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Linguagista

Léxico: «ginsém»

Então comparemos

 

      «— Se, como diz, a sua irmã está prestes a dar à luz o primeiro filho, recomendo caldo de galinha velha, no qual deve ser fervida uma raiz de ginsém — aconselhou o Dr. Tseng» (As Três Filhas da Senhora Liang, Pearl S. Buck. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues. Lisboa: Livros do Brasil, 2003, p. 160). A Porto Editora tem outra receita: em vez de ginsém, leva ginseng, ou, se o paciente/falante persistir nessa maluquice rematada de querer adequar a grafia ao nosso código de escrita, até tem jinsão. Não, ginsém não conhece. Mais: alguém que consulte o verbete de ginseng não saberá jamais que o dicionário também acolhe jinsão. Enfim, erros de décadas. O VOLP da Academia Brasileira de Letras regista os três. Agora a pergunta que se impõe: será que «jinsão» é mesmo, ou foi, mais usado entre nós do que «ginsém»? É, porém, significativo que, ao pesquisarmos a palavra ginsém, o dicionário nos responda com esta pergunta: «Queria pesquisar ginseng?» Parece-me tão natural que de ginseng tiremos ginsém como de Bahrein aportuguesemos para Barém.

 

[Texto 12 596]

Léxico: «cortante | aristo»

Basta ir a uma loja

 

      Fui a uma loja Ponto das Artes e, entre os artigos que sempre nos surpreendem (uma borracha eléctrica!), encontrámos artigos que existem há muito e que, todavia, ainda não chegaram aos dicionários. Sim, como o aristo, que a Porto Editora, vá-se lá saber porquê, se recusa a dicionarizar. Desta vez, foram cortantes de metal, para pastas moldáveis. Vamos a qualquer loja de artigos de belas-artes, perguntamos se têm cortantes e a pessoa que nos atende sabe do que se trata. Ora, para a Porto Editora, cortante é somente adjectivo.

 

[Texto 12 595]

Ah, a «Wikipédia»...

Vá, fiem-se

 

      Agora, diz-se, sabe-se tudo num instante e nada escapa à atenção hipervigilante do cidadão, que também é produtor de conteúdos. Não é bem assim: Beto Vidigal, antigo futebolista angolano que passou por vários clubes portugueses, morreu no início de Dezembro de 2019, e para a Wikipédia é como se continuasse vivo. Passou entretanto um mês. Grande rigor, enorme atenção...

 

[Texto 12 594]

Léxico: «telecabina»

Precisamos dele

 

      Ou, enfim, alguém precisou, e o dicionário da Porto Editora ignora-o: «O Bloco de Esquerda (BE) quer saber se o Plano Nacional de Investimentos (PNI) 2030 inclui o projecto dos teleféricos de acesso à Torre, na serra da Estrela, e questionou o Governo sobre essa matéria, anunciou o partido. [...] Os autarcas defendem a aposta no projecto das telecabinas para resolver a questão de acessibilidade e de segurança decorrente da neve e tratamento que lhe é dada» («BE questiona Governo sobre teleféricos de acesso à torre da serra da Estrela», Público, 4.01.2020, p. 21).

 

[Texto 12 592]

Tribos norte-americanas

Índios, indígenas, nativos

 

      No dicionário da Porto Editora, os Apaches são o «povo indígena, nómada, que vive no Sudoeste dos Estados Unidos da América»; quanto aos Comanches, são «índios norte-americanos que habitam actualmente uma reserva de Oclaoma, um dos estados da América do Norte»; já os Navajos são o «povo nativo da América do Norte, de origem atapasca, que vive actualmente no Novo México e no Arizona»; os Iroqueses, esses são uma «tribo americana do Sul do Canadá», informa-nos aquele dicionário, embora, na realidade, também vivessem no Nordeste dos Estados Unidos. Portanto, temos aqui uma escusada diversidade de formas para definir o que é igual.

 

[Texto 12 591]

Léxico: «Perseidas | Úrsidas | meteorónimo | asterónimo»

Vamos pôr ordem nisto

 

      «Perseidas, a famosa chuva de meteoros de verão, visita-nos mais uma vez este ano, entre 12 e 13 de agosto. É a chuva de meteoros mais espetacular e ocorre anualmente. Popularmente conhecidas como “Lágrimas de S. Lourenço” por acontecerem na altura em que este santo é celebrado, as Perseidas, que começam a 16 de julho, têm o seu pico de atividade de 11 a 13 de agosto. Nesta altura, e à semelhança do que acontece com as Quadrântidas, deverá ser possível ver umas 110 estrelas a riscar o céu numa hora. [...] A chuva de meteoros Úrsidas é vista do Hemisfério Norte e acontece em decorrência dos restos do cometa Tuttle. O evento ocorre entre os dias 17 e 25 de dezembro, sendo mais intenso na noite do dia 21 para o dia 22» («O que nos guarda o céu de 2020? Fenómenos astronómicos para ver este ano», Inês Rocha, Rádio Renascença, 3.01.2020, 19h23).

      São três meteorónimos (vocábulo que a Porto Editora ignora, como ignora asterónimo), e cada um deles tem sorte diferente no dicionário da Porto Editora: não regista Perseidas, acolhe Úrsidas, mas noutro sentido, e só se lembrou de Quadrântidas.

 

[Texto 12 590]

Léxico: «penumbral»

Eclipse lexical

 

      «O eclipse penumbral ocorre quando a lua passa pela sombra parcial da Terra, o que deixa o satélite menos brilhante. “Nunca vemos a mancha escura da falta de Sol atingir a lua. A lua está sempre iluminada pelo Sol, não com o brilho que normalmente tem. Há apenas uma parte do Sol a iluminar a lua, porque a Terra está no meio do caminho”, explica o responsável do OAL [o astrofísico Rui Agostinho]» («O que nos guarda o céu de 2020? Fenómenos astronómicos para ver este ano», Inês Rocha, Rádio Renascença, 3.01.2020, 19h23).

      Três faltas no dicionário da Porto Editora (e noutros): penumbral e, já agora, eclipse anular e eclipse penumbral. (A lógica de Inês Rocha é imbatível: Lua é com minúscula e Sol com maiúscula.)

 

[Texto 12 589]

Tradução: «second-degree murder»

Especialistas em Direito Penal

 

      «Mollie Fitzgerald, atriz do filme “Capitão América”, foi acusada de homicídio em segundo grau por ter, alegadamente, esfaqueado a mãe até à morte» («Atriz do filme “Capitão América” acusada de matar a mãe», Correio da Manhã, 2.01.2020, 14h55).

      Não é só um problema de tradução, mas é sobretudo um problema de tradução. Já que se ocupam tanto da criminalidade e de criminosos de todos os tipos, desde o reles pilha-galinhas ao criminoso de alto coturno, esperava-se que no Correio da Manhã estivessem aptos a compreender que em Portugal o que escreveram não significa nada de nada.

 

[Texto 12 588]