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Linguagista

Léxico: «neuropsicólogo»

É só um dos problemas

 

      «Mas há salas de aula que já substituíram os cadernos desgastados e as canetas mastigadas por conteúdos digitais, um assunto despertou o interesse de uma equipa de neuropsicólogos da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade de Trondheim, na Noruega. [...] O Dia da Escrita à Mão celebra esta invenção com mais de 3.500 anos para nos lembrar que cada qual tem a sua própria forma de escrever» («A beleza das letras escritas à mão», André Rodrigues, Rádio Renascença, 23.01.2020).

      Ah, por um pouco e estava no dicionário da Porto Editora: regista neuropsicologia e neuropsicológico. E lá passou o Dia da Escrita à Mão e nada escrevemos à mão, o que me trouxe à mente o termo patilha para designar o que os alienígenas conhecem por «serifa» — e a isto a Porto Editora encolheu os ombros.

 

[Texto 12 705]

Léxico: «arara-militar | dolina»

Duas ou mais

 

      «As penas recolhidas no fundo e nas zonas adjacentes à dolina, juntamente com penas de outras aves de jardins zoológicos de todo o país, foram submetidas a testes de DNA [sic] no laboratório da UNAM [Universidade Nacional Autónoma do México]» («Fortaleza natural defende as araras militares», Erick Pinedo, National Geographic, Janeiro de 2020, p. 105).

      No próprio texto, porém, já é arara-militar (Ara militaris) que se lê. Não está no dicionário da Porto Editora, que só acolhe a arara-macau. Mas não é por isso que aqui venho, mas por causa de dolina, que aquele dicionário regista, mas não relaciona com uvala, que é a designação que se dá a duas ou mais dolinas interligadas.

 

[Texto 12 704]

Léxico: «tarântula-de-porto-santo | aranha-lobo-de-porto-santo»

Linda e má

 

      «De hábitos crepusculares e nocturnos, a tarântula do Porto Santo (Hogna schmitzi) é uma aranha endémica desta ilha e do ilhéu do Ferro, na Região Autónoma da Madeira» (National Geographic, Janeiro de 2020).

      É a tarântula-de-porto-santo, ou aranha-lobo-de-porto-santo. Muito bonita, sem dúvida, na fotografia de Luís Quinta — mas a picada pode provocar necrose local.

 

[Texto 12 703]

As várias profissões da indústria têxtil

Muito poucas

 

      «Curiosamente as acabadeiras, as tapeteiras, as cintadeiras, as enfiadeiras, as esbicadeiras, as fiandeiras, as operadoras de máquinas de penteação, as bobinadeiras, as caneleiras, as movimentadoras, as passadeiras, as debruadoras, as urdideiras, não sabiam nada dela» (Café Montalto, Manuel da Silva Ramos. Coimbra: Alma Azul, 2003, p. 295).

      Nos nossos dicionários, sem excepção, nem uma fracção destas profissões maioritariamente femininas da indústria têxtil está registada. Há quem ache tudo isto natural.

 

[Texto 12 702]

Léxico: «demência frontotemporal»

Não é coisa boa

 

      «Em 2015, Jones foi diagnosticado com demência frontotemporal, tendo assumido o papel de “embaixador” da doença. Em 2017, apareceu na cerimónia dos prémios “Bafta” para demonstrar os efeitos da doença e deu uma entrevista conjunta com Michael Palin» («Morreu Terry Jones, dos Monty Python», Rádio Renascença, 22.01.2020, 12h54).

      Não seria demasiado termos demência frontotemporal (DFT) nos nossos dicionários, até porque o adjectivo frontotemporal pode levar-nos a desvalorizar. (Felizmente o jornalista escreveu o nome da doença com minúsculas. Ainda há quem use a cabeça — ou, pelo menos, siga os meus conselhos, o que no caso é equivalente.)

 

[Texto 12 701]

Léxico: «interanual»

Na Galiza há

 

      «A APA adianta, no mesmo documento, que “durante a época de invernada, segundo as contagens efetuadas pelo ICNF, o Estuário do Tejo alberga dezenas de milhares de aves aquáticas, cujos efetivos, embora sujeitos a flutuações interanuais, se estima atualmente poderem chegar a 200 mil aves regularmente”. “Relativamente à avifauna aquática migradora durante as épocas de migração, estima-se que em alguns anos possa ultrapassar os 300 mil efetivos”» («Aeroporto do Montijo. Aves têm de ser estudadas durante mais um ano», Nuno Guedes, TSF, 22.01.2020, 7h09).

      E onde vamos encontrar o adjectivo interanual, onde? No Gran Dicionario Século 21 da Lingua Galega: «Aplicase a aqueles datos obtidos mediante a comparación co dato correspondente á mesma data do ano anterior.» Também o vamos encontrar em três textos de apoio da Infopédia — e em dois casos está mal escrito. Acho que precisam de um bom dicionário.

 

[Texto 12 700]

Léxico: «GbE | NAS | baía»

É o mundo em que vivemos

 

      Foi agora lançado o TerraMaster F5-422, um NAS de cinco baías com ligação Ethernet de 10 GbE. Porto Editora, actualiza-te: baía já é aportuguesamento consolidado nesta área; a sigla NAS (de network-attached storage) é corrente e, por fim, GbE, ou GigE, de gigabit Ethernet, para designar a velocidade de ligação. É que já andamos há anos a ver baía, GbE e NAS em jornais, revistas, blogues em língua portuguesa, todos têm de perceber do que se trata.

 

[Texto 12 699]

O fascínio do estrangeiro

Em latim é mais científico

 

     «Ainda que, segundo EmeCii, body piercer da Queen of Hearths Tattoos, em Lisboa, as perfurações mais requisitadas sejam as da hélix, concha, tragus (todas na orelha), mamilo e nariz, há uma procura cada vez maior de “piercings fora do normal”, através dos quais os clientes possam “demonstrar irreverência» («Marcar o corpo, furo a furo», Mariana Albuquerque, «Notícias Magazine»/Jornal de Notícias, 12.01.2020, p. 46). E a Mariana Albuquerque também quer demonstrar irreverência ao optar por escrever em latim, «tragus», em vez de em português, «trago»? Não lhe chamaria tal.

 

[Texto 12 698]