03
Dez 19

Erros imperdoáveis: «há | à»

O impensável acontece todos os dias

 

      Esta ainda está fresquinha: «Há nove anos um grupo de crianças dinamarquesas teve um acidente no mar durante uma visita de estudo. Sete dessas crianças foram declaradas clinicamente mortas por hipotermia, mas as sete voltaram há vida algumas horas depois» («“Morreram” nos fiordes mas acabaram por acordar. BBC juntou-os nove anos depois», Dora Pires, TSF, 3.12.2019, 18h16).

      Nos últimos tempos, um professor também me tem mostrado este mesmo erro em textos de colegas. Isto são problemas da infância, de certeza. Como é que um jornalista confunde preposições com verbos? Como é que um professor, seja qual for a disciplina que leccione, dá o mesmo erro? Não há perdão para eles nem escapatória para nós.

 

[Texto 12 398]

Helder Guégués às 18:45 | comentar | favorito
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Léxico: «apagão»

Bem visto

 

      «Durante quase 190 horas seguidas (entre os dias 16 e 23), o regime dos ayatollahs cometeu a proeza de desligar a internet em praticamente todo o país, para impedir as comunicações entre manifestantes e a divulgação de imagens da repressão e dos tumultos que destruíram, por exemplo, 900 dependências bancárias. [...] Uma década depois do “movimento verde” e após as revoltas contra o custo de vida em 2017, este apagão teve como objetivo impedir uma escalada dos protestos e a mobilização das classes médias e desfavorecidas, que sentem como nunca o agravar da crise económica resultante das sanções internacionais» («Revoltas sem rede», Filipe Fialho, Visão, 28.11.2019, p. 66).

      Não é a primeira vez que vejo a palavra apagão usada para referir o corte provisório do acesso à internet e não apenas, como se vê em todos os nossos dicionários, o corte do fornecimento de electricidade. Vamos lá tirar as palas.

 

[Texto 12 397]

Helder Guégués às 16:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «certo»

O que não levanta dúvidas: ✓

 

      «Trago-lhe aqui os acordos assinados naquela época e pode meter um certo em tudo: está tudo feito!» («“Tenho tido vários apetites para meter ações populares”», Mafalda Anjos, Visão, 28.11.2019, p. 54). Não temos usado toda a vida, e todos nós, a palavra neste sentido? Então porque não aparece em nenhum dos nossos dicionários? Eu não percebo esta gente.

 

[Texto 12 396]

Helder Guégués às 16:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Implantação | implementação»

As trapalhadas do costume

 

   «SIC engana-se e assinala Implantação da República a 1 de dezembro. Internet não perdoa» (Correio da Manhã, 1.12.2019, 16h10). Pois, e não temos já visto confundirem «implantação» com «implementação»? O caso mais recente foi este: «O 25 de Novembro, que há 44 anos evitou a implementação em Portugal de um regime iliberal, regressou» («A História é uma arma», Sara Belo Luís, Visão, 28.11.2019, p. 22). Se se preocupassem mesmo com a forma como escrevem, se fossem mesmo inteligentes, nenhum jornalista usava a palavra «implementação» nem o verbo «implementar», alienígenas e de significação dúbia.

 

[Texto 12 395]

Helder Guégués às 16:00 | comentar | favorito
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Léxico: «serodiscordante»

Nova e explicada

 

    «Na MAC [Maternidade Alfredo da Costa], atende-se não só mulheres infectadas pelo VIH, como “mulheres negativas com maridos positivos” — os chamados “casais serodiscordantes”. A especialista [Cristina Guerreiro] conta que em alguns casos mais delicados ainda é ela que, em contexto de consulta, conta aos homens que as suas companheiras grávidas vivem com VIH. Ainda existe receio da reacção» («Prevenção da transmissão do VIH na gravidez é uma “história de sucesso”», Aline Flor, Público, 1.12.2019, p. 17).

 

[Texto 12 394]

Helder Guégués às 09:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «índex»

Depende do país, querem ver?

 

      «Lê-se mais que nunca, possivelmente. Sobretudo SMS, legendas, títulos, palavras soltas. Livros inteiros, páginas de texto, sequencialmente, do principio [sic] ao fim, provavelmente, lê-se, cada vez menos. Os livros hoje têm muitas entradas: índices, indexes, capítulos, subcapítulos, títulos, legendas, tabelas, imagens, gráficos, etc. O texto de hoje é um texto imagético, que lemos como vemos uma imagem. Hoje é o mundo que é feito imagem, uma marca da nossa época como comentou Martin Heidegger, que evidentemente levou a escrita consigo» («O fim do alfabeto», Fernando Ilharco, Jornal de Negócios, 29.11.2019, p. 27).

      Os leitores vão lá saber a diferença entre «índice» e «índex»... Seja como for, não vamos agora preocupar-nos com essa questão, mas sim com o plural de índex. Fernando Ilharco, professor universitário, tem aqui 0 valores. O dicionário da Porto Editora afiança que se trata de um «nome masculino de 2 números». O VOLP da Academia Brasileira de Letras, entre outros, ensina que é «índices». É a minha opinião, e já aqui expliquei de forma bem singela porquê.

 

[Texto 12 393]

Helder Guégués às 08:45 | comentar | favorito
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Léxico: «pasmo»

Também adjectivo

 

      «Fiquei um bocado pasmo, porque não tinha nenhuma ligação ao Bloco de Esquerda (BE)», diz José Sá Fernandes sobre o convite que, em 2005, o Bloco de Esquerda lhe fez para ser seu candidato às autárquicas («“Tenho tido vários apetites para meter ações populares”», Mafalda Anjos, Visão, 28.11.2019, p. 54).

    Na Porto Editora, ninguém fica pasmo, tomado de espanto. Espantoso. Pasmoso.

 

[Texto 12 392]

Helder Guégués às 08:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «trifolau»

Em rigor, não

 

      «Em 2007 o cozinheiro nepalês Tanka Sapkota passou duas semanas em Itália em casa de um “caçador” de trufas ou, em italiano, um “trifolau”. Um dia aventurou-se sozinho com um dos cães farejadores do anfitrião e deu por si no sopé de um monte sem conseguir regressar» («Ouro branco», Augusto Freitas de Sousa, Jornal de Negócios, 29.11.2019, p. 22).

      Em rigor, não é em italiano, mas em piemontês. Tanto assim é que não o encontrei em nenhum dicionário de italiano. Não custa nada ser rigoroso.

 

[Texto 12 391]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | favorito
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03
Dez 19

Léxico: «anticoncorrência»

Metade está feito

 

      «O projeto da moeda digital do Facebook anunciado por Mark Zuckerberg, um dos fundadores da rede social, em junho deste ano, está a ser escrutinado pelas entidades que vigiam a concorrência na União Europeia, segundo a Bloomberg. Os reguladores estão neste momento a “investigar um comportamento potencial de anticoncorrência” da Libra» («Bruxelas investiga Libra do Facebook. Moeda apresenta perigos à concorrência», Gonçalo Almeida, Jornal de Negócios, 20.08.2019, 19h26).

    Pois claro: concorrência e anticoncorrência. Mas os nossos dicionários apenas registam o adjectivo «anticoncorrencial».

 

[Texto 12 390]

Helder Guégués às 08:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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