08
Out 19

Léxico: «pathos | bathos»

Vá, não inventem

 

      Entrei no dicionário da Porto Editora em demanda, à partida frustrada, do bathos de Alexander Pope. O que encontrei deixou-me de queixo caído. Topei com páthos, grafia que me arrepia um pouco, mas prossegui a demanda e no dicionário de inglês-português encontrei finalmente bathos, mas com uma surpresa: «1. batos, passagem súbita do sublime ao ridículo; 2. afetação ridícula». Escusado será dizer que no dicionário da língua portuguesa não encontrei esse tal «batos». Agora estou curioso para ver como corrigem e harmonizam tudo isto.

 

[Texto 12 126]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «caspiada | escaldada»

O País esquecido

 

      Aproxima-se o Dia de Todos os Santos, e com ele o ritual do Pão por Deus. Se é preciso alimentar os mortos, também temos de tratar de alimentar os dicionários. Assim, não vejo nos nossos dicionários o termo caspiada (ou escaldada), que é o nome que têm nos Açores (ou pelo menos na Terceira) os pequenos pães ou bolinhos de farinha milha que se dão nesse dia às crianças que andam de porta em porta.

 

[Texto 12 125]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | favorito
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Boletim de voto — a discriminação

Bem visto. Porquê?

 

      De quando em quando, já o escrevi aqui uma vez, convém dar uma olhadela às cartas dos leitores nos jornais. «Já reparara nesta “incongruência” nas anteriores eleições europeias e mantém-se. O boletim de voto protege os partidos PAN (principalmente), Livre e Chega, os quais têm os seus nomes todos em maiúsculas, enquanto os demais aparecem com maiúsculas apenas na primeira letra de cada palavra. Por exemplo: Partido Socialista ou Bloco de Esquerda, por um lado; PESSOAS - ANIMAIS - NATUREZA, por outro. Nos dois outros partidos beneficiados, nota-se menos, pois têm apenas uma palavra e curta: CHEGA e LIVRE. Porquê esta diferença de tratamento?» («Cartas ao Director», Manuel Arons Carvalho, Alfornelos, Público, 7.10.2019, p. 24).

      De facto, não se percebe a discriminação ou incoerência. Em rigor, contudo, o nome do PAN aparece grafado assim: PESSOAS-ANIMAIS-NATUREZA.

 

[Texto 12 124]

Helder Guégués às 07:00 | comentar | favorito
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Léxico: «saltador»

Como marchador

 

      «A saltadora portuguesa conseguiu uma das melhores prestações da temporada, mas não foi suficiente para ir além da oitava posição na final feminina do triplo salto, nos Mundiais de atletismo. Num concurso nivelado muito por cima, em que a vencedora se aproximou inclusive do recorde do mundo, Patrícia Mamona teve uma performance marcada pela regularidade, que deixou uma imagem bem mais fidedigna do seu real valor do que o que se vira na qualificação» (N. S., Público, 6.10.2019, p. 10, itálico meu).

      Na semana passada, vimos aqui que o dicionário da Porto Editora não registava a acepção desportiva de marchador; agora, vemos que não acolhe a acepção desportiva de saltador.

 

[Texto 12 123]

Helder Guégués às 06:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «equalitário»

Primeiro contributo

 

      «Joacine considera que os eleitores do Livre estão à espera de uma ação antifascista e antirracista. Ou seja, uma postura equalitária. Quando se confirmou a sua eleição, Joacine gritou do púlpito “não há lugar para extrema-direita no parlamento português”. À “enorme responsabilidade”, junta-se a alegria de um partido que nasceu pela mão de Rui Tavares» («“Responsabilidade e democracia”. Livre elege primeira deputada», TSF, 7.10.2019, 1h22).

 

[Texto 12 122]

Helder Guégués às 05:00 | comentar | favorito
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Léxico: «crista-de-galo | viuvinha | esperança»

Toda a gente conhece

 

      Na semifinal das 7 Maravilhas Doces de Portugal, um dos doces em competição eram as cristas-de-galo de Vila Real, do receituário conventual. A semelhança com as azevias alentejanas é impressionante. Não estão no dicionário da Porto Editora, onde crista-de-galo só aparece como termo da zoologia e da botânica. Também tem o nome de viuvinha. Não precisamos de inventar nada, a Direcção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural já fez a sua descrição: «Pastéis em forma de meia-lua, com o bordo arredondado, cortado de modo a fazer lembrar a crista do galo, recheados com doce à base de ovos. A cobertura externa é feita com uma massa à base de farinha, banha, ovo e sal. O recheio é feito com açúcar, amêndoa, ovos, toucinho, maçã ácida, canela e açúcar para polvilhar.» Outro doce conventual a concurso e também ausente daquele dicionário eram as esperanças dos Açores. Visualmente, eram, com os charutos dos Arcos e os cartuchos de amêndoa de Cernache do Bonjardim, os mais apelativos.

 

[Texto 12 121]

Helder Guégués às 04:00 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «voto útil»

Isso sim seria útil

 

      As eleições foram no domingo, mas o conhecimento é para a vida toda. Porque é que os dicionários acolhem e explicam o que não requer explicação, como a locução voto secreto, mas não registam outras que precisam de explicação, como, por exemplo, voto útil? «Pedro Magalhães explica que o voto útil – que na Ciência Política é geralmente denominado voto tático – surge quando o eleitor, “em vez de votar no partido de cujas posições se sente mais próximo ou com o qual simpatiza, vota noutro”, tipificando três situações: quando sente que o seu voto pode ser desperdiçado, quando julga que o resultado já está decidido e quer garantir a eleição de um partido pequeno ou quando escolhe a pensar na composição do Governo» («Eleições: depois da “geringonça” efeito do voto útil pode aumentar, dizem politólogos», Sapo24, 20.09.2019, 8h17).

      Na TVI24, podem não saber, em 2019, o que é uma essa, mas em 2015 sabiam explicar o que é voto útil: «Quando um eleitor vota em partido que não é o seu para impedir a vitória de um terceiro partido» («O que significa a expressão “voto útil”?», TVI24, 28.09.2015).

 

[Texto 12 120]

Helder Guégués às 03:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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08
Out 19

Como se fala na TVI24

Quando se pode tirar o som

 

      Embora estivesse perto, a centenas de metros, assisti pela televisão, na TVI24, à chegada do corpo do Prof. Freitas do Amaral ao Cemitério da Guia, em Cascais. Péssima opção. Os disparates e as parvoíces saíam em catadupa da boca da jornalista. Logo no início, disse que a urna (mas também chegou a falar em «fêretro») repousava num altar. Desliguei o som. Para ouvir as salvas de artilharia, bastou abrir a janela.

 

[Texto 12 119]

Helder Guégués às 02:00 | comentar | favorito