 11 882]

Helder Guégués às 00:30 | comentar | favorito
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21
Ago 19
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Ago 19

Léxico: «vlogue»

Talvez nunca

 

      «Boram fez fortuna através dos dois canais que tem no YouTube: um em que apresenta críticas a brinquedos e outro em que publica ‘vlogs’, vídeos que documentam o seu dia a dia com uma mestria que já a tornou rica» («Boram. Youtuber com seis anos compra casa de sete milhões», Jornal de Notícias, 2.08.2019, p. 37).

      Como é muito menos usado, talvez os escribas indígenas nunca cheguem a ponderar que não há razão para não o aportuguesar, como aconteceu com «blogue». Alguns, de resto, julgando prestar um melhor serviço à língua, quando não à sua própria preguiça física e mental, escrevem «blog». Atroz. Embora haja escreventes de todas as classes, províncias, idades, seitas, sexos e todos os estágios de demência a escrever «blog», inclino-me a crer, na minha visão psicologista, que são os neofóbicos que mais o fazem.

 

[Texto 11 881]

Helder Guégués às 00:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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20
Ago 19
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Ago 19

Disparates na CMTV

Outro nível

 

       «José Pedro, de 21 anos, estava internado no Hospital Psiquiátrico de Viseu e foi pedir ajuda à prima Cristina Ferreira, que o acolheu em sua casa. Sofreu um ataque de fúria e proferiu vários golpes de faca contra a familiar, matando-a sem piedade. Depois atirou-se da varanda do apartamento para a rua, sofrendo ferimentos muito graves» («O jovem de 21 anos foi presente a um juiz do Tribunal de Viseu, a quem acabaria por confessar o crime», Luís Oliveira, CMTV, 29.07.2019, 11h59).

      Proferir golpes de faca! Estes repórteres da CMTV estão noutro nível. Um nível, diga-se, que já em 2011, no tempo da PàF, Pedro Lomba atingira com o seu inenarrável «bramindo o estandarte», que nunca esqueceremos. Conhecem as palavras, sim, mas de outiva.

 

[Texto 11 880]

Helder Guégués às 00:30 | comentar | ver comentários (3) | favorito
19
Ago 19
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Ago 19

Léxico: «híper | híperes»

E também é necessário

 

      «Híperes. A Associação Portuguesa de Distribuição quer que os serviços mínimos incluam, pelo menos, o transporte de alimentos» («Camiões podem “travar” 1,5 mil milhões de euros», Pedro Araújo, Jornal de Notícias, 2.08.2019, p. 4). Está, e bem, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, assim como noutros — mas não encontramos o plural, que tantas vezes vejo errado.

 

[Texto 11 879]

Helder Guégués às 00:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
18
Ago 19
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Ago 19

Léxico: «adquirido»

Este ainda não foi adquirido

 

      «A leitura é um adquirido civilizacional tão frágil como todos os outros. Não vive sozinha, vem em pacote com o modo como as sociedades evoluem, com a economia, a política e a religião, incrusta-se na educação para o bem e para o mal, e acompanha as grandes tendências dessa coisa intangível que é a “mentalidade”, a “visão do mundo”, aquilo que os alemães, que têm as melhores palavras para a filosofia, chamam Weltanschauung» («Ler a Guerra e Paz num ecrã de telemóvel», José Pacheco Pereira, Público, 27.07.2019, p. 8).

      Para começar pelo princípio: em alguns dicionários, adquirido nem sequer está registado. Pela consulta do dicionário da Porto Editora, o leitor também não vai longe, pois a acepção que acolhe é jurídica (no plural, adquiridos, «DIREITO bens obtidos pelos cônjuges a título oneroso depois do casamento»).

 

[Texto 11 878]

Helder Guégués às 00:30 | comentar | favorito
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17
Ago 19
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Ago 19

Léxico: «poder fáctico»

Não os vejo em lado nenhum

 

      «As três maiorias absolutas que houve em Portugal — duas de Cavaco Silva e uma de José Sócrates foram marcadas pela mais profunda alienação, agressividade, instintos revanchistas e tentativas de humilhação de classes profissionais (ver a passagem pela Educação de Maria de Lurdes Rodrigues), criação de inimigos internos em profusão (Cavaco combatia aquilo a que chamava os “poderes fácticos”, que eram a imprensa, o Tribunal Constitucional, o Tribunal de Contas gerido por Sousa Franco)» («Não dêem ao PS a maioria absoluta», Ana Sá Lopes, Público, 27.07.2019, p. 6).

      Há muito que se fala em poderes fácticos — relembro-o para que não se pense que o homem inventou o conceito. Diga-se que, pela consulta do verbete fáctico em qualquer dicionário (que seja, uma vez sem exemplo, o da Porto Editora: «DIREITO que diz respeito a facto jurídico»), não se fica a saber o que significa a expressão.

 

[Texto 11 877]

Helder Guégués às 00:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
16
Ago 19
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Ago 19

Léxico: «quimera»

Os tais esquecimentos

 

    «A equipa do investigador Juan Carlos Izpsisúa [sic] modificou geneticamente embriões de macaco, de forma desativar a formação dos órgãos, e depois injetou-lhes células estaminais humanas, que dão origem às células de todos os outros tecidos, para estudar o processo de formação dos órgãos. A ideia foi dar um passo mais no estudo da formação dos órgãos, com vista à possibilidade de, no futuro, gerar novos órgãos para transplante, segundo noticia o El País. A gestação da quimera, assim chamada numa alusão aos seres monstruosos que eram uma mistura de partes de animais na mitologia grega, não avançou, pelo que não houve nascimento do ser híbrido» («China. Cientistas espanhóis criaram embrião de homem e macaco», Diário de Notícias, 31.07.2019, 21h22).

      No dicionário da Porto Editora, só temos quimerismo: «BIOLOGIA existência, num mesmo organismo, de tecidos ou grupos celulares com origem genética distinta». Estranhamente, quimera só aparece registado num domínio diferente: «BOTÂNICA organismo vegetal, misto, constituído por tecidos diferentes». Isto, evidentemente, não devia acontecer.

 

[Texto 11 876]

Helder Guégués às 00:30 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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15
Ago 19
15
Ago 19

Siglas e esforços inúteis

Sem utilidade

 

      «O primeiro sismo atingiu uma magnitude de 5.4 na escala de Richter, com epicentro na ilha de Batan, a nove quilómetros de profundidade, indica o Serviço de Vigilância Geológica dos Estados Unidos (USGS, na sigla inglesa)» («Sismos fazem pelo menos seis mortos nas Filipinas», Rádio Renascença, 27.07.2019, 2h50).

      Também já cedi a isto, mas, francamente, para que serve indicar a sigla inglesa do Serviço de Vigilância Geológica dos Estados Unidos ou de qualquer outra instituição estrangeira? Para muito pouco, quase nada. O esforço que o jornalista (antes das 3 da manhã!) despendeu nisto... Devia antes lembrar-se do que aprendeu na escola primária: em Portugal (quando não em português), o separador decimal é a vírgula.

 

 [Texto 11 875]

Helder Guégués às 07:40 | comentar | favorito
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14
Ago 19
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Ago 19

Léxico: «cervense»

Não os esqueçam

 

      Grande susto, ontem, com o blogue todo desconfigurado. Um pesadelo negro para mim, um sonho róseo para os meus inimigos. Prossigamos. Devagarinho, um texto por dia, como por receita médica. Como vem sendo habitual, ainda maioritariamente sobre vocábulos ou acepções que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não tem e devia ter, ou sobre definições que precisam de ser corrigidas ou melhoradas.

      Gostava de ir à XXI Feira do Linho em Ribeira de Pena, no Alto Tâmega, provar o vinho verde, o mel, comer um bom naco de vitela maronesa e de cabra bravia... Mentira, sou quase vegetariano. Bem, mas que se pode fazer lá além de visitar a feira? A Evasões diz que podemos comprar peças tradicionais de linho na Cooperativa dos Artesãos Cervences. É também assim que está escrito no Facebook. Cerva é uma antiga vila e freguesia do concelho de Ribeira de Pena. O adjectivo relativo a Cerva só pode ser, salvo pior opinião, cervense — pois o sufixo nominal é -ense e não -ence. Por exemplo, de Corvo, muito parecido, corvense. Vêem o resultado de os lexicógrafos esquecerem estas gentes, estas terras?

 

[Texto 11 874]

Helder Guégués às 00:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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