04
Nov 19

Léxico: «nabice»

Tölpelei

 

      «“Merda, merda, merda”, murmurou Geoffrey, inconformado com a sua própria nabice» (A Tentação do Dinheiro, Miguel Ávila. Lisboa: Editorial Presença, 2004, p. 171). Nabices há muitas: por exemplo, nabice não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, e, contudo, no Dicionário de Alemão-Português encontramo-lo. Tölpelei. Merda, merda, merda.

 

[Texto 12 239]

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Léxico: «tecarterapia»

As falsas e as ausentes

 

      Algumas pseudoterapias, como já aqui temos comprovado, vêem-se, de alguma maneira, coonestadas, legitimadas pelas definições nos dicionários. Vale o que o vale, mas devia ter-se mais cuidado. Entretanto, o que vemos é que certas terapias não constam de nenhum dicionário — como a tecarterapia. Vá, vão lá ver o que é a transferência eléctrica capacitiva e resistiva.

 

[Texto 12 238]

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Léxico: «turcomano | turcomeno | turquemeno»

Um pequeno imbróglio

 

      «O Parlamento Europeu (PE) distinguiu este ano Ilham Tohti. O Prémio Sakharov é um economista chinês de etnia uigur que luta pelos direitos daquela minoria na China. [...] Os uigures são um povo turcomano e na maioria muçulmanos que vive na região de Xinjiang, na China, e que faz fronteira com a Mongólia e com uma série de ex-repúblicas soviéticas, incluindo o Cazaquistão e o Quirgistão. Há vários anos que os uigures se queixam de discriminação por parte do Governo chinês, nomeadamente a nível religioso» («Prémio Sakharov 2019 entregue a opositor ao regime chinês», Rádio Renascença, 24.10.2019, 10h54).

      Os Uigures são um povo turcomeno ou turcomano — o dicionário da Porto Editora prefere defini-los como «povo de origem turcomena que habita no noroeste da China» (queriam escrever «Noroeste», mas está bem). Não são sinónimos, turcomeno e turcomano? Certo, certo é que turcomeno e turquemeno são sinónimos, e o dicionário da Porto Editora não regista o último. De turcomeno diz que é o «natural ou habitante do Turquemenistão; turquemenistanês», e de turcomano diz que é o «indivíduo pertencente aos Turcomanos (povo oriundo da Ásia central que a partir do século X se disseminou pelo continente asiático em sucessivas vagas migratórias, no sentido ocidental)».

      «Os turcomenos estão espalhados por diferentes países da Ásia Central, Irão, Iraque, Paquistão, Cáucaso e Turquia, além de serem maioritários na república do Turcomenistão, cuja capital é Ashgabat e que integrou a URSS até 1991. Povo turcófono, a sua cultura e linguagem está ligada à cultura e linguagem turca, sendo também, por vezes, designados como turcomanos» («Turcomenos: uma etnia milenar e hospitaleira», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 26.11.2015, 00h06).

 

[Texto 12 237]

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Léxico: «inflação»

Agora a cosmologia

 

      Há muitas lacunas. Por que razão os nossos dicionários não referem nada acerca da inflação, teoria que está nos fundamentos da moderna cosmologia?

 

[Texto 12 236]

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04
Nov 19

Léxico: «capão | homeotrópico»

Não são galináceos

 

    «O assunto da viciação de resultados por causa das apostas desportivas volta a dar que falar em Portugal. Esta quarta-feira o Freamunde da II Liga vê-se envolvido numa história que já obrigou o clube dos Capões a emitir um comunicado, como confirmou o presidente Miguel Pacheco» («Miguel Pacheco afasta Freamunde de apostas fantasmas», Mário Aleixo, RTP, 6.08.2014, 12h52).

      Capões são a equipa de futebol do Sport Clube de Freamunde, mas o dicionário da Porto Editora no capão só vê o «galo ou cavalo castrado». Pouco e mal, pois não é um galo qualquer: é o galo que foi castrado entre o terceiro e o quarto mês de vida e que passou os restantes meses do ano ao ar livre a comer só produtos naturais. (Capão, galo castrado, e capão, mato no Brasil, são nomes homeotrópicos — adjectivo que a Porto Editora também não acolhe —, isto é, provêm de dois étimos diferentes em correspondência com as suas significações também diferentes.)

 

[Texto 12 235]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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03
Nov 19
03
Nov 19

Léxico: «Nhúngues»

Era bom, era

 

      «A maior parte do tempo estive com os Nhúngues, na província de Tete, que são um povo de pastores seminómadas, com alguma agricultura de subsistência, numa zona quente e seca. O seu idioma, o nhúngue, é uma das línguas reconhecidas como línguas nacionais», escreveu um missionário comboniano. Também se pode dizer, e é mais conforme à nossa língua, niúngue. O dicionário da Porto Editora diz-nos muito pouco sobre este povo: «ETNOGRAFIA grupo de povos centrados em Tete e na bacia inferior do Zambeze, em Moçambique ver Niúngues».

 

[Texto 12 234]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | favorito
02
Nov 19
02
Nov 19

Léxico: «volante»

Visita de estudo a Coimbra

 

      Se a Porto Editora visitasse o Museu Nacional de Machado de Castro, em Coimbra, e se detivesse uns segundos à frente do Tríptico da Paixão de Cristo, leria que a obra foi feita por encomenda de D. Manuel I e que «Quentin Metsys executou em Antuérpia, entre 1514 e 1517, o tríptico de que se conservam os volantes. Estando o tríptico fechado, o observador deparava com a Anunciação – primeiro momento da vida terrena de Cristo – em grisalha, em tons de branco, cinza e rosa. Das cenas que encerram este ciclo falava o interior: ao centro, o Calvário; aos lados, a humilhação infligida pelos romanos (Flagelação) e pelos judeus (Ecce Homo). Os temas e as dimensões das figuras, a posição da cabeça e das mãos da Virgem, conservada em fragmento, parecem autorizar a restituição conjetural do Calvário». Não é apenas desta acepção de volante que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora está a precisar — talvez do triplo das seis que regista agora.

 

[Texto 12 233]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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01
Nov 19
01
Nov 19

Vinténio e centenário

O raro e o dispensável

 

      Os jornalistas, e sobretudo os do desporto, são pródigos em parvoíces, como se sabe. Ultimamente andam a falar do «golo centenário» de não sei quem. Golo centenário... Não fosse a igual impossibilidade, só um galo centenário. Não se enxergam, é só isso. A propósito de centenário, há dias vi pela primeira vez fora dos dicionários a palavra vinténio: «De vinténio para vinténio, cada geração reage contra a geração antecedente, e pela leitura das revistas mais novas poderemos inferir quais os escritores que efectivamente exerceram preceptorado ou mestrado» (A Literatura de José Régio, Álvaro Ribeiro. Lisboa: Sociedade de Expansão Cultural, 1969, p. 91).

 

[Texto 12 232]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | favorito
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