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Linguagista

O português das moções partidárias

Grau zero

 

      Ouvi na rádio a notícia, mas o Rajah não parava de falar — «Senhor, conduzirr em Lisboa muto peligroso.» —, além de que este duplo erro na oralidade não se revelaria em toda a sua crueza: uma moção ao IX Congresso do Livre, assinada por cinco militantes, intitulada «Recuperar o LIVRE, resgatar a política», termina com este parágrafo antológico: «Hei-nos chegados a um ponto em que as causas defendidas pelo LIVRE parecem não conseguir sobrepor-se ao ruído constante provocado pelos faits divers mais estapafúrdios; em que o coletivo parece soçobrar numa desmedida exposição mediática do indivíduo; em que o partido se arrisca a ver a sua própria sobrevivência posta em causa. Assim sendo, no caso de a deputada não se dispuser [sic] a renunciar às suas funções, o LIVRE não tem outra alternativa a não ser retirar-lhe a confiança política.»

      E pronto, é isto, chegámos ao grau zero da ortografia. Atingido este ponto, só podemos melhorar.

 

[Texto 12 624]

Léxico: «electroencefalografista | neurofisiologista»

Entre muitos outros casos

 

      «O pai foi esse famoso e charmoso Dr. Vasconcelos, que começou como neurologista e psiquiatra e acabou fazendo carreira como electroencefalografista» (Da Costa – Praias e Montes da Caparica, Luísa Costa Gomes. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2018, p. 41). A Porto Editora pensa que as electroencefalografias se fazem sozinhas. Aliás, também acha que existe neurofisiologia sem neurofisiologistas. Quantos casos não haverá assim nos dicionários... Paulatinamente, de todos aqui falarei.

 

[Texto 12 623]

Léxico: «Quaternário | geocronologia»

Porque sou adepto da geocronologia

 

      Quaternário «[com maiúscula] GEOLOGIA sistema ou período geológico actual», lê-se no dicionário da Porto Editora. Actual, actual... À minha volta vejo pessoas que têm quase o dobro da minha idade e eu tenho o décuplo da idade de outras. «Outro factor que contribuiu para a descrição das novas espécies de aves foi o conhecimento das ligações territoriais no Quaternário (período geológico que se iniciou há 2,58 milhões de anos) e da profundidade do mar que circunda as ilhas» («Descobertas dez novas aves canoras em ilhas pouco exploradas da Indonésia», Teresa Sofia Serafim, Público, 10.01.2020, p. 38). Também acho, mas já me dirão, que os nossos dicionários definem mal o termo «geocronologia».

 

[Texto 12 621]

Léxico: «imunopeptidómica | peptidómico»

Pensem nisto

 

      «“O meu trabalho consistiu na identificação das moléculas que são apresentadas pelo MHC”, explica Paulo Bettencourt ao PÚBLICO, adiantando que a tarefa foi possível com o recurso à imunopeptidómica, uma combinação de espectrometria de massa e bioinformática. No artigo, o cientista refere ainda que a “autenticidade dos antigénios identificados” foi validada em indivíduos “com tuberculose latente, com tuberculose activa e pessoas vacinadas por BCG”» («Tuberculose. Há novos planos para melhorar a velha vacina que temos», Andrea Cunha Freitas, Público, 9.01.2020, p. 34).

      Já não digo imunopeptidómica, mas pelo menos peptidómico devia estar nos nossos dicionários. Quanto maior for o número de palavras indevidamente fora dos dicionários, mais os patetas (e mais patetas) se sentem legitimados para usar termos estrangeiros. Pensem nisto.

 

[Texto 12 620]

Léxico: «passar à História»

Mas tem dois sentidos...

 

      «Na noite da desordem que se lhe seguiu (Noite Sangrenta, nome com que passou à história), vários políticos republicanos, como Machado Santos, Carlos da Maia e o próprio António Granjo foram selvaticamente assassinados» (História de Portugal: das Revoluções Liberais aos Nossos Dias, António Henrique R. de Oliveira Marques. Lisboa: Palas Editores, 1977, 4.ª ed., p. 283).

      Eu escreveria (ou, como revisor, emendaria) «passar à História». Aqui estaria tudo resolvido. E nos dicionários? Bem, o dicionário da Porto Editora esquece metade da história, pois apenas regista um sentido da expressão: «passar à história cair no esquecimento».

 

[Texto 12 619]

Léxico: «biturbo | quadriturbo»

Seria demasiado bom

 

   «Numa entrevista à Automotive News, o responsável pela Investigação e Desenvolvimento (I&D) da marca alemã, Klaus Fröhlich, confessou que, além do quadriturbo a gasóleo que vai ser descontinuado por ser demasiado caro e complexo, também o pequeno 1.5 diesel de três cilindros será abandonado, sendo este um motor particularmente mais importante para o mercado português, uma vez que serve as versões mais acessíveis da Série 1, Série 2, X1, X2 e Mini» («Motores de combustão vão durar mais 30 anos. Mas não todos», Alfredo Lavrador, Observador, 8.01.2020, 13h07). Creio que era legítima a minha expectativa de ir a encontrar pelo menos o vocábulo biturbo nos nossos dicionários. Nada.

 

[Texto 12 618]

Léxico: «numénico»

Um fenómeno

 

      Porto Editora, deixas-nos (uf!) dizer fenoménico, mas recusas-nos o numénico. Queres explicar? «Resumamos e expliquemos: Antero perscruta e define o “ser” pelos dois aspectos: o racional e o empírico, o absoluto e o relativo, o numénico e o fenoménico» (Antero de Quental: Evolução do Seu Pensamento Filosófico, Lúcio Craveiro da Silva. Braga: Livraria Cruz, 1959, p. 105).

 

[Texto 12 617]

Léxico: «compatibilismo | compatibilista»

Determinístico

 

  Os compatibilistas defendem que tudo está evidentemente determinado, mas que algumas acções são, contudo, livres. (Demasiado complexo?) Para esses, o dicionário da Porto Editora não registar compatibilismo e compatibilista está determinado, e, todavia, a Porto Editora é livre de as registar, se quiser. Fica explicado o compatibilismo.

 

[Texto 12 616]