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Linguagista

Léxico: «judeu | gói»

Uma definição vaga ou embrulhada

 

      Todos sabemos, ou julgamos saber, o que significa a palavra «judeu». Saberemos mesmo? Para o dicionário da Porto Editora, relevantes para o caso, são duas acepções: «RELIGIÃO indivíduo que professa o judaísmo» e «indivíduo que pertence aos Judeus». Imagino que pudessem fundir-se, para termos apenas uma. Tal como se apresenta, não é nem muito verdadeira nem muito útil. A segunda acepção é até, neste contexto, redundante. E que significa, ao certo, «pertencer aos Judeus»? E, contudo, será a única que, modificada, melhorada, servirá o conceito, porque a pertença, neste caso, será mais nacional do que religiosa.

    Quase a propósito: ao contrário de muitos outros dicionários, o dicionário de Porto Editora não acolhe o vocábulo gói, e não é assim tão raro encontrá-lo em textos em língua portuguesa sobre assuntos judaicos.

 

[Texto 12 587]

Léxico: «assistencialismo | assistencialista»

Só depreciativo? Não

 

      «A decisão de juntar os dois fundos visa “a uniformização das regras aplicáveis aos sistemas de garantia de depósitos [que] promove uma verdadeira mutualização dos riscos e uma homogénea proteção dos depósitos, o que se traduz numa maior eficácia do sistema”, segundo o diploma. Mas há mais justificações: “A presente transferência permite também separar a função de garantia de depósitos da vertente assistencialista, que atualmente é também prosseguida pelo FGCAM, a qual tem natureza e objetivos diversos da primeira, e que, para uma adequada conjugação com o atual enquadramento jurídico a nível europeu, deve ser desempenhada de forma autónoma dos entes públicos”» («Fundo das caixas agrícolas deixa de proteger depósitos, mas antes transfere €214 milhões», Diogo Cavaleiro, Expresso, 2.01.2020, 11h39).

      Parece-me óbvio que os termos assistencialismo e assistencialista não se usam somente, como se lê no dicionário da Porto Editora, em sentido depreciativo. Para rever.

 

[Texto 12 585]

Léxico: «psico-história»

Como pode ser?

 

      «Na trama desta série, o papel central não é desempenhado por um personagem específico (estes vão entrando e saindo de cena ao longo de vários séculos) mas por uma ciência, a psicohistória. [...] A chave desse desenvolvimento hipotético é a lei dos grandes números: como é dito a certa altura no primeiro volume de Fundação, “a psicohistória não lidava com o ser humano, mas com as massas humanas» («Isaac Asimov e a ciência social», Alexandre Abreu, Expresso, 2.01.2020, 11h12).

      Espantar propriamente já não me espanto, mas fico sempre a pensar como é que alguém, português e meu contemporâneo, escreve desta maneira. Para que conste, é licenciado em Economia pelo ISEG e doutor em Economia pela Universidade de Londres.

 

[Texto 12 584]

Léxico: «geóglifo»

Colosso de Rodes?

 

      «“Homem de Marree” [Marree Man] é um desenho gravado na terra em solo australiano. Desde que foi detetado por um piloto, em 1998, o geoglifo tem gerado mistério e especulação, mas a NASA acaba de divulgar uma fotografia da inscrição situada no sul da Austrália» («“Marree Man”. NASA divulga fotografia de geoglifo mistério na Austrália», Catarina Maldonado Vasconcelos, TSF, 2.01.2020, 15h07).

      Pode haver dicionários que acolham o termo com esta grafia, mas eu nunca vi. A questão, agora, é outra: gostava que o dicionário da Porto Editora fizesse um pequeno acrescento na definição de geóglifo, que seria este: «figura bidimensional de grandes dimensões, feita geralmente com rochas de cor diferente ou com corte de vegetação, cuja perceção só é possível a partir do ar ou de um plano elevado». Tal como está, pode induzir em erro.

 

[Texto 12 583]

Léxico: «qualitatividade | quantitatividade»

E a filosofia?

 

   Em filosofia usam-se os conceitos de quantitatividade e qualitatividade, termos que não vejo em nenhum dicionário geral da língua portuguesa. O último, qualitatividade, li-o agora mesmo numa obra de John R. Searle — claro que a tradutora teve de verter o inglês qualitativity para «qualitatividade».

 

[Texto 12 582]

Léxico: «esquerda alta | esquerda baixa»

No teatro

 

      Na quarta-feira, Alexandra Lencastre, convidada do programa Prova Oral, de Fernando Alvim, na Antena 3, prometeu explicar um dia o que significam esquerda alta e esquerda baixa, «que muitos actores não sabem». Ora, já aqui falámos destas expressões em Fevereiro de 2015 — mas entretanto a Porto Editora ainda não as dicionarizou.

 

[Texto 12 581]

Léxico: «choradinho»

Não a vejo lá

 

      «Por aí, não há nenhum escândalo, e o próprio choradinho dos 300 mil euros que a Câmara de Matosinhos gastou em arte pública me parece duvidoso. Se a câmara tiver orçamento para tal e contas equilibradas, não está obrigada a gastar todo o dinheiro em habitação social» («Pedro Cabrita Reis em Leça da Palmeira», João Miguel Tavares, Público, 2.01.2020, p. 40).

      Também não vejo esta acepção de choradinho no dicionário da Porto Editora.

 

[Texto 12 580]