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Linguagista

Etimologia: «charuto»

E agora teratologia

 

    Eu sei que alguns dos meus leitores têm uma enorme predilecção pela teratologia, e nem todos será por deformação profissional (mas de carácter?), e esta, a teratologia, também se aplica aos dicionários. Quando na terça-feira de manhã consultei o verbete charuto no dicionário da Porto Editora, deparei com isto, com este espectáculo: «Do tâmasculino churuttu, “envolver; enrolar”, pelo inglês cheroot, “charuto de pontas cortadas”». Será do «tâmul», mas veio agarrado na ponta do cursor um «masculino», e formou-se ali aquele conúbio. E já que aqui chegámos, diga-se seriamente que essa etimologia é demasiado controversa para se gravar na pedra assim de ânimo leve. Ah, sim, e faltam acepções em charuto, mas isto costuma passar.

 

[Texto 12 731]

Léxico: «boiadeiro-bernês»

Permitida a entrada a cães

 

      O autor, que já teve muitos cães (é uma pena viverem tão pouco, mas com os ratos é bem pior), tem actualmente um boiadeiro-bernês, de nome... Não, não vou dizer o nome. Claro que isto não nos aquece nem nos arrefece — mas devia interessar à Porto Editora, já que os únicos boiadeiros que conhece são os indivíduos que guiam ou tocam uma boiada. Ainda há boiadeiros em Portugal? Ou só no Brasil?

 

[Texto 12 730]

Léxico: «implicatura»

A prova suplementar

 

      «A implicatura conversacional acima assinalada em itálico é imediatamente cancelada se o falante acrescentar ao seu enunciado aliás/em boa verdade, o filho do Rui está sempre a queixar-se» (Pragmática: Uma introdução, Ana Cristina Macário Lopes. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2018, p. 95). Já por aí vejo o termo implicatura há muito tempo, mas ainda não chegou ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. A prova suplementar de que faz falta vamos encontrá-la precisamente na Infopédia, pois está num dicionário bilingue.

 

[Texto 12 729] 

Léxico: «pneumologista»

Num dicionário especializado?

 

      «O coordenador do gabinete de crise para o coronavírus, criado pela Ordem dos Médicos, mostra-se preocupado com a imprevisibilidade do vírus que está na origem do surto que já matou até ao momento 106 pessoas na China. O pneumologista Filipe Froes lembra que o vírus “veio do mundo animal, que passou a barreira das espécies e, portanto, é completamente desconhecido”» («Coronavírus. Especialista preocupado com “imprevisibilidade do vírus”», Carla Fino, Rádio Renascença, 28.01.2020, 10h31).

      A Porto Editora acha que pneumologista é termo que só tem pertinência num dicionário especializado como é o seu Dicionário de Termos Médicos.

 

[Texto 12 728]

Léxico: «Solutrense | Epipaleolítico | Neoeneolítico»

Mais esquecimentos

 

      «Do ponto de vista arqueológico, a gruta foi uma grande descoberta porque há vestígios de ocupação humana do ano 50.000 a. C. até 2500 a. C. Durante o Solutrense, por exemplo, a gruta foi ocupada nos períodos frios, com as populações locais a fazer vida no exterior e este a ser o seu refúgio. Uma das grandes descobertas arqueológicas na gruta foi o esqueleto de “Pepita”, datado em 6310 a. C., no período cultural conhecido como Epipaleolítico. Um esqueleto muito bem conservado, exibido agora no Museu de Nerja, sobre o qual existe muita informação graças aos estudos realizados. Esta gruta foi utilizada no Neolítico para os enterros» («Cueva de Nerja. A descoberta de cinco amigos que mudou a história», Belén Rodrigo, Diário de Notícias, 28.01.2020, 10h06).

    Desistam, não vão encontrar no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nem Solutrense nem Epipaleolítico. Como também não vemos nele Neoeneolítico, que é usado, mas mal grafado, num texto de apoio da Infopédia.

 

[Texto 12 727]

Léxico: «bioprocesso | agro-resíduo»

Tudo natural

 

      Ontem, no episódio 777 dos 90 Segundos de Ciência, da Antena 1, falou-se de um projecto em que se utilizam cascas de frutos para desenvolver compostos prebióticos, complementos nutricionais com benefícios para a saúde. A investigadora («post-doc»...) Cláudia Amorim, do Centro de Engenharia Biológica (CEB) da Universidade do Minho, que usou o termo «nutracêutico», em boa hora sugerido por mim e acolhido pela Porto Editora, esclareceu que estes compostos prebióticos são elaborados por meio de um bioprocesso sustentável que utiliza os agro-resíduos (cascas de banana, castanha, caules de cebolas e alho, etc.) como matéria-prima.

 

[Texto 12 726]

Tradução: «mulching»

A galinha da minha vizinha

 

      «Os investigadores recomendam a aplicação do mulching. “Um acolchoado de resíduos orgânicos, a substituição da manta morta por uma manta artificial de resíduos florestais sobre o solo ardido. E isso já providencia uma boa redução desses arrastos”, explica a investigadora. “Isto já é feito nos Estados Unidos e na Galiza frequentemente. É só pôr uma camada de palha ou de resíduos florestais por cima das áreas ardidas, o que tem bastante eficiência”» («Cientistas alertam para impacto dos fogos na água da capital», Cristiana Faria Moreira, Público, 28.01.2020, p. 20).

    Aposto que na Galiza não lhe chamam mulching. Bem, não precisamos desse suposto nome galego: em Portugal, ao que sei, dá-se-lhe o nome de empalhamento ou cobertura morta (não que os dicionários o digam). Mas desde quando é que investigadora ou jornalista se iam preocupar com tais minudências?

 

[Texto 12 725]

Léxico: «translação | translacional»

A ciência fica a perder

 

      «A estratégia “choque e morte” consiste precisamente na activação dos reservatórios latentes, que começarão a produzir vírus (o choque), para depois serem eliminados (a morte). Esta é, aliás, uma das áreas mais exploradas na investigação do VIH nos últimos anos. Até agora, os resultados de experiências relativamente à activação dos reservatórios latentes não têm sido consistentes, realça Victor Garcia, director do Centro Internacional para o Avanço da Ciência Translacional da Universidade da Carolina do Norte (nos EUA) e um dos coordenadores de um dos artigos» («Conseguiu-se “acordar” o VIH para que um dia adormeça de vez», Teresa Sofia Serafim, Público, 28.01.2020, p. 30).

     Comecemos pelo termo translação. Nesta acepção não está no dicionário da Porto Editora, e é usado e conhecido em Portugal. Dá-se esta designação ao processo de síntese de proteínas guiada por mRNA, o RNA mensageiro. Quanto à ciência ou pesquisa translacional (do inglês translational research), que também não vejo dicionarizado nesta acepção, é a pesquisa que procura aproximar o trabalho do investigador de aplicações práticas, ou seja, surgiu para unir a teoria à prática, afastamento que até o senso comum achava e acha aberrante.

 

[Texto 12 724]