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Linguagista

Léxico: «psicobiótico»

Aguardemos

 

   «A relação cérebro-intestino é cada vez mais evidente e até arriscamos a chamar os nossos probióticos (bactérias benéficas presentes no intestino) de psicobióticos (bactérias que influenciam o funcionamento do cérebro)» («Em nome da felicidade e do seu bem-estar (e do seu intestino) coma comida de verdade, descasque mais, desembale menos e lembre-se de quanto maior a vida dos alimentos menor a sua», Ana Pinto, Lux, 5.11.2019).

      Quem se atreveu pela primeira vez foi, na verdade, Timothy G. Dinan e seus colaboradores, que em 2013 cunharam o termo psychobiotics. «Psychobiotics were previously defined as live bacteria (probiotics) which, when ingested, confer mental health benefits through interactions with commensal gut bacteria» (in PubMed Central). Até em teses e dissertações portuguesas vejo o termo, mas os dicionários ainda não o registam.

 

 [Texto 12 715]

Léxico: «ene»

Nê? Ná

 

      «Gostava de acreditar, juro que gostava. Mas tenho umas décadas de comunicados da PSP e da GNR na memória, mais ene exemplos de autos de notícia totalmente martelados — do género do subscrito pelo subcomissário Filipe Silva, que em 2015, em Guimarães, filmado em direto a agredir, por aquilo que parece razão absolutamente nenhuma, um adepto do Benfica e respetivo pai à frente dos respetivos filhos e netos, os acusava de o terem cuspido, rasgado o uniforme e agredido — e não vejo a PSP e a GNR mudar de modus operandi» («O parto que o polícia afinal não fez e outras fábulas», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 25.01.2020, 00h4).

      Não é que eu usasse tal palavra, mas tenho de reconhecer que não são assim tão poucos os que o fazem e, o que é mais, está dicionarizada nesta acepção. Não é o que faz, porém, a Porto Editora, em cujo dicionário se que lê que ene é o «nome da letra n ou N; nê». E pronto, mais nada. Até parece que nos querem fazer crer que Fernanda Câncio está a delirar.

 

[Texto 12 714]

Nova tradução da Bíblia

Nós esperamos

 

    «A nova tradução da Bíblia em português, produzida pela Conferência Episcopal Portuguesa [CEP], já pode ser consultada online. [...] O Bispo de Viana do Castelo [e também biblista, D. Anacleto Cordeiro Gonçalves Oliveira] não faz ideia de quando é que a tradução de toda a Bíblia possa estar concluída. Dá como exemplo as Bíblias alemã e francesa que levaram cerca de 20 anos a ficarem traduzidas. Por cá só se começou a fazer este trabalho há uns sete anos» («Nova tradução da Bíblia em português já está disponível online», Ana Lisboa, Rádio Renascença, 26.01.2020, 12h06).

    É também, e a esse título a trago aqui, uma obra de consulta imprescindível para tradutores e revisores, e agora passamos a ter mais um texto para confrontar com outras versões. Bom é, em tudo na vida, termos alternativas, outras opções.

 

[Texto 12 713]

Léxico: «tanaidáceo(s)»

Está no VOLP da ABL

 

      «Com quase cinco centímetros, o ‘Apseudopsis formosus’ assemelha-se a um pequeno camarão e vive no substrato da Ria Formosa. Podem existir mais espécies por caracterizar, admite investigador. [...] O artigo científico a descrever a existência do crustáceo tanaidáceo foi publicado em novembro do ano passado na revista da especialidade “Marine Biodiversity” assinado pelos investigadores André N. Carvalho, Fábio Pereira, David Piló, Miguel B. Gaspar e Patricia Esquete» («Parece um camarão, mas é um crustáceo. Nova espécie encontrada na Ria Formosa», Rádio Renascença, 25.01.2020, 20h31).

      Devem preferir que usemos o latim científico Tanaidacea, deve ser isso. Sendo assim, fica aqui a definição do Michaelis: «Pequeno grupo de crustáceos da ordem dos malacostráceos, geralmente marinhos, embora alguns sejam encontrados nas regiões costeiras de rios e estuários, a maioria medindo de 0,5 a 12 cm de comprimento, na fase adulta. Têm a carapaça formada pela fusão dos dois primeiros metâmeros torácicos e télson não articulado.»

 

[Texto 12 712]

Léxico: «linguado-da-guiné»

Uma ementa a precisar de emenda

 

      E a propósito de zamburinhas, e mais genericamente de peixe: na semana passada, comi, e entretanto até já me tinha esquecido, linguado-da-guiné (Synaptura candenati) grelhado. Linguado e solha são os meus peixes de eleição. Já vi que não faz parte da ementa do dicionário da Porto Editora.

 

[Texto 12 711]

Léxico: «zamburinha»

Nada louvável

 

      «Nos mariscos, além dos pedidos à peça, há quatro pratos mistos diferentes: o de sapateira (€50), navalheira (€35) e lavagante (€80), todos acompanhados por percebes, gambas e canilha, e o quente (a €130), composto por vieiras, lagosta, camarão-tigre, zamburinas e amêijoas» («Ostras & coisas», «GPS»/Sábado, 22.08.2019, p. 103).

     Pois, não, não: imagino que um galego reintegracionista, ou qualquer português com umas luzes de ortografia, escrevesse zamburinha (Chlamys varia), que é justamente como já tenho visto. Não estar nos nossos dicionários, quando a palavra se usa em Portugal, é que também não é nada louvável.

 

[Texto 12 710]

Léxico: «superávite | excedente»

Não é este o caminho

 

      «Estou a escrever na quase certeza de que o Orçamento do Estado vai ser aprovado tal como o conhecemos, com a marca de ser o primeiro em democracia com superávite» («Valeu a pena?», Manuela Ferreira Leite, «Economia, Imobiliário & Emprego»/Expresso, 11.01.2020, p. 1).

      Se em deficit a Porto Editora remete para défice — e muito bem —, em superavit não remete para superávite, porque — e muito mal — não regista este aportuguesamento. E já viram quão pouco português é o plural, «superavits», já viram? Deviam estar, têm essa obrigação, na vanguarda da defesa do idioma, mas preferem alinhar com o conformismo geral. Outro aspecto: em «superavit» não devia haver uma remissão para «excedente» e, neste, a indicação daquele como sinónimo? «Entre 1973 e 2020, o único ponto em comum é mesmo o excedente» (Luís Villalobos e Sérgio Aníbal, Público, 26.01.2020, p. 4).

 

[Texto 12 709]

Léxico: «pica-pau-malhado-grande»

Só o pequeno

 

      «César Garcia [botânico responsável pelo Jardim Botânico Tropical] pede ainda para repararmos no habitat de um pica-pau-malhado-grande, cujo ninho é difícil de observar noutros locais em Lisboa. “Quem gosta de fauna e flora delicia-se aqui”, confessa, enquanto tira fotografias» («A nova vida do Jardim Botânico Tropical de Lisboa começa agora», Teresa Sofia Serafim, Público, 25.01.2020, p. 31).

      O dicionário da Porto Editora só tem o minor, não este pica-pau-malhado-grande (Dendrocopos major). Ou melhor, regista pica-pau-malhado — que diz ser este Dendrocopos major. A pequeno, contudo, opõe-se grande.

 

[Texto 12 708]