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Linguagista

Léxico: «primária(s)»

Bem disfarçadas

 

      «O tal modelo inorgânico do Livre destruiu o Livre. As primárias sucessivas ameaçam dividir o PSD em tribos inconciliáveis. A lista é interminável. [...] Os partidos devem ser estruturas elitistas que decidem o seu rumo em congressos, e não em primárias populares e inevitavelmente populistas. Esta democracia direta que vemos em ação um pouco por todo o lado é a antecâmara de movimentos radicais» («Eu quero o “défice democrático” de volta», Henrique Raposo, Expresso Diário, 21.01.2020).

      Não me parece nada boa ideia que as primárias estejam a viver semiclandestinamente no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora sob o nome de eleição primária.

 

[Texto 12 697]

Léxico: «Graupel»

Os Alemães é que sabem

 

      «Muitos dos que viram pensaram que era neve, mas um dia depois da queda de objetos [sic] que pareciam neve em partes do concelho de Palmela o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) avaliou o caso e concluiu que era, afinal, graupel. [...] O graupel “resulta da colisão, verificada em altitude, entre cristais de neve e água líquida que se encontre a temperatura negativa, processo do qual resulta a adesão e imediata congelação da água sobre os cristais de neve”, com partículas que correspondem a um aglomerado de cristais de neve rodeados por gelo, daí o referido aspeto esbranquiçado e opaco do seu interior”. Na prática, quando cai ao solo o graupel não é tão fofo como a neve, nem salta como o granizo quando atinge o chão, sendo um fenómeno, na prática, admite Nuno Moreira [meteorologista do IPMA], entre a neve e o granizo» («Entre a neve e o granizo. Afinal o que caiu ontem em Palmela?», Nuno Guedes, TSF, 21.01.2020, 19h37).

      É o termo alemão Graupel, que o Dicionário de Alemão-Português da Porto Editora diz que se traduz por «pedrisco» ou «pedrinha de saraiva» — mas eu não acredito, e, como viram, tenho boas razões para isso. Os Alemães é que sabem, pois então: «Form von Niederschlag, bei dem Schneekristalle durch angefrorene Wassertröpfchen zu kleinen Kügelchen verklumpt warden» (in Wortbedeutung.info). Não é um argumento demolidor, bem sei, mas seria altamente improvável que um meteorologista português usasse o termo alemão se este significasse mesmo aquilo que se lê no dicionário da Porto Editora.

 

[Texto 12 696]

Definição: «voz»

Uma voz que não se ouve

 

      «Ao contrário da denúncia contra o polícia, a PSP afirmou que a mulher reagiu de forma “agressiva” perante a iniciativa do polícia em tentar dialogar, “tendo por diversas vezes empurrado o polícia com violência, motivo pelo qual lhe foi dada voz de detenção”» («SOS Racismo denuncia “bárbara agressão” de polícia a mulher, PSP diz que foi usada a força “estritamente necessária”», Rádio Renascença, 21.01.2020, 16h48).

      É quase, quase a nona acepção do verbete voz do dicionário da Porto Editora: «ordem militar dada em voz alta». Há duas soluções para isto.

 

[Texto 12 695]

Definição: «jurisprudência»

Frio, frio

 

      «A decisão não é inédita. Em 2018, o Supremo Tribunal espanhol resolveu igualmente atribuir uma pensão de viuvez a uma segunda mulher de um homem polígamo – pese embora, na ocasião, dois juízes tenham votado contra. Assim sendo, este segundo caso, julgado pelo Supremo com igual desfecho, acaba por fazer jurisprudência, ou seja, doravante estes dois casos funcionam como “orientação” para outros juízes em casos similares – e isso é inédito» («Espanha. Supremo Tribunal concede pensão de viuvez às duas mulheres de um casamento polígamo», Rádio Renascença, 21.01.2020, 16h02).

      Nos nossos dicionários, em geral, a definição de jurisprudência é para rir. O sentido usado no artigo em cima corresponde à terceira acepção do dicionário da Porto Editora: «fonte de direito estabelecida pelas decisões dos tribunais sobre questões polémicas». Corresponde, sim, mas mais parece ter sido redigida por um repórter de um tablóide.

 

[Texto 12 694]

Léxico: «tremórico»

Do jargão médico?

 

       «“Vamos, prudentemente, ver os resultados que conseguimos. Há uma base científica suficientemente forte, mas a experiência clínica séria está agora a iniciar-se e, enquanto não houver mais evidência sobre as formas tremóricas [síndrome do Parkinson], não o colocaremos”, concluiu [Rui Vaz, director do serviço de Neurocirurgia do Centro Hospitalar Universitário de São João]» («Parkinson. Hospital de São João lança dispositivo inovador», Rádio Renascença, 21.01.2020, 10h23).

 

[Texto 12 693]

Léxico: «neuroestimulador»

Pois, não ajuda nada

 

      «O neurocirurgião [Rui Vaz, director do serviço de Neurocirurgia do Centro Hospitalar Universitário de São João] adiantou ainda que, neste momento, o neuro estimulador é apenas aplicável a doentes parkinsonianos com síndrome acinética-rígido, isto é, com os movimentos limitados» («Parkinson. Hospital de São João lança dispositivo inovador», Rádio Renascença, 21.01.2020, 10h23).

      A culpa é do jornalista, obviamente, que desconhece a língua que usa, mas não estar nos nossos dicionários não ajuda muito, não é?

 

[Texto 12 692]

Léxico: «mariposa-tigre-escarlate | tentilhão-de-darwin»

Não conheces estas

 

      «Do lado dos organismos vivos, as populações constavam de “alguns dos mais famosos estudos de longo prazo da evolução animal na natureza”. O que quer dizer que usaram os resultados de um estudo de 50 anos sobre a mariposa-tigre-escarlate (Panaxia dominula), um estudo de 43 anos de uma outra espécie de traça (Biston betularia), um estudo de 40 anos sobre os tentilhões de Darwin nas ilhas Galápagos e, finalmente, um estudo de 20 anos sobre um caracol (Cepaea nemoralis). Ao todo, o conjunto de dados biológicos analisados é baseado nos fenótipos de 301.694 indivíduos» («A cultura moderna evolui mais depressa do que a biologia?», Andrea Cunha Freitas, Público, 21.01.2020, p. 37).

 

 [Texto 12 691]

As confusões de sempre

Para que se veja que persistem

 

      «Angola quer fazer regressar Isabel dos Santos a casa “por todos os meios”. A Procuradoria-Geral de Angola tem uma investigação por branqueamento de capitais a correr sobre a empresária e admite emitir mandato de captura a Isabel dos Santos, que ainda não foi ouvida porque saiu de Angola no dia em que foi notificada. É o Procurador-Geral de Angola (PGA), Hélder Pitta Grós, que confirma ao Expresso e à SIC que o processo está numa fase decisiva» («Justiça angolana quer Isabel de volta ao país», Cristina Peres, Expresso Curto, 21.01.2020).

 

[Texto 12 690]