Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Linguagista

Léxico: «cavilha | patilha»

É o que ele disse

 

      «Por baixo, enterrou uma granada, desenrolou o fio, pôs a mina por cima e tirou a cavilha da granada» (O País Fantasma, Vasco Luís Curado. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2015, p. 12).

      Ora, também não vejo esta acepção de cavilha no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, como não vejo, ocorre-me pela semelhança, em patilha a acepção relativa às letras, aos caracteres tipográficos, pois que designa o mesmo — mas muito melhor, porque nossa — que serifa, que em alguns manuais também vemos referido como apoio ou da letra. Foi a palavra que o calígrafo usou, «patilha».

 

[Texto 12 672]

Léxico: «cinomose | leão-marinho-estelar»

Uma esgana científica

 

      «O vírus da cinomose do focinho (a esgana, que também afeta os cães) é comum no Norte do oceano Atlântico. [...] Os testes mostraram que cerca de 30% dos leões-marinhos estelares no Norte do oceano Pacífico foram infetados pela doença» («Degelo ameaça mamíferos aquáticos», Visão, 14.11.2019, p. 30).

      Quanto a cinomose, está em vários dicionários e vocabulários, mas não nos da Porto Editora. Já o leão-marinho-estelar (Eumetopias jubatus), também conhecido como leão-marinho-de-steller e leão-marinho-do-norte, não o vejo dicionarizado. 

 

[Texto 12 671]

Léxico: «pangrama | pantograma»

The quick brown

 

      «The quick brown fox jumps over the lazy dog.» Foi com este conhecido pangrama inglês que começámos a treinar na oficina de caligrafia. Um pangrama (ou pantograma, que é o único que o VOLP da Academia Brasileira de Letras regista) — e foi mesmo o termo usado pelo calígrafo — é uma frase que tem todas as letras do alfabeto, e, no caso, serviu para treinarmos o desenho de todas as letras. Usámos papel de esquisso A2, pincéis e como tinta recorremos ao baratíssimo viochene. (Se fosse tuvenã é que a Porto Editora não aprovaria...) E é isto, multiplicam-se os casos em que se usam palavras que frequentemente não estão, sem nenhuma justificação, dicionarizadas. Ainda há muito para fazer.

 

[Texto 12 670]

Definição: «hieróglifo»

Menos redutor

 

      Hieróglifo: «cada um dos caracteres ou figuras de um sistema de escrita pictórica, como o dos antigos egípcios, que consiste numa imagem representativa de uma palavra, de um conceito ou de um objecto», lê-se no dicionário da Porto Editora. Decerto, mas a exemplificação, que nem o parece, pode induzir em erro. Na Enciclopédia Britânica tiveram esse cuidado: «Modern usage has extended the term to other writing systems, such as Hieroglyphic Hittite, Mayan hieroglyphs, and early Cretan.» E também não percebo como é que a Porto Editora prega uma coisa — os gentílicos em sentido geral grafados com maiúscula — e pratica outra nos verbetes.

 

[Texto 12 669]

Definição: «piloto»

Um país, duas línguas

 

      «O piloto português sofreu uma queda fatal. As reações dos colegas não se fizeram esperar. “Eras, és e serás sempre um Grande!”, escreve Félix da Costa» («Piloto Paulo Gonçalves morre no Dakar», Marta Grosso, Rádio Renascença, 12.01.2020, 9h38).

      E no texto anterior não citei um artigo em que se falava do piloto holandês Edwin Straver? E não há com frequência notícias sobre o piloto Miguel Oliveira? Então por que razão todos os nossos dicionários definem piloto como (para citar o dicionário da Porto Editora) «aquele que regula a direcção de uma embarcação, aeronave ou automóvel de corrida»? Não podemos ter uma língua no dia-a-dia e outra, distinta, nos dicionários.

 

[Texto 12 668]

Definição: «pulsação»

De certeza?

 

      «O piloto holandês Edwin Straver está em estado crítico depois de ter sofrido um acidente durante a 11.ª etapa do Dakar 2020. [...] “Senti a pulsação no pescoço dele assim que me aproximei, mas de repente deixei de sentir, não consigo verbalizar tudo o que senti: sozinhos no meio do deserto, num cenário absolutamente dantesco. A equipa médica finalmente chegou e realizou com sucesso as manobras de reanimação. Foram os 10 minutos mais longos da minha vida, só saí quando o entubaram e o levaram”, acrescentou [o português Mário Patrão]» («Dakar 2020. Motard holandês em estado crítico», Rádio Renascença, 16.01.2020, 18h05).

      Sou só eu que discordo da definição de pulsação («latejo do pulso ou do coração; palpitação») no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora? O que pensa o meu leitor habitual de Guernesey? Ainda há dias li que um estudo, publicado em finais de Novembro passado nos Annals of Internal Medicine, do cardiologista espanhol Miguel Ángel Cobos Gil concluía que o Apple Watch é tão fiável como um electrocardiógrafo convencional. Quem diria até recentemente... Aquele cardiologista aconselhava a fazer-se o exame em três pontos (o que não surpreenderá os três médicos que seguem — assistem? — este blogue): pulso (onde está sempre), numa perna e no peito.

 

[Texto 12 667]

Léxico: «desvalioso»

O português oculto

 

    «“A atitude da arguida, a forma de realização dos factos, especialmente desvaliosa — desferiu um murro na face, atingindo as zonas do nariz e da boca da juiz de direito, agarrou e atirou um candeeiro à mesma, como agarrou a secretária levantando-a, inclinando-a em direção da juiz de direito, desorganizando todos os objetos de trabalho que estavam em cima da mesma. Agarrou e apertou o pescoço da magistrada do MP [Ministério Público] que se encontrava presente à diligência, magoando-a —, não pode deixar de ser fortemente censurável”, lê-se no comunicado» («Prisão preventiva para mulher que agrediu magistradas no tribunal de Matosinhos», Rádio Renascença, 16.01.2020, 19h01).

       Não se tinha prometido aos cidadãos que os termos em que são redigidos estes documentos seriam simplificados? Boas intenções, apenas e sempre. Nem nos dicionários encontramos este sentido de desvalioso. O dicionário da Porto Editora, como todos os outros, limita-se a dizer que significa «não valioso; sem valia». Pois, pois...

 

[Texto 12 666]

Léxico: «pharming»

Nem no bilingue?

 

      «Por seu lado, 11% dos inquiridos portugueses (que, tal como no resto da Europa, tinham entre 16 e 74 anos) disseram ter sido confrontados nos últimos tempos com ‘pharming’, ou seja, com mensagens eletrónicas que os direcionava para ‘sites’ falsos de forma a, também assim, haver um acesso indevido a informação pessoal como palavras-chave e números de conta» («Um em cada 10 portugueses recebe mensagens eletrónicas fraudulentas», Rádio Renascença, 16.01.2020, 16h04). Ainda não chegou à Infopédia.

 

[Texto 12 665]

Léxico: «superdeterminismo | entrelaçamento»

Filosofia e Física fora de jogo

 

    E depois, Porto Editora, há o superdeterminismo, isto é, um universo em que todos os eventos singulares estão preordenados deste o início dos tempos. Superdeterminismo que oferece uma solução para o mistério do entrelaçamento, mas tu também não registas a acepção da Física deste termo.

 

[Texto 12 664]

Léxico: «condensado»

Aqui não é um resumo

 

      «Um grupo de investigadores do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP) identificou um grupo de moléculas associadas à doença que ajudam no diagnóstico e podem contribuir para um tratamento mais personalizado. De acordo com os cientistas, estas moléculas são detetadas de uma forma simples e não invasiva: na análise do condensado do ar exalado pelas crianças» («Identificar e tratar asma nas crianças pode ficar mais fácil graças a investigação portuguesa», Rádio Renascença, 16.01.2020, 10h08).

      Para os nossos dicionários, condensado é sinónimo de «resumo» e já está. O falante ocioso que se desenrasque. Condensado, nesta acepção, é o gás ou vapor que voltou à forma líquida.

 

[Texto 12 663]

Definição: «matrícula»

Código? Mal se percebe

 

      «A partir de hoje, 15 de Janeiro, entra em vigor o novo modelo de chapas de matrícula nos veículos, deixando de mencionar o mês e o ano em que são colocados em circulação» («Matrículas vão perder a barra amarela com ano e mês de registo», Luísa Pinto, Público, 15.01.2020, p. 23).

      Matrícula, para o dicionário da Porto Editora, é o «código do registo que identifica os veículos, inscrito em placas próprias de uso obrigatório». Placas que são chapas — é o nome mais usado. Identifica os veículos? Quase todos temos ou conhecemos veículos que não têm nem têm de ter chapa de matrícula. E mesmo «código de registo» me deixa com dúvidas. Logo, a definição não é nenhum primor.

 

[Texto 12 662]

Demasiadas línguas

Um certo desvario

 

      «Outras espécies que merecem preocupação das autoridades são os coalas, os dunnart (um pequeno marsupial), a cacatua negra, o potorous longipes ou o escíncido de água das Montanhas Azuis» («Incêndios na Austrália são desastrosos para as espécies ameaçadas», Público, 15.01.2020, p. 30).

      Quatro línguas para designar cinco animais... Português, inglês, castelhano e latim. Claro que o jornalista devia escrever no plural, dunnarts, mas é regra básica que ainda não lhes entrou. E podia reduzir o número de línguas: em vez de Potorous longipes, que até grafou mal, escrevia long-footed potoroo. Quanto a escíncido, pese embora o seu ar de família, na verdade, é castelhano, mas está bem formado mesmo para português, e ajuda provir do latim.

 

[Texto 12 661]

Definição: «fígado»

Isto sim

 

      «É um importante avanço que pode significar um aumento do número de órgãos disponíveis para transplante. Até agora, os fígados apenas podiam ser conservados durante algumas horas fora do corpo, mas a máquina desenvolvida por uma equipa de cientistas do Hospital Universitário de Zurique e da Universidade de Zurique, na Suíça, consegue prolongar este “prazo de validade” até uma semana. [...] O fígado, recordam ainda os investigadores, representa 2,5% do nosso peso corporal, recebe 25% da produção de sangue do coração e desempenha mais de cinco mil funções diferentes» («Máquina mantém fígados vivos durante uma semana», Andrea Cunha Freitas, Público, 15.01.2020, p. 31).

      O que todos os nossos dicionários deviam dizer sobre o fígado era precisamente isto — depois, naturalmente, de verificado.

 

[Texto 12 660]

Como se escreve por aí

Como calha, pois então

 

      Ele pensa que é assim que se escreve: «Isabel dos Santos disse ser vítima de uma campanha política. E falou muito do seu percurso de empresária de sucesso. Da sua transparência nos negócios. Quando o jornalista Vitor Gonçalves lhe questionou sobre a possibilidade de se candidatar à presidência da república, apenas disse: “É possível”» («Uma princesa à beira do precipício», Jorge Araújo, editor da E, Expresso Curto, 16.01.2020).

 

[Texto 12 659]