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Linguagista

Léxico: «infectologista»

Não têm

 

      «Na verdade, não é propriamente tradição comer morcego na China. Os morcegos são apontados como principais vetores do coronavírus, mas biólogos e infectologistas acreditam que exista mais um animal que tenha sido intermediário no processo da mutação do vírus que foi detetado no mercado de peixe de Wuhan» («Vídeo de “sopa de morcego” que circula nas redes sociais não foi gravado na China», Rádio Renascença, 28.01.2020, 19h34).

      A Porto Editora não tem infectologista — só infecciologista e insectologista. Também podem mandar herpetologistas, dada a provável origem do coronavírus 2019-nCoV (aguardamos um nome mais prenhe de semântica).

 

[Texto 12 739]

Definição: «requalificação»

Acham que sim?

 

      «O presidente da Câmara do Porto anunciou esta quarta-feira que vai propor que o Coliseu da cidade seja concessionado a privados por forma a avançar com as obras de requalificação que têm um custo estimado em 8,5 milhões de euros» («Coliseu do Porto. Câmara propõe concessão para avançar com requalificação», TSF, 29.01.2020, 13h25). Palpita-me que a Porto Editora não vai permitir estas obras, pois entende que requalificar é «melhorar (um espaço público) a nível ambiental, urbanístico, etc.; revitalizar». Talvez tente até impugnar o concurso.

 

[Texto 12 738]

Definição: «joalharia»

Mais trapalhice

 

        «Na última semana, o Procurador-Geral de Angola, Hélder Pitta Grós, admitiu que entre os processos em investigação está o financiamento com dinheiros públicos da empresa pública de diamantes, Sodiam [200 milhões de dólares, 180 milhões de euros] para a compra da joalheira De Grisogono» («Joalheira De Grisogono anuncia que entrou em falência», TSF, 29.01.2020, 10h21). E assim até ao fim: joalheira, joalheira, joalheira. Contudo, quando, por duas vezes, mencionam o nome da empresa, já escrevem «De Grisogono/Joalharia de Luxo». A habitual trapalhice. Diga-se também que esta concreta acepção de joalharia não está no dicionário da Porto Editora. Pois é.

 

 [Texto 12 737]

Armadilha de Tucídides

É melhor explicar

 

      «Os EUA estão obcecados com a China para conter a sua ascensão e a China está obcecada com os EUA para impedir o domínio americano, em particular na Ásia. Esta disputa vai acentuar-se e, sabemos pela História, que o risco maior é as duas grandes nações caírem na chamada “Armadilha de Tucídides”. Na sua dinâmica de agressividade podem atingir um ponto de não retorno que torna o conflito inevitável» («O regresso da geopolítica», António Costa Silva, Professor do Instituto Superior Técnico, Público, 29.01.2020, p. 31).

      E que vem a ser isso de Armadilha de Tucídides? O historiador grego, na sua obra História da Guerra do Peloponeso, afirmou que a guerra se deveu ao medo que a ascensão de Atenas incutiu em Esparta. Um professor de Harvard, Graham T. Allison Jr. (n. 1940), tornou depois popular a expressão para descrever estes conflitos entre potências emergentes e superpotências.

 

[Texto 12 736]

Léxico: «gato-almiscarado»

Almiscarado, só rato

 

      «Em 2002 esteve na origem de uma epidemia SARS (síndrome aguda respiratória) que foi consequência do salto da barreira de espécie que envolveu o gato-almiscarado» («Reflexão sobre a nova epidemia de coronavírus», Francisco George, Público, 29.01.2020, p. 5). No dicionário da Porto Editora, só rato-almiscarado. Pois, não serve. Na realidade, o gato-almiscarado (Civettictis civetta) é conhecido por vários nomes, o que é muito comum, e vários deles estão naquele dicionário: algália, lagaia (em São Tomé e Príncipe), civeta, gato-algália, etc.

 

[Texto 12 735]

Léxico: «pluricontinental»

Há aí um dicionário que...

 

      «Foram, então, concebidos e desenvolvidos procedimentos, aliás, raramente aplicados, aparentemente inovadores, como o cordão sanitário e a quarentena. Métodos de controlo que eram há muito conhecidos dos historiadores que descreveram esses processos em surtos como a peste medieval na Europa ou, mais tarde, em 1899, durante o isolamento da cidade do Porto proposto por Ricardo Jorge. Medidas quase sempre impopulares, mas que parecem confirmar a sua eficácia ao reduzirem consideravelmente a probabilidade de exportação da epidemia (50% a 75%?). A perspetiva é impedir o crescimento descontrolado da magnitude do problema e, portanto, a sua extensão pandémica (isto é, a propagação simultânea pluricontinental)» («Reflexão sobre a nova epidemia de coronavírus», Francisco George, Público, 29.01.2020, p. 5).

      É adjectivo que não está no dicionário da Porto Editora, e até para a definição de pandemia seria útil.

 

[Texto 12 734]

Léxico: «carro-grua | queimador»

Não temos

 

      «A partir de agora, a autarquia, que tinha apenas uma equipa de combate à vespa asiática — composta por um técnico e dois operacionais e munida de equipamentos de proteção individual, carro-grua e queimadores — passa a ter cinco, depois de dotar as quatro corporações de bombeiros de meios de combate, referiu o autarca, à margem da entrega dos novos equipamentos» («Câmara de Matosinhos vai destruir ninhos de vespa asiática com arma de paintball», TSF, 28.01.2020, 20h49).

        Não vamos encontrar carro-grua nos nossos dicionários, e mesmo queimador nesta acepção só com muito boa vontade — o que nestes casos não é recomendável. No dicionário da Porto Editora, por exemplo, há duas acepções pertinentes: «aparelho ou dispositivo que faz a queima de um combustível, com o objectivo de produzir energia calorífica» e «peça ou estrutura onde se queima algo». Nenhuma se aplica. Consideremos algo (talvez) mais familiar: um queimador a gás de leite-creme: não serve para produzir energia calorífica nem nada se queima nele.

 

[Texto 12 733]

Léxico: «microdelecção | cariotipagem | citogénico»

É essa a ideia

 

      Em genética, fala-se de microdelecção quando ocorre uma perda de uma pequena parte do ADN de um cromossoma não detectável na cariotipagem usual. A Porto Editora encafuou o sinónimo delecção («Aberração cromossómica caracterizada por amputação de parte ou de todo o segmento intermédio de um cromossoma») e cariotipagem («Análise cromossómica em que se fazem estudos citogénicos fundamentais para caracterizar situações em que existem defeitos congénitos») no Dicionário de Termos Médicos. E citogénico está num bilingue. Nada como dificultar a vida ao falante, esse grande filho da mãe ocioso.

 

[Texto 12 732]