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Linguagista

As intermitências do Acordo Ortográfico

É esse o problema

 

      O Expresso Curto de hoje, assinado por João Cândido da Silva, coordenador do Expresso Online, não foi à máquina corta-língua: há um «baptizado», uma «direcção», vários «directos» e «indirectos», um «actualmente», um «jacto» (o de Carlos Ghosn), vários «objectivos» (nenhum, infelizmente, parece ser o de assentarem a cabeça), um «nocturno» (que não é o de Chopin, nem ninguém aqui falou de Santana Lopes), «actuais», «respectivos», «perspectiva», «actualidade», «actuação»... Para alguns, escarninhos, isto mostra a liberdade de que se goza no Expresso; para mim, é meramente a demonstração da bandalheira ortográfica e linguística que ali reina e campeia no reino. Mas eu nem me devia queixar, não é?, afinal, nem sinais do tal acordo. (Parabéns, João Cândido da Silva.) Só que logo, amanhã, no futuro outros jornalistas do mesmíssimo Expresso voltam a seguir ineptamente a ortografia mutiladora do AO90. Esse é que é o problema.

 

[Texto 12 605]

Léxico: «rotação síncrona»

É bom saber

 

      «Uma face deste planeta [TOI 700 d] está sempre voltada para a sua estrela, como é o caso da Lua com a Terra, um fenómeno chamado de [sicrotação síncrona. Essa face estaria constantemente coberta de nuvens, de acordo com este modelo» («NASA anuncia descoberta de planeta do tamanho da Terra em zona considerada habitável», TSF, 7.01.2020, 08h08).

 

[Texto 12 604]

Léxico: «caranguejo-eremita»

Só o primo sápido

 

      «Sempre tivera a impressão que o violino de Eduardo era coisa viva, que tinha bicho dentro da casca de madeira, como se fosse um caranguejo-eremita» (Livrai-Nos do Mal, Miguel Miranda. Porto: Campo das Letras, 1999, p. 41).

      Nunca omitiria, num caso destes, a preposição: «impressão de que». Mas agora já é tarde (excepto se houver uma reedição). Para muitos brasileiros, a dúvida não é essa, mas sim se «impressão» tem um ou dois ss... Não estou aqui para isso, mas sim para dar voz a este pobre caranguejo-eremita (Calcinus sp.), que há-de dizer para a sua própria carapaça por que diacho só o primo caranguejo-azul (Callinectes sapidus) tem direito de admissão no dicionário da Porto Editora.  Ah, a vida dos crustáceos é tão dura...

 

[Texto 12 603]

Léxico: «electro»

Depende do laboratório

 

      «Quanto à quantidade de ouro encontrada nesta peça, está acima da média para as peças dos citas, refere-se no comunicado. Normalmente, eram feitas de electro (uma liga de ouro com prata) e a percentagem de ouro era de cerca de 30%» («Túmulo de mulheres guerreiras descoberto na Rússia», Teresa Sofia Serafim, Público, 6.02.2020, p. 24).

      É o que leio em vários sítios, mas o laboratório da Porto Editora parece que chegou a outra conclusão: «liga metálica, natural ou artificial, composta de ouro e prata, em proporções variáveis, utilizada na Antiguidade para o fabrico das primeiras moedas».

 

[Texto 12 602]

Léxico: «Citas»

Para nenhures

 

      «Num cemitério de Devitsa, uma povoação no Oeste da Rússia, foi encontrado um túmulo com esqueletos de quatro mulheres de três gerações diferentes e que terão vivido na segunda metade do século IV a.C. Além de serem citas — povo nómada que habitou vastas extensões de terra no Sul da Rússia, na Ucrânia e na Ásia Central desde o século IX a.C. até ao século IV d.C. —, a equipa de cientistas que as encontrou considera que eram amazonas, mulheres guerreiras que terão vivido nesta região durante este período de tempo» («Túmulo de mulheres guerreiras descoberto na Rússia», Teresa Sofia Serafim, Público, 6.02.2020, p. 24).

      Aqui, a Porto Editora poderá inspirar-se para melhorar a sua definição de cita — e dicionarizar Citas, porque, quando pesquisamos esta palavra, nos pergunta: «Será que quis dizer Citas?» Clicamos nesta e manda-nos para nenhures, um lugar que nunca apreciámos.

 

[Texto 12 601]

Singular: «cosmos | microcosmos | macrocosmos»

Parece-me óbvio

 

      «Formam um microcosmos estes nomes portugueses da Academia, cada um de sua proveniência, cada um a seu destino» (Um Coleccionador de Angústias, Fidelino de Figueiredo. Lisboa: Companhia Editora Nacional, 1951, p. 51).

      Querem ver que Fidelino de Figueiredo não conhecia a sua e nossa língua? Conhecia pois. O dicionário da Porto Editora é que está errado: se reconhece cosmo e cosmos (embora a primeira não saiba da segunda...), ignora a variante microcosmos. E, pergunto agora eu, se existem os singulares cosmos e microcosmos, não haverá também o singular macrocosmos? É nisto tudo que se tem de ponderar quando se dicionarizam os vocábulos.

 

[Texto 12 600]

Léxico: «cantonalismo»

Num bilingue, pois

 

   «Pouco tempo depois de Martínez Campos ter afogado definitivamente o cantonalismo, o Exército, com o rei liberal à frente, ganhou ânimo para vencer a autêntica guerra civil em que a terceira revolta carlista se havia transformado» (Revolução! Das Internacionais às Ditaduras Militares – Portugal e Espanha (1864-1926), José Luís Andrade. Alfragide: Casa das Letras, 2019, p. 77).

 

[Texto 12 599]

Léxico: «generatividade | discretitude»

Só uma? Essa é boa!

 

      As linguagens humanas têm uma capacidade especial designada generatividade, que é a capacidade de gerar um número infinito de novas frases. Ora, encontramos o termo, provindo do inglês generativity, em dezenas e dezenas de obras em língua portuguesa — mas não está no dicionário da Porto Editora. Como também não acolhe o termo discretitude, outra das características das linguagens humanas. E, contudo, regista o termo referente à terceira dessas características — composicionalidade.

 

[Texto 12 598]

Léxico: «mandachuva» (no AO90)

Mau, assim não

 

      Numa observação da Base XV, n.º 1, do Acordo Ortográfico de 1990, lê-se: «Certos compostos, em relação aos quais se perdeu, em certa medida, a noção de composição, grafam-se aglutinadamente: girassol, madressilva, mandachuva, pontapé, paraquedas, paraquedista, etc.» Podia ser mais claro? Não. Ainda assim, o dicionário da Porto Editora com o Acordo Ortográfico de 1990 tanto regista «mandachuva» como «manda-chuva». Assim não vamos longe.

 

[Texto 12 597]