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Linguagista

Frutos da árvore envenenada

Uma metáfora legal

 

   «“A nossa Constituição tem uma resposta muito clara, diz expressamente que são nulas todas as provas obtidas mediante violação de correspondência ou telecomunicações. Portanto, neste caso, essas provas não podem ser usadas”, explicou à TSF Luís Menezes Leitão [bastonário da Ordem dos Advogados]. Caso as provas sejam conseguidas novamente por outra via, segundo Menezes Leitão permanecem nulas. É a doutrina dos frutos da árvore envenenada, que faz parte da jurisprudência norte-americana» («Provas do Luanda Leaks podem ser nulas em Portugal», Dora Pires, TSF, 27.01.2020, 16h44).

      Sim, é a famigerada doutrina dos frutos da árvore envenenada — tradução do inglês fruits of the poisonous tree. Foi usada pela primeira vez no processo Nardone vs. United States (1939), de que foi relator o jurista austro-húngaro-americano Felix Frankfurter (1882–1965). (E a definição de jurisprudência nos nossos dicionários? Nem me posso lembrar disso.)

 

[Texto 12 723]

Léxico: «cérebro»

Faz muita falta

 

      «João Paulino, alegado mentor do assalto aos paióis de Tancos, foi libertado ao final da tarde desta segunda-feira» («Cérebro do assalto a Tancos foi libertado», Nuno Guedes, TSF, 27.01.2020, 19h24).

      Parece mentira, sim, mas nunca é mentira: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não acolhe este sentido figurado de cérebro. Impressionante!

 

[Texto 12 722]

Léxico: «axonal»

Agonal, amonal, atonal? Não

 

      «Só que – e aqui é que está a novidade – esse aumento não se limita ao ramo periférico do axónio; abrange também o seu ramo central. E isso faz com que, se o axónio central sofrer uma lesão subsequente (isto é, uma lesão da medula espinal), “toda a maquinaria necessária para montar a regeneração axonal já estará presente e funcional” devido à anterior lesão periférica, explica Fernando Mar, co-autor do trabalho, citado no mesmo comunicado» («Descoberto potencial mecanismo-chave da regeneração de lesões espinais», Ana Gerschenfeld, Público, 22.04.2014, 22h05).

      De axónio, vá lá, ainda se lembraram na Porto Editora, mas quanto ao adjectivo axonal é que não lhes passou pela mente. Como pode isto acontecer? «Queria pesquisar agonal, amonal, atonal

 

[Texto 12 721]

Léxico: «trivialização»

Há sempre mais uma

 

      «A trivialização do sofrimento ocorre hoje em dia muito para além do contexto da luta. Parece ter-se tornado a mais vulgar expressão de indiferença perante o corpo sofredor» (O Fim do Império Cognitivo, Boaventura de Sousa Santos. Coimbra: Edições Almedina, 2018, p. 191).

      Ao que parece, alguns lexicógrafos esqueceram-se de a dicionarizar, embora trivializem. Pararam na trivialidade, quando não em trivialidades.

 

[Texto 12 719]

Léxico: «federar»

É mais do que isso

 

      «Em política, o que parece é. A quinze dias do congresso do PSD, Passos reposiciona-se como a única figura que pode federar a direita, como vários barões do partido disseram no fim da campanha interna. Se quer mesmo desempenhar esse papel a médio prazo, isso só ele saberá...» («O novo CDS de ‘Chicão’: “sexy” ou perigoso? (E a aparição de Passos)», Vítor Matos, Expresso Curto, 27.01.2020).

      Parece-me claríssimo que a única acepção registada no dicionário da Porto Editora não serve para todos os usos — como se pode comprovar com a citação que faço — do verbo federar: «unir várias organizações numa só, por laços que respeitam certa autonomia das associadas».

 

[Texto 12 718]

Confusões: «xeque/cheque»

Volte à casa 1

 

      «Quando há cinco meses — antes das Legislativas —, alguém que conhece bem o CDS me disse que Francisco Rodrigues dos Santos ia ser o próximo presidente do partido, confesso que não acreditei. A viragem parecia-me demasiado radical, demasiado arriscada, demasiado desesperada. Mas, já se sabe: a desgraça de uns é quase sempre a felicidade de outros e a tragédia eleitoral do CDS — que era um desastre à beira de acontecer — era a peça que faltava ao Chicão para fazer cheque-mate» («Chicão, o bicho-papão», Anselmo Crespo, TSF, 26.01.2020, 16h55).

      Também nós não queríamos acreditar — mas é uma triste evidência que temos aqui mais um jornalista que não domina os arcanos da ortografia da língua, seu instrumento de trabalho. As homófonas xeque e cheque são muitas vezes confundidas, mas tal não devia acontecer com um jornalista. Também precisa de prestar mais atenção à pontuação.

 

[Texto 12 717]

Como se escreve nos jornais

Valores trocados

 

      «“Chicão”, como é conhecido dentro do partido – um nickname criado por Paulo Portas — assume gostar de música de intervenção (com a referência de Zeca Afonso), mas também de Coldplay, Beatles, Queen, Pearl Jam, Rui Veloso, Samuel Úria e B Fachada» («Francisco Rodrigues dos Santos, o jovem que também agrada aos antigos», Sofia Rodrigues, Público, 27.01.2020, p. 3).

      A Sofia Rodrigues não ocorreu a palavra portuguesa — alcunha. É triste. E ninguém vê. Nickname, nesta acepção, é «a familiar or humorous name given to a person or thing instead of or as well as the real name». Alcunha, pois. Só na acepção que o dicionário da Porto Editora acolhe, como anglicismo, é que faz algum sentido usarmo-lo: «nome curto e fácil de recordar, pelo qual uma pessoa se identifica quando está a conversar, usado geralmente em chats». (Só faltou o itálico em «chats», mas ninguém é perfeito.)

 

[Texto 12 716]