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Linguagista

Léxico: «camarinha | imediato | quarto»

Uns acertos necessários

 

      «Estamos na camarinha do comandante [o capitão-de-fragata Maurício Camilo] da Sagres. A camarinha é uma zona que está dividida em 3 áreas: o gabinete (o escritório onde estamos), a sala de refeições do comandante[,] que é utilizada apenas em ocasiões especiais, normalmente quando [o] navio está atracado, e o camarote que é onde eu descanso quando posso» («Navio-Escola Sagres: uma volta ao mundo para “medir a saúde do oceano”», Rui Silva, TSF, 2.01.2020, 8h00).

      Sendo assim, a definição de camarinha no dicionário da Porto Editora não está correcta: «antiquado pequena câmara à popa dos navios antigos». Sobre não haver ali segundo-comandante, responde o comandante do navio-escola: «Há um 2.º comandante [capitão-tenente Sá Granja] que nas marinhas se chama o oficial imediato e que funciona no caso de eu ter algum impedimento como comandante do navio. É quem me substitui.» Sendo assim, a definição de imediato no dicionário da Porto Editora está incompleta: «oficial da marinha de guerra ou da marinha mercante de categoria imediatamente inferior à do comandante e que tem a seu cargo todos os serviços de bordo e a polícia geral do navio». «O navio», diz o capitão-de-fragata, «navega as 24 horas do dia. Durante esse período temos sempre um conjunto de pessoas divididas naquilo a que chamamos os quartos, que são períodos de 4 horas.» Não vejo esta específica acepção de quarto naquele dicionário.

 

[Texto 12 579]

«O facto de»

Curioso...

 

      «Todos diferentes, temos em comum [o facto de] cultivarmos vinhas próprias e fazermos vinhos com uma viticultura biológica provenientes de terras ou regiões ligadas às nossas origens, com vinificações naturais de baixa intervenção. Alguns dos vinhos não têm adição de sulfitos, a maioria deles leva doses baixas. Trabalhar de modo natural e artesanal não é um fim mas sim um meio para evidenciar a identidade do território de origem. Vivemos todos na região vitícola de Lisboa e o que nos une é gostarmos de vinho e estarmos a fazer um caminho conjunto na produção. Partilhamos material, ajudamo-nos no campo e na adega, somos críticos e francos sobre os vinhos uns dos outros, entre viagens pela Europa do vinho e boas gargalhadas» («Qualquer coisa se pode escrever, mas nem tudo o que se escreve tem fundamento», Público, 28.12.2019, 3h43), escreve um grupo de produtores de vinho em resposta a um artigo, que consideraram insultuoso, de Pedro Garcias, jornalista e produtor de vinhos no Douro. Reparem: os autores, produtores de vinho, omitiram — e bem — a ominosa muleta «o facto de», que alguém no Público, certamente um jornalista, considerou imprescindível. Curioso...

 

[Texto 12 578]

 

É esta igualdade que querem?

Capitã, juíza, procuradora, poetisa...

 

       «A Capitão Edna Almeida tem 29 anos e a adjunta, a Alferes Sandra Pacheco, 24. Estão, desde o início de dezembro (do ano passado 2019) à frente do Destacamento Territorial de Moncorvo que comporta ainda os concelhos de Freixo de Espada à Cinta e Alfândega da Fé. As duas comandam 90 homens. [...]  A capitão e não capitã (é a designação para este posto da GNR, tanto para homens com para mulheres) Edna Almeida já este noutros comandos na zona de Lisboa, e agora aos 29 anos pediu para vir para perto da terra onde nasceu (Macedo de Cavaleiros)» («As mulheres que comandam 90 homens na GNR de Moncorvo», Afonso de Sousa, TSF, 1.01.2020, 15h23).

     As mulheres têm lutado muito, ao longo dos tempos, pela igualdade — e, neste caso, os homens anuem ou concedem de boamente: é sempre, homem ou mulher, «capitão». Irónico, não é? Se eu fosse mulher, queria ser capitã.

 

[Texto 12 577]

AO90 e sua aplicação

Nem cinquenta anos chegarão

 

      «Nada sobre a cor do cabelo, da pele ou dos olhos, tão-pouco sobre a forma dos seios, lábios ou mamilos, a dimensão das coxas ou a textura dos pêlos púbicos, nem uma palavra sobre os braços estarem tonificados, nem sobre o tamanho da cintura, ou sobre ela depilar as axilas e pintar as unhas dos pés» (O Homem Que Via Tudo, Deborah Levy. Tradução de Alda Rodrigues. Lisboa: Relógio D’Água, 2019, p. 33).

      Já o disse mais de uma vez: nem dentro de cinquenta anos as regras do Acordo Ortográfico de 1990 estarão totalmente apreendidas. E, no caso, temos a agravante de o texto ter passado pelos olhos e pelas mãos de uma tradutora e de um revisor. Nem assim. Com o AO90, é «pelo/pelos». A meu ver, em vez de tentames ineptos, precisamos é de voltar à ortografia de sempre — com os erros de sempre, mas muito menos e menos graves.

 

[Texto 12 575]

Léxico: «armósia»

As falhas de sempre

 

       «Deitado de costas, via um ramo de urtigas em flor na secretária mexicana verde de Jennifer ao canto do quarto (feita de armósia ou outro material que soava sinistro), além do passaporte dela e de um monte de fotografias a preto-e-branco» (O Homem Que Via Tudo, Deborah Levy. Tradução de Alda Rodrigues. Lisboa: Relógio D’Água, 2019, p. 21).

      No dicionário da Porto Editora não encontramos armósia. Está em dois bilingues, mas isso de nada serve. Quanto à frase, a tradutora devia saber que traduzir, neste contexto, «or something that sounded sinister» como o fez não apenas não tem nada de português, como até, ao que me parece, incorre num erro de interpretação.

 

[Texto 12 574]

Léxico: «ilangue-ilangue | são-tomense»

Não é nada disso

 

      «Quando Jennifer finalmente saía da sauna, por vezes uma hora depois, nua e hidratada com aquela poção caseira de ilangue-ilangue, era frequente torturar-me, negando-me afeto, preparando chá de camomila e barrando manteiga numa bolacha de pão crocante, antes de atacar» (O Homem Que Via Tudo, Deborah Levy. Tradução de Alda Rodrigues. Lisboa: Relógio D’Água, 2019, p. 19).

      O dicionário da Porto Editora garante que é termo usado em São Tomé e Príncipe, e na nota etimológica indica que vem do «forro Ylang-Ylang, proveniente do malaio». Contudo, se consultarmos qualquer dicionário de língua inglesa, o que lemos é que tem dupla grafia, ylang-ylang e ilang-ilang, e que provém do tagalo. Mais: no Dicionário Livre Santome/Português, de Gabriel Antunes de Araujo (São Paulo: Hedra, 2013), lê-se que em são-tomense (acepção que a Porto Editora ignora, essa é que é essa) se escreve ilangi-ilangi. Em suma, qualquer referência a São Tomé no verbete deste vocábulo não faz sentido.

 

 [Texto 12 573]

Léxico: «em via de | a bel-prazer»

Para onde nos viramos?

 

      «Isto é, em 3 anos inverteu-se a fórmula demográfica; transformou-se uma população decadente em via de extinção, num povo florescente no qual a taxa da natalidade excede a da maioria dos países europeus» (Memórias e Trabalhos da Minha Vida, Vol. 1, Norton de Matos. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2005, p. 211).

      Está bem que a língua muda, evolui, mas não podem agora subverter tudo: o dicionário da Porto Editora apenas regista «estar em vias de», que, se actualmente é a mais empregada, sempre foi condenada. Sempre os estudiosos defenderam o singular, em via de. Isso mesmo, bem visto: o verbo está ali a mais — a expressão é tão-só em via de. A Porto Editora erra aqui como erra ao dicionarizar «a seu bel-prazer». A expressão é a bel-prazer (que os troca-tintas escrevem sem hífen). Se nem sequer nos dicionários está correcto, para onde nos viramos?

 

[Texto 12 572]