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Dez 19

Léxico: «semieterno»

Este teve início

 

      «À escala cósmica, tanto quanto sabemos, o nosso Universo é semieterno, isto é, teve um início, há 13,7 mil milhões de anos, mas não terá fim» (Pipocas com Telemóvel e Outras Histórias de Falsa Ciência, David Marçal e Carlos Fiolhais. Lisboa: Gradiva, 2017, 7.ª ed., p. 56).

      Não, Porto Editora, sempiterno é outra coisa, e sabes bem o que significa: «que não teve princípio nem há-de ter fim; que dura muito».

 

[Texto 12 529]

Helder Guégués às 15:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «meta-análise»

É mais completa

 

      «Uma meta-análise é a análise conjunta de vários ensaios clínicos independentes, de modo a obter uma amostra combinada maior» (Pipocas com Telemóvel e Outras Histórias de Falsa Ciência, David Marçal e Carlos Fiolhais. Lisboa: Gradiva, 2017, 7.ª ed., p. 96).

      A vantagem desta definição de meta-análise em relação à do dicionário da Porto Editora é explicitar-se o objectivo, o fim dessa análise. Lê-se naquele dicionário: «síntese de vários estudos usando métodos estatísticos para extrair, seleccionar e combinar os resultados de pesquisas independentes mas relacionadas; metaestudo».

 

[Texto 12 528]

Helder Guégués às 15:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «betulina»

Está no VOLP da ABL

 

      «São menos de três centímetros de alcatrão de bétula mastigado por uma mulher há muito tempo, mas foi o suficiente para retirar um genoma humano completo da amostra encontrada no Sul da Dinamarca. [...] “O uso medicinal também tem sido sugerido, uma vez que um dos principais constituintes da bétula, a betulina, possui propriedades anti-sépticas”, referem ainda os cientistas da Universidade de Copenhaga, adiantando que essa hipótese é apoiada por um conjunto de “provas etnográficas que sugerem que a bétula era usada como anti-séptico natural para prevenir e tratar doenças dentárias e outros problemas médicos”» («“Chiclete” com 5700 anos revela o ADN de uma mulher», Andrea Cunha Freitas, Público, 20.12.2019, p. 37).

      É verdade que habitualmente se vê «alcatrão de bétula», mas, ao que creio, é somente pelo aspecto, o que nos deveria levar a estender o significado de «alcatrão».

 

[Texto 12 527]

Helder Guégués às 15:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «quitute»

A tal monomania

 

      «Three Bones Restaurant & Lounge. Os fãs da gastronomia angolana podem agora rumar ao coração de Lisboa para saciar os seus desejos por quitaba, quitutes, funge, moamba de gimguba (30,90€), muqueca de marismo (24,90€), calulu de peixe seco e fresco (36€) e sumo natural de múcua» («A provar este mês», Rita Caetano e Filipa Basílio da Silva, Saber Viver, Setembro de 2019, p. 126).

      Lá se revela, no dicionário da Porto Editora, a tal monomania do brasileirismo, erro que mancha tanto como qualquer outro. Gostava de falar com a pessoa que fez este lindo serviço... Bem, quitute: «Brasil iguaria delicada; pitéu; paparico». Pois, não: quitute é termo usado tanto em Angola como no Brasil. Não é em vão que vem do quimbundo. (Para as jornalistas: acho que compreendem que é e só podia ser «ginguba», ou não? Podia ser «funge», mas é «funje». Há saber viver e há saber escrever.)

 

[Texto 12 526]

Helder Guégués às 14:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «tacógrafo | tacográfico»

Isso é muito pouco

 

      Tacógrafo: «aparelho que serve para registar velocidades». Também, Porto Editora, também para isso. Dou-te 2 valores em 10. Explico porquê, claro: entre os dados recolhidos pelo tacógrafo, um aparelho instalado a bordo de certos veículos rodoviários, que pode ser analógico ou digital, estão os tempos de condução, os períodos de descanso, as distâncias percorridas e as velocidades praticadas. Os dados são registados num cartão tacográfico (adjectivo que não registas), que pode ser de papel ou digital.

 

[Texto 12 525]

Helder Guégués às 14:30 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Léxico: «gemónias»

Um estranho caso

 

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora também tem os seus segredos, os seus cadáveres no armário. Por exemplo, pesquisamos por «Gemínidas» (que foi a palavra escolhida pela tradutora para verter o inglês Geminid) e obtemos este resultado: «Queria pesquisar gemónias?» Seguimos, por mero desfastio, a sugestão, e onde vamos desembocar? Para espanto nosso, aqui: «A palavra pesquisada não foi encontrada neste dicionário. Verifique se a palavra ou expressão introduzidas estão bem escritas e pesquise novamente.» A história não acaba aqui: como eu sei que houve já hesitações quanto à acentuação da palavra, pesquisei então por «gemonias». Magia e estranheza: aparece, não o verbete gemonias (o prometido), mas gemónias (o correcto e negado): «1. lugar onde se expunham os cadáveres dos supliciados romanos; 2. figurado escárnio público; 3. figurado extremo ultraje; 4. figurado desgraça infamante». Lugar, sim, mas mais especificamente era a escadaria em Roma onde se expunham os cadáveres dos criminosos sentenciados, atirando-se em seguida ao Tibre. O que aconteceu no dicionário? Isto: o vocábulo terá, alguma vez, estado dicionarizado como «Gemonias». Este dicionário tem outros segredos deste género, que irei revelando conforme me for lembrando deles.

 [Texto 12 524]

Helder Guégués às 11:15 | comentar | favorito

Léxico: «embaladeira»

Não serve

 

      «O desenho deste Lexus UX 250h é jovem, e apela ao desafio da selva urbana. Com proteções plásticas nas embaladeiras das rodas, transmite a imagem de um carro pronto para o piso que der e vier» («Lexus UX 250h — Silhueta jovem e corpo de luxo», José Carlos Silva, Rádio Renascença, 20.12.2019, 18h22).

      O conceito de embaladeira (sugerido por mim, que também sugeri cava da roda) no dicionário da Porto Editora não abrange estas: «cada uma das placas, geralmente metálicas, que asseguram a protecção da zona lateral da carroceria, sob o limiar da porta de um automóvel». Não vamos deixá-lo incompleto, não é?

 

[Texto 12 523]

Helder Guégués às 10:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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26
Dez 19

Léxico: «encefalógrafo»

Pois, também não

 

      E encefalógrafo, porque não o acolhes, Porto Editora? Só espero que Hans Berger (1873–1941) não tivesse posto fim aos seus dias por causa disso.

 

[Texto 12 522]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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